segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Diário de um "Usuário" Perdido I

Desde o final da quarta temporada de Lost minha idéia era a de não postar mais sobre os episódios, pois já previa o quão complexa ficaria a trama da séria, então eu pretendia fazer apenas alguns comentários em momentos pontuais e importantes das duas últimas temporadas da série. Os dois primeiros episódios desta quinta temporada marcaram uma grande reviravolta, não só na trama, mas novamente na estrutura narrativa, agora mais imprevisível e confusa, porém incrivelmente adequada. No entanto, o que era pra ser apenas comentários desse momento marcante da série, com o novo episódio do dia 28, Jughead, tive que mudar a proposta dos posts que eu viria a escrever sobre a série. Por conta de uma mudança tão drástica de um episódio para outro seguinte na minha percepção acerca da série, passarei agora a registrar um pouco das minhas reflexões acerca dos instigantes fatos e rumos desse encerramento, refletindo enfim sobre eu mesmo como exemplo de um telespectador que nunca se viu tão cheio de conflitos e sensações ambígua por um programa de TV - principal característica do telespectador de Lost, característica esta que dá sinais de uma nova relação do telespectador com a mídia -, o porquê disso tudo acredito que possa ficar claro com o decorrer dos posts.

Bom! O menos interessante para quem ler esses textos sobre a série (se alguém ler, pois considero sua extensão) é tentar entender meus argumentos e pontos de vistas, enquanto que perceber como reajo a esta seja bem mais importante para a compreensão da relevância da série nesse novo contexto dos meios de comunicação, em que os programas televisivos tendem a "abrir" links para novas informações e o telespectador ensaia ser um "usuário" desse espaço já não tão definido que é a televisão. E por essas razões meu maior objetivo com os textos sobre a série é o de tentar ser sincero na minha experiência enquanto telespectador.


Reflexões do dia 24/01 sobre Because You Left e The Lie.

Às vezes é preciso sentir falta de uma determinada coisa para descobrir a sua existência. Em Lost, atribui-se sempre ao seu sucesso a capacidade da série em tratar de fatos fantásticos dentro de um padrão de verossimilhança que não prejudique os dramas dos personagens, então vemos estórias com relativa profundidade, desenvolvimento minucioso e singelo, e uma carga dramática incomum para uma série de ficção científica que nos dá a impressão de que os personagens estão sempre em primeiro plano na trama, elevando a série a um nível de qualidade atípico para o gênero de ficção científica, sendo até confundida com drama em determinadas fases. No entanto, entender como isso ocorre, como esse drama se sobrepõe a ação ou como esse pano de fundo fantástico nos parece tão real e aceitável ao ponto de não comprometer o drama sempre foi um desafio, pelo menos pra mim, que nunca aceitei a afirmativa de que cuidadosos roteiros, excelentes atuações e ótimas direções foram suficientes para compor esse padrão da série.

Na estréia da quinta e penúltima temporada, aquele que talvez seja um dos maiores e principais elementos constitutivos desse aspecto da série é revelado, mas da pior forma, através da sua ausência. Logo no início dessa nova fase da série, descobrimos que existem fortes e terríveis conseqüências àqueles que permaneceram na ilha após a fuga de seis dos sobreviventes. Após ser "movida", a ilha - sempre tratada nos roteiros como entidade ou mito - passa a se locomover no tempo, fazendo com que os personagens que estão nela presenciem diversos fatos já ocorridos em vários momentos da história da ilha. Muito fantástico! Mas quando Lost não foi fantástico? O que faz dessa série algo tão sólido é justamente o fato de seus criadores saberem exatamente o que ela é, um entretenimento; mas uma série voltada para o divertimento que se faz pretensiosa, que não se prende aos moldes da aventura e da ficção científica, assim como não perdeu a oportunidade de desenvolver em uma trama que poderia, a princípio, ser apenas um drama sobre náufragos que precisam conviver entre si para sobreviver, mas desenvolvendo mitos dentro daquele ambiente; uma série que quebra os padrões estruturais de uma trama linear e os explora; que se utiliza da imaginação do telespectador pra enriquecer a si própria, quebrando o limite da tela e dando ao espectador minutos de poder, o poder de imaginar, assumindo limitadamente propostas narrativas ainda inovadoras em que o telespectador tem, indireta e experimentalmente, a capacidade de interação e construção de conteúdos. Os telespectadores-usuários de Lost já insistem em fazer isso pela internet.

Inovações a parte, são os elementos fantásticos da série que mais importam e a forma com que eles parecem tão reais e aceitáveis para quem acompanha. Fora as respostas científicas, o tratamentos dramático e a força da interpretação dos atores, existe algo que está inserido na própria essência dessa série que compõe esse padrão, algo que leve à aceitação do inaceitável, sem a menor chance de cair no ridículo, como se fosse um desvio entre a afirmação radical de "Impossível! Isso não existe" para a questão "Mas o que é isso? E o que isso significa?". No primeiro episódio dessa quinta temporada a trama entra naquele que é o tema mais espinhoso e traiçoeiro na história do entretenimento (e por que não da física?), a "viagem no tempo". Bem elaborada, Lost prepara essa trama atual desde a terceira temporada ao criar conceitos que evitam o paradoxo típico dos roteiros que falam sobre o assunto, evitando que personagens do futuro possam modificar o passado ou assumindo a seu universo regras como: "O tempo é como uma rua. Podemos nos mover para frente e para trás, mas não podemos nunca criar uma nova rua. Se tentarmos fazer algo diferente, iremos falhar todas as vezes. O que aconteceu, aconteceu". Por esses e outros argumentos a série evita uma série de contradições e paradoxos temporais, inovando no tema, tornando esse inaceitável em algo mais crível. Mas durante toda a série algo a mais foi explorado que não apenas argumentos ou explicações científicas para fatos fantásticos, mas sim estratégias de concentração, de focalização da atenção do telespectador, assim como um mágico faz em sua performance.

Desde a temporada anterior a trama conta com o personagem Daniel Faraday, bem interpretado por Jeremy Davies. Trata-se de um típico cientista excêntrico, especializado em física e em experimentos que envolvem o tempo. Quando a ilha passa a "surtar" e a ter seus saltos de tempo, comparados por ele como "saltos de um disco de vinil arranhado", o personagem serve como um guia para esse universo com regras próprias e diferentes. No entanto, a série nunca utilizou nenhum personagem dessa forma, nunca houve um guia em Lost, nenhum personagem esteve lá para explicar determinados fenômenos, principalmente entregar sua compreensão de bandeja ao telespectador. Se há uma descarga eletromagnética de grandes proporções na ilha, a única coisa que os personagens conseguem explicar é que o céu ficou roxo, e tudo que o telespectador sabe hoje sobre o fenômeno ocorrido na trama este descobriu aos poucos. Sempre fomos presenteados por informações, quando não desconexas, incompletas e cheias de novas questões para serem encaixadas, fato que sempre revelou a confiança dos autores na inteligência de seu público. Quando os sobreviventes que permanecem na ilha descobrem que o acampamento deles simplesmente desapareceu, logo Faraday aparece e os explica que "ele não desapareceu, pois ainda não existe" sugerindo a viagem no tempo. Mais a frente, os personagens dão de cara com uma escotilha que já havia sido completamente destruída há duas temporadas, mas completamente intacta, e novas explicações são dadas por Faraday. Em determinado momento, o personagem chega a falar para todos que eles podem estar "ou no passado ou no futuro". São falas cuidadosas, bem elaboradas pelos roteiristas, mas são explicativas, contextualizam e entregam com clareza a natureza dos fatos, quando a confusão típica que permeia os eventos fantásticos da série é que torna tudo mais aceitável e desloca a concentração do telespectador do fenômeno em si para a curiosidade acerca da natureza e significado deste, como sempre foi feito. Em circunstâncias normais, ou seja, em outras temporadas, o sumiço de um acampamento, a presença de pessoas que já morreram e o reaparecimento de coisas que já haviam sumido do mapa seria um belo prato de confusões na cabeça do telespectador, que antes de ter as respostas - que não seriam colocadas de forma tão óbvia -, especulariam sobre o significado de todos aqueles fenômenos, e a última questão que passaria por suas mentes seria a verdade e possibilidade daquilo tudo. Esse desvio de atenção do espectador atrelado ao ótimo tratamento das cenas, à ótima direção e outros elementos, são fundamentais nessa aceitação do telespectador ao que é improvável na vida real, resultando posteriormente em um casamento perfeito de drama e fantasia.

Nos dois primeiros episódios da quinta temporada vemos o equilíbrio desses elementos comprometido pela má utilização do personagem Daniel Faraday como um instrumento de respostas fáceis que põe em exposição para o telespectador - pela primeira vez pouco confuso sobre os novos fenômenos - tudo o que há de inverossímil nessa nova trama, e logo quando se trata de um tema tão fácil de cair no contraditório, ou no ridículo e na auto-paródia, como o de viagem no tempo. No entanto, a trama é muito bem elaborada e dá sinais de que permanecerá na coerência, inovando pelos novos conceitos de viagem no tempo, tema tratado em exaustiva tradição nas ficções científicas. Da mesma forma, as personagens continuam tão bem desenvolvidas, assim como os roteiros continuam extremamente cuidadosos, mas o equilíbrio que elevava a série a patamares privilegiados no gênero de ficção científica foi prejudicado e corre sérios riscos de se perder nessa trama que tende a ser cada vez mais explicativa. Vejamos para onde a série vai.


Reflexões do dia 30/01 sobre Jughead.

Jughead é uma bomba, no bom sentido conotativo. No denotativo também. Jughead é o nome de uma bomba de hidrogênio testada pelos EUA no pacífico sul nos anos 50, e o episódio se trata sobre esse novo artefato. Uma constatação interessante é que o episódio faz uma enorme amarração de pontas, ou melhor, leva o espectador a organizar essa teia de informações desconexas através de informações aparentemente irrelevantes e cenas singelas. A tal e polêmica viagem no tempo da ilha continua a ocorrer e a cada clarão e sons ensurdecedores, os personagens se descobrem em outra época. Neste episódio, Locke, Sawier e Juliet estão na ilha do ano de 1954, descobrem que Os Outros têm a posse de uma bomba de Hidrogênio do governo americano, quando este invadia o local provavelmente a fim de fazer experimentos nucleares.

Se os dois primeiros episódios da temporada indicavam um possível esvaziamento do drama da série pelo tratamento comprometido dos elementos fictícios, algo que já expliquei; neste novo episódio tudo parece voltar ao normal. E não bastasse a dissipação do temor, a trama ganha contornos muito mais complexos, impressionando pela amplitude, pelo cenário macro, que pode envolver épocas que ainda não imaginamos e personagens que ainda nem vimos. Lost nos apresenta um mundo cada vez mais vasto e uma história impressionantemente ampla para uma série que a princípio levava o telespectador a acompanhar a vida de apenas 14 sobreviventes, trata-se de uma macro estória em um hiperseriado.

As viagens no tempo, que eram as protagonistas dos meus temores nos dois primeiros episódios, nesse terceiro se solidifica como uma nova estrutura narrativa. Uma das marcas de Lost foi o fato de incluir flashbacks de um de seus personagens por episódio, o que conferia a cada um o potencial protagonístico, e ao mesmo tempo negava a todos a centralidade da estória. Na quarta temporada, a série se reinventou estruturalmente ao incluir flashforwards com estórias do futuro dos personagens. Nessa atual temporada, as viagens no tempo assumem uma função estrutural semelhante, como se fossem longos flashs que deixaram de ser apenas uma estrutura narrativa para se inserir na própria narrativa, quase uma metáfora e referência aos tradicionais flashs da série. Essa nova composição não poderia ser inaugurada em momento mais coerente, pois as viagens no tempo se assemelham a grande flashs daquela que é a principal e maior personagem, a ilha, justamente quando a trama se amplia para muito além do que os personagens são capazes de explorar.

Lost, a meu ver, é o experimento de um produto que tenta se expandir ao máximo, para além dos limites das narrativas tradicionais, explorando a vastidão de uma macro estória povoada por personagens curiosos e fascinantes. Lost é a materialização mais clara do atual desejo de se explorar as possibilidades, pela expansão (detalhamento) geográfica, temporal e potencialização de cada personagem como um protagonista; é a própria fomentadora de sua amplitude, os mistérios funcionam como pedaços perdidos de um mapa que nem sabemos o tamanho total. Seus telespectadores são sedentos e investigativos, desejosos do poder de controlar a estória a qual estão imersos; caso o controle remoto permitisse, seriam capazes de definir os rumos, criar novas versões, ou acompanhar a vida de cada personagem, algo que a séria já nos oferece. A tridimensionalidade do mundo de Lost fica tão visível neste episódio que até uma imagem composta por um plano típico dos primeiros jogos 3-D - o da câmera que acompanha o cano de uma arma, semelhante ao jogo Doom -, foi utilizado.

Em Jughead, as proporções da trama chegam a ser incômodas ao telespectador tenso, esforçado em não perder ou esquecer de detalhes importantes. A desconcentração e dispersão do público é quase impossível, e a criatividade voa longe. Outra coisa fica bem mais evidente em Jughead, Lost forma uma nova linha de telespectadores, pessoas mais críticas, investigativas, criativas, inconformadas com o básico ou lógico, donas de novas idéias, participativas, ou seja, pessoas mais imersas nas questões do que preocupadas com as respostas. Deus abençoe os criadores dessa série por isso, o inconformismo nunca foi tão fomentado no mundo do entretenimento. São esses telespectadores que hoje são denominados de fanáticos, nerds, geeks, “atoas”, que são pioneiros e experimentam um pouco do que será o mundo do espectador-usuário das hipermídias do futuro. Particularmente, considero os fãs de Lost uma versão bem mais interessante e atualizada dos internautas que ainda não perceberam a valiosa fusão entre a TV e a internet.

Vejamos até onde a série vai. Voltarei a postar quando ela fizer mais uma reviravolta na minha cabeça!

5 comentários:

KA disse...

Fantástico seu comentário. Uma análise profunda e muito bem escrita sobre este fenômeno que é Lost.
Lost é o melhor exemplo da Cultura de Convergência, uma tendência que muitas empresas estão com dificuldade de aceitar e se adaptar. MAs é irreversível o caminho.
Espero que outros conteúdos tão brilhantes como Lost nos sejam apresentados.
Abs

Pedro Canto disse...

ai caio, fiquei com preguiça de ler tudo!

flavita. disse...

Eu sempre fico perdida quando o assunto é Lost.
Trocadilho infeliz, né? hahahaha
Beijo, moço.

Anônimo disse...

Feeling!
Passando pra deixar um cheiro!
Saudades!
Moreco, não assisti a nenhum episódio de Lost, mesmo qd estava em São Luis! (rsrs), mas gostei do post!
cheiro gd

Euzer Lopes disse...

Quer saber de uma coisa? No final de 2010, quando o último episódio da sexta e penúltima temporada for ao ar, aí eu vou poder falar qualquer coisa a respeito desta série. Até lá, fico em silêncio, sem entender nada deste novelo que tem um milhão de pontas soltas.