terça-feira, outubro 12, 2010

Minha História de Vendedor

Conseguir um emprego na área de Comunicação Social, em São Luís, não é fácil. É currículo pra cá, e é currículo pra lá, você faz verdadeiros passos de dança distribuindo esses documentos que pouco importam na cidade onde quem te indica é quem te atribui menor ou maior credibilidade. Constrangedor. Nesse tenta disso e tenta aquilo, já caí em armadilhas como reuniões de recrutamento de vendedores de Erba Life, mas também dei entrevistas e passei por alguns processos seletivos interessantes, sem muito sucesso.

Na minha última grande oportunidade, fui selecionado para trabalhar em uma multinacional misteriosa, onde eu seria vendedor em eventos e exposições de "obras" vindas de Londres e Madri, nas quais eu poderia ter alto rendimento financeiro. Fiquei empolgadíssimo. Imaginava-me estudando obras de artes plásticas e convencendo granfinos a comprar quadros maravilhosos produzidos por artistas renomados da Europa.

(Uma pausa para que você ria por dentro)

Na primeira reunião após eu ter sido selecionado, descubro que a empresa é a Barsa e que eu estava sendo contratado para vender livros e cursos de língua estrangeira. Tudo bem! O sonho se desfez, mas até gostei quando soube o valor da generosíssima comissão por produto. Seria uma oportunidade única de, de repente, iniciar um investimento financeiro que, num futuro, pudesse me possibilitar fazer os cursos que idealizo. Arrisquei na Barsa, hoje estou um vendedor. Quem diria! Não tenho vergonha desse trabalho, é algo provisório, que alguma coisa vai me ensinar. Não vendi nada ainda, mas já pude conversar com umas setenta pessoas dessa ilha. No meio dessa gente toda, em uma determinada agência de advocacia, num determinado prédio comercial, em um determinado bairro, cruzei com a pessoa que considero a mais pedante e mal educada com que já troquei palavras.

De nome feio e com pretensa internacionalidade, o homem, que devia ter seus 30 a 40 anos, respondeu à minha apresentação básica de representante da Barsa e ao meu anúncio do material de capacitação em língua estrangeira, com palavras desafiante, intimidadoras e pouco educadas, em tom de humilhação: "Aqui ninguém precisa de língua estrangeira. Eu sou formado em Oxford, morei anos na Inglaterra. Falo mais de 3 línguas e ainda ensinaria o teu professor de inglês a falar a língua direito".

Sabendo que o dever de um vendedor é o de vender benefícios, o que poderia eu oferecer a um homem tão bem instruído? Talvez um pouco de educação, mas isso a Barsa vende em produtos infantis. Surpreso, claro, coloquei no comando um certa personagem de vendedor, que venho desenvolvendo como forma de superar minha timidez e insegurança. Recordei-me, então, dos informativos cursos dados pela técnica e bem sucedida equipe paranaense de vendas. E assim respondi com entusiasmo: "Parabéns! Isso é muito bom! São de pessoas assim que nós, da Barsa, gostamos de atender". Mentira! Mas era exatamente o que eu deveria dizer. Outra opção seria a de sair bruscamente.

Para o espanto do homem de aparência marcial e impiedosa, reagi com completa naturalidade e segurança. Minhas congratulações ao seu magnífico repertório de conhecimento soaram quase verdadeiras até para mim mesmo. Desmantelado por constatar que a superioridade divina dos indivíduos formados em Oxford em nada me intimidara, o Gentleman em pessoa tentou se mostrar inacessível, afirmando que não havia tempo algum na agenda dele para que eu pudesse apresentar meu produtos, pois ele é "um homem muito ocupado". "Ok!", pensei!

Com o objetivo de conseguir um espaço para mostrar outros materiais a ele, revelei, então, que sou um representante da Barsa. "Barsa?! Já tive várias edições, elas eram muito boas. Mas hoje a Barsa está completamente desatualizada". "Não, senhor! A Barsa, hoje, está completamente reformulada. Além dos dezoito volumes em livros, ela possui ainda um DVD-Rom multimídia com todo o conteúdo da enciclopédia, fora o Portal na internet, atualizado semanalmente". Constatei, assim, um exemplo de ignorância e desinformação em um filho de Oxford na frente de suas companheiras, a recepcionista e a sua aparente namorada.

Já sem graça, o gentleman decidiu me atender (nem sei por que insisti), mas sob a condição de ser um horário marcado. "Tal dia, às oito horas em ponto. Te dou dez minutos para me convencer desses produtos. Tá bom, quinze!", ele me pressionou, agora menos cruelmente ."Ok, pode deixar, horário marcado. Até mais, Dr. Gentleman. E obrigado pela atenção!".

Não imaginava que existissem realmente pessoas assim tão crentes de sua superioridade em relação a outras pessoas. Pensava que esse tipo patológico de gente existisse apenas no cinema e na literatura mesmo, ele é quase um clichê. No entanto, é um grande paradoxo que ele tenha a necessidade de se exaltar dessa maneira; quem é, apenas é, e está seguro disso. Talvez ele seja, na verdade, mais frágil do que aparenta.

A minha aposta para o dia marcado? Ele vai comprar a Barsa Luxo, a mais cara, apenas para mostrar o seu poder de compra. Espero que tenha uma platéia na sala do Dr. Gentleman, assim ele vai querer fazer um espetáculo de exibicionismo maior.

7 comentários:

Dani M. disse...

Caio tu arrasou bunito!!! Eu não sei como me sairia dessa, acho que eu ia chorar, kkkkkkkk...Queria ter visto a cara dele quando tu falou parabéns, kkkkkk...devia ter falado congratulations, it's fabulous!! Deposi cotna rpa gente como foi e se realmente ele comprou a basa luxo (adorei basa luxo).
Quando o lance de ser vendedor, eu acho muito legal pra quem tem talento, no teu caso tu tá arriscando e pelo jeito vai conseguir chegar lá. Boa sorte. Tô na torcida. obrigada pela tua torcida por mim também. Deus nos ajude a alcançar nossos objetivos.
Beijus!!!

Pedro Canto disse...

Caio, meu querido. mais do q arrasar com ele, você arrasou no texto. Amei ler isso aqui. Que texto delicioso, divertido, bem leve e bem humorado na medida certa.

Vou voltar a passear por aqui e qm sabe ate volte ao meu.

Alberto Júnior disse...

Eu quero mesmo é que essa experiência de campo resulte num sitcom, com esse mesmo roteiro já pronto.

Lembra da ideia que te falei? O google TV está aí para isso.

Boas vendas e aguardo o espetáculo.

Rafael Carvalhêdo disse...

Obrigado, gente! Tô descobrindo que apanhando é que se aprende. hueheueheu
Eita, Pedro! Obrigado. Que bom que o texto ficou assim legal. Mas volta com o teu blog, tenho certeza que deve ter muita história do Rio pra contar e muito programa de TV pra comentar.
Dani, Deus te ouça! rsrs
Alberto, Deus te ouça também. Quem sabe um dia role né... rsrs.

Abraços a todos!

Débora R. Ribeiro disse...

Rafael, meu primeiro ataque de risos foi em "(Uma pausa para que você ria por dentro)". MUAHUAHUAHUAHUHAUHA
Estava procurando na internet sobre vendedores da barsa e achei esse blog. AMEI o texto! Você escreve mto bem e é mto bem humorado, parabéns!
Ainda vende barsa? Conseguiu vender para esse senhor?
Quinta-feira faço minha primeira viagem, vou para o Pará (não lembro o nome da cidade). Tomara que tudo ocorra bem!

Alessandra Dutra disse...

Gostei de seu texto..muito bem humorado e bem escrito. Abraços, Rafael.

Marcelo disse...

Caio, caramba! você me fez voltar a 2004 quando também fui vendedor da Barsa, é uma escola que serve para a vida toda! Bons tempos... Abraços.