domingo, setembro 05, 2010

Considerações sobre o Cinema 3D


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Um dos maiores equívocos em grande parte das propagandas de cinemas 3D e nos próprios filmes que hoje experimentam essa nova tecnologia é a promessa de transportar as imagens para fora da tela, como se essa impressão ótica fosse o grande trunfo dessa nova tecnologia. Foi por conta dessas propagandas enganosas que senti uma certa frustração ao assistir pela primeira vez a um filme em três dimensões, há quase dois anos. Tratava-se da segunda película projetada em 3D na cidade onde moro, o filme-concerto U2 3D, que mostrava vários trechos da turnê Vertigo Tour, da banda irlandesa. Lembro de ter percebido que essa tecnologia não apresentava tamanha liberdade aos objetos cênicos de um filme como sempre foi propagado por aí, o que havia era apenas uma percepção mais palpável e realista destes.

O mais interessante é que essas propagandas enganosas parecem ter sido disseminadas como consequência de uma grande incompreensão da própria tecnologia que estava (ainda está) sendo experimentada por parte dos produtores de cinema e dos exibidores. Dessa forma, o maior problema não reside nas já velhas e descredibilitadas propagandas de cinemas 3D, mas sim nas novas empreitadas cinematográficas com essa tecnologia. É visível que muitos produtores de cinema não entenderam ainda a essência e as verdadeiras potências da imagem em três dimensões. Muitos filmes 3D, ainda hoje, são feitos tendo como base a ingênua idéia de que a terceira dimensão da imagem pode proporcionar uma maior interatividade ou impressão de que os personagens ou objetos podem sair da tela, levando o espectador a sentir-se mais dentro daquela realidade fictícia.

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É fato que existe um sobressalto quando um objeto com aparentes três dimensões voa em direção ao público, a impressão de solidez e palpabilidade realmente existe, mesmo que mínima. Contudo, na tecnologia 3D todas as imagens estão presas a tela, nada dali sai, pois diferentemente de uma imagem holográfica a 3D não ocupa um lugar em um espaço real, mas sim simula este espaço. Em sua essência, o cinema em três dimensões não foi criado para transpor nada da tela, e nem para criar esta impressão; ao contrário, ele parte do princípio de criar a profundidade dos elementos na imagem, através de uma técnica chamada estereoscópia, que consiste em captar uma mesma imagem em dois ângulos diferentes alinhados de forma horizontal, como se fosse a imagem de dois olhos, um esquerdo e outro direito. Essa técnica permite que vejamos objetos em uma imagem dotados de profundidade e não chapados, como na imagem de duas dimensões. A terceira dimensão, aliás, é a própria profundidade.

Já a tentativa de provocar essa impressão de transposição da tela (ou parede) pode acabar resultando para o espectador em uma frustrante quebra da quarta parede, o que, consequentemente, destrói a ilusão quando este descobre que objeto nenhum sai da tela, pois claro, tudo aquilo é ficção. Indo na contramão de muitas produções, a recente animação Como Treinar o seu Dragão esquece de tentar impressionar o público com os já clichês de "atirar coisas contra a platéia" e passa a trabalhar com o que realmente importa na imagem tridimensional: o seu terceiro elemento, a profundidade. Dessa forma, assim como no recente e impressionante Avatar, o que está no fundo, a nova dimensão dessa realidade fictícia e as impressões que causam ao espectador ganham maior relevância e são melhor experimentadas.

O cinema 3D não veio pra confundir a realidade fictícia da tela com a nossa de espectador, nem para confundir os espectador com o personagem. O cinema 3D veio pra tornar aquela história fictícia mais verdadeira, pra trabalhar mais ainda a nossa fantasia e imersão. No dia que o cinema se transformar numa espécie de game holográfico aí sim transportar objetos e personagens para fora da tela pode passar a funcionar narrativamente.

segunda-feira, abril 05, 2010

A Casa de Alice

Após o término da projeção de A Casa de Alice, a primeira coisa que pensei foi: "Como um filme que começa tão bem e equilibrado pode se perder no meio do caminho, mas ainda assim ter um desfeixo satisfatório?". Não foi preciso eu o rever muito em minha mente para descobrir o que me incomodou. A Casa de Alice é mais um filme que segue a vertente de alto realismo do cinema brasileiro atual, que procura antes de tudo nos convencer daquelas vidas e criar na tela uma realidade quase tão palpável como a nossa (dos brasileiros), dessa vez, de uma família brasileira de classe média, apostando na crueza da imagem, nos sons ambientes e em atuações tão naturais quanto o diálogo mais banal que uma familia possa ter.

Tudo começa com planos nos vários cômodos da casa de Alice. Vemos os quartos, sala, cozinha, banheiro, varanda, e o despertar das personagens que, nas próximas horas, teriam que conviver por mais um dia uns com os outros. Em seguida, somos apresentados a vida e intimidade de Alice (Carla Ribas), uma manicure que mora na periferia da cidade de São Paulo com a sua família. Aos poucos presenciamos os vários conflitos familiares, do casamento desgastado entre Alice e seu marido, passando pela difícil convivência entre os seus filhos, aos problemas de saúde da mãe desta.

Tratando com grande naturalidade a vida dessas pessoas, a direção é eficiente em manter os acontecimentos, por mais dramáticos que sejam, distante do melodrama, sem em momento nenhum tentar comover o público, deixando que a situação destes personagens o faça por si só. A ausência de trilha sonora é um dos elementos que compõem o caráter tão real e quase documental do filme, permitindo que apenas os sons da cidade de São Paulo que invadem o pequeno e simples apartamento de Alice preencham o ambiente desta família. São os sons da vida que, pela sua presença, causam as emoções na medida incerta, confusa e incapaz de conduzir, como a trilha, as sensações do público, sendo um dos elementos fundamentais que conduzem o espectador a ter, assim como a protagonista, uma idéia pouco clara e condensada da vida de Alice.

Outro elemento que contribui para essa construção é a câmera sempre ousada que pega os planos mais incomuns, ou tão comuns, indiscretos e nada convencionais da família, sem grandes truques, com apenas o suficiente para que entendamos as situações que ocorrem na casa, assim como em um documentário, ou mesmo em um documento de famila. Tendendo a nos mostrar um drama familiar focado mais no coletivo, como se a família fosse um grande personagem em conflito interno, as situações são abordadas com pretensa neutralidade, enquanto a câmera sempre exita em buscar uma aproximação das personagens ou o ponto de vista particular destes, com a excessão de Alice, que de todos, parece ter seu contra-plano mais próximo da lente.

Como uma estória voltado para tal objeto, somos levados a acompanhar em difícil rítmo cotidiano a vida dessas pessoas. Filmes desse gênero são, assim como a vida, de mais difícil condensação, presenciamos fatos repetidos, com poucas modificações e uma trama que difícil evolue por justamente estar centrada na inércia que é a vida destes personagens. Apenas pequenas e singelas tramas se desenvolvem, deixando claro que houve um antes e um depois, sem dar um caráter especial aos eventos, mas sim, enfocando aquele presente representativo daquelas pessoas.

A Casa de Alice falha, no entanto, ao tentar fazer do filme um experimento narrativo ousado em um roteiro já complexo, delicado e pontuado por fatos tão discretos e comuns. O diretor Chico Teixeira, juntamente com a edição de Vânia Debs, confundem o telespectador e pouco acrescentam ao filme com as suas reviralvoltas na estrutura narrativa. Em determinado momento do filme, avançamos perceptivelmente algum tempo da trama, com uma elipse que esconde alguns fatos que veremos somente mais para frente, quando essas cenas "puladas" são inseridas, constituíndo assim uma edição recortada. Se essa estrutura já se apresentava confusa em um filme que mostra o cotidiano das personagens, sem pontos de referência na trama, sem fatos que marquem e nos ajudem a ligar os pontos no final, mais difícil ainda se torna a organização dos eventos na cabeça do espectador quando situações ocorridas num tempo antes dos eventos aos quais o filme presencia são mostrados. Cenas que mais se tratam de um flashback e não mais de um recorte de edição.

Toda essa estrutura impossibilita o público de organizar alguma ordem para as cenas e para os fatos no pós-sessão, chegando a frustrar pela incapacidade de se compreender completamente a evolução das situações. No entanto, suponho que a intensão dessa edição seja a de tornar toda aquela estória em algo menos sintetizante e confortavelmente interpretativo para o público, assim como a personagem a respeito de sua própria vida, ao mesmo tempo que conduz cada vez mais a atenção do público para o significado em si das cenas. Porém, não é justo o sacríficio da compreensão da estória quando a última cena, por si só, causaria o impacto necessário capaz de confundir e inquietar o espectador a respeito da vida daqueles personagens. Um excesso de retórica. Confusões a parte, sejam elas úteis ou não, A Casa de Alice é um documento realista e angustiante daquela prostagonista e sua família.

quinta-feira, novembro 05, 2009

O velho Caetano (e bom)

Entrei com muita expectativa na sala de cinema. A gente sempre espera ver algo surpreendente quando se trata de Caetano Veloso. A sinopse do filme Coração Vagabundo não dizia muita coisa, apenas ressaltava a presença de Paula Lavigne, Pedro Almodóvar, Michelangelo Antonioni, Gisele Bündehen, David Byrne e que o diretor Fernando Andrade "deixou o musico livre para dissertar sobre a saída de sua cidade natal, o sucesso no Exterior, a relação com Almodóvar e a separação de Paula Lavigne".

Algumas matérias de sites e jornais forma além: a atenção sobre a nudez de Caetano na cena inicial indicando a intimidade a qual o filme se propõe, a tentativa do diretor em apresentar o artista como um cara simpático e bem humorado às novas gerações, o medo de Caetano em envelhecer à preocupação em ser maquiado, as opiniões sobre quase tudo e a contestação da afirmação de Hermeto que o considerou um "musiquinho" afirmando ser a música americana a melhor do mundo.

Tudo isso está mesmo no filme, mas sem uma narrativa que nos atraia. Quem não gosta de Caetano poderá odiar o filme e mais ainda o artista. Então, melhor do que ver o filme é ouvi-lo. E como é bom ouvir Caetano no cinema! Sua voz fraca e violão primitivo crescem embalados com os arranjos modernos apresentados no álbum "A Foreing Sound" e a guitarra jovial de Pedro Sá.

O simpático Caetano que pretendeu ser apresentado a mim soou o mesmo Caetano com sua falsa-modéstia de sempre, do tipo que diz "eu não sou tão bom assim" quando quer afirmar o contrário, quando diz que não fala tão bem inglês mesmo tendo feito composições na língua britânica e ter gravado um álbum cantando em português/inglês como foi "Transa".

A transgressão de Caetano no filme ou "intimidade" não está na cena em que ele aparece nu. Aliás, não se vê quase nada. O que choca mesmo é o discurso sobre a velhice a partir de um homem velho que não se considera pejorativamente velho e que nunca se imaginou envelhecer como está hoje. Caetano nos ensino que o tempo dele é outro: o tempo de quem aprendeu a desacelerar e aprendeu que sempre há tempo sobretudo quando tem-se a idéia de que ele vai acabar num instante. Há mais vida, vontade e entusiasmo no Caetano de hoje, aos sessenta e tantos anos, do que naquele dos anos sessenta que gritava com impaciência e pressa: "É proibido proibir".

Em tempo: Paula Lavigne aparece estereotipada como chata no filme, Gisele Bündehen é absurdamente desnecessária na estória, Antonioni não diz muita coisa, Almodóvar podia ter dado um beijo na boca de Caetano que chocaria mais que o nu, e Pedro Sá não abre a boca. Mas o filme é bom? Não e eu gostei. Porque me fez refletir sobre o medo de envelhecer, porque é linda a cena do passarinho que pousa no ombro do companheiro de Caetano no Japão, porque Caetano continua sendo para mim uma referência estética artística e deu mais vontade de curtir o show dele aqui em São Luís, no dia 14.

"Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval. Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal. Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual. Já tem coragem de saber que é imortal" (O Homem Velho. Caetano Veloso)

Texto escrito por meu amigo desblogado Alberto Junior.


Ótimo texto, Alberto; e interessante análise. Atrevi-me a por umas ilustrações, mania minha! Obrigado pela contribuição ao blog.

terça-feira, outubro 27, 2009

Crise Virtual, Filho Abandonado

No início você possue milhares de idéias. Idéias que você pretende gritar, exibir, defender e discutir. Daí surge um blog. São posts e mais posts, sempre constantes e tudo o que passa na cabeça é, de imediato, um novo texto em potencial. A internet fez maravilhas, configurou novos modos dos indivíduos se relacionarem e a blogosfera se mostrou um ótimo terreno para que cidadãos comuns e celebridades pudessem expor suas idéias ou a ausência delas. Comigo foi assim! Comecei cheio de ânimo, idéias e vontade de exibí-las. Ter esse espaço pessoal dentro de um veículo de comunicação interativo é empolgante, libertador e uma ótima forma de se exibir. E uma coisa é certa, a vontade de ter um blog está sempre acompanhada de um certo exibicionismo, da vontade de se mostrar. Seria ignorância de minha parte fingir o óbvio.

Desde que descobri a internet me vi um viciado. À princípio, eu a usava como fonte de pesquisa sobre produções cinematográficas (não podia comprar a revista SET!). Depois, com toda a intensidade da vida acadêmica, o ciberespaço se tornou quase fundamental na minha vida: contatos, pesquisas, estudos, diversão e o próprio entendimento da ferramenta internet. Ao mesmo tempo, tornei-me um viciado em Lost, e parte da série acontece em debates virtuais. Fiz, então, meus perfis virtuais: orkut, facebook, msn's, etc. Os meus impulsos de comunicador logo me trouxeram à blogosfera. Precisava falar!

Uma vida virtual intensa. Então veio a minha monografia, possível graças a internet e aos sebos virtuais. Foram seis meses imerso! No auge da minha vida virtual descobri o Twitter, uma torrente de links e mais links, informações e mais informações, pessoas e mais pessoas, piração total. Então simplesmente parei, completa, subta e naturalmente. Houve uma espécie de saturação para mim desse ambiente, experimentava de tudo ao mesmo tempo e simplesmente comecei a perder o tesão por isso tudo. Desde meados do primeiro semestre pouco acessava a internet. Olho meu orkut, hotmail, e mal. Mas essa tempo dado foi bom, um dos maiores perigos que há nessa era da informação é você se perder no meio delas, sem saber para onde ir e o que fazer. Sei que como uma comunicador preciso conhecer e experimentar todas essas ferramentas virtuais, analisá-las, reconhecer seus potenciais, mas como um usuário devo cobrar de mim a seletividade.

Nessa minha crise virtual abandonei meu maior filho, o .Ponto-de-Vista. Não é um blog famoso, supervisitado, nem bem atualizado, mas é um espaço próprio, gostoso, de reflexão, que só a maravilha da internet poderia proporcionar. Nunca uma morcinha, nunca uma vilã, a internet vai ser sempre o reflexo de nós mesmos.

De volta ao ciberespaço!

domingo, julho 05, 2009

Who's bad?

Quando eu fazia a segunda série do primário, lembro que a Globo exibiu uma espécie de documentário ou algo parecido sobre Michael Jackson, mas não me recordo qual era a abordagem, não havia assistido, apenas pude escutar comentários eufóricos na sala de aula. Não vivenciei a era MJ, o seu auge. Fora esse momento de minha infância e outros raros, apenas agora, após a morte do cantor, que pude constatar novamente o significado dele para uma grande parcela de pessoas que puderam acompanhar a sua carreira e vivenciaram o cenário musical dos anos 80, enquanto a sua influência e originalidade na música pop sempre me pareceram óbvias. De resto, as tantas outras referências que eu tinha do cantor se tratavam das notícias sobre as esquisitices e escândalos, assim retratados pela imprensa, como as acusações de pedofilia e as mudanças físicas.

As referências negativas foram tantas que, por maior que fosse o carisma de MJ, fiquei surpreso com o tamanho do impacto e a comoção de algumas pessoas. Esperava que houvesse mais críticas por conta da possível causa de sua morte, ou que uma visão negativa prevalecesse, mas parece que todo o caráter doentio insistentemente divulgado pela imprensa ou criticado por muitas pessoas se esvaziou, dando-me uma forte impressa de uma grande e horrível hipocrisia. Eu sei, não é nenhuma novidade.

Para mim, que pouco sabia sobre o cantor mesmo gostando de suas músicas, em todas as notícias e suposições negativas sobre o MJ, sempre pairava uma dúvida sobre quem era aquele artista ou aquela pessoa escondida por trás daquele rosto esticado, branco e inexpressivo; era uma imagem bizarra que, de alguma forma, criava uma desproporção no comportamento dele próprio, e eu não vi alguém ousar em tentar entender levemente alguns dos seus comportamentos. Ao contrário de hoje, que é muito conveniente que se esclareçam todos eles. Confesso que aquela imagem de MJ mostrando seu filho na sacada nunca me chocou de fato e que nunca consegui entender o processo de causa e efeito entre a gravidade daquela atitude e o espanto da imprensa. Mas claro, não era uma pessoa segurando um bebê em uma sacada, era um ET, e pior, um ET que já havia sido acusado de pedofilia. E na mente miúda de muitos formadores de opinião, a imagem de MJ era inquestionável, não importando seu passado e nada mais.

E eu me questiono. Por que a mídia, muitas vezes, se mostra incapaz de tentar compreender razões invés de denegrir pelo fato em si? É, de fato, necessário que o indivíduo morra ou que a canalhice do seu pai seja novamente constatada para se entender o quão perturbado pela sua própria história essa pessoa era? Não sou nenhum ingênuo, o fracasso de uma estrela também é tão vendável quanto o sucesso e a sua morte, mas hipocrisia e oportunismo são sempre algo a se questionar.

Não ignorando os escândalos de outrora e nem apenas usando o termo "problemas familiares" para justificar mecânica e artificialmente as várias atitudes de MJ, como a maior parte da mídia tem feito no desespero de homenagear e "honrar" a imagem do artista - porque assim é que se se deve vender quando a estrela morre -, esse curto e ótimo podcast da CBN, de forma cômica, reflete sobre a pergunta aberta pelo próprio cantor. Para ouvir clique aqui!

Bom! Parece que biografias de verdade são feitas apenas depois que o personagem já morreu. Talvez, por isso, o cantor Roberto Carlos proibiu a sua de ser lançada recentemente!

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Diário de um "Usuário" Perdido I

Desde o final da quarta temporada de Lost minha idéia era a de não postar mais sobre os episódios, pois já previa o quão complexa ficaria a trama da séria, então eu pretendia fazer apenas alguns comentários em momentos pontuais e importantes das duas últimas temporadas da série. Os dois primeiros episódios desta quinta temporada marcaram uma grande reviravolta, não só na trama, mas novamente na estrutura narrativa, agora mais imprevisível e confusa, porém incrivelmente adequada. No entanto, o que era pra ser apenas comentários desse momento marcante da série, com o novo episódio do dia 28, Jughead, tive que mudar a proposta dos posts que eu viria a escrever sobre a série. Por conta de uma mudança tão drástica de um episódio para outro seguinte na minha percepção acerca da série, passarei agora a registrar um pouco das minhas reflexões acerca dos instigantes fatos e rumos desse encerramento, refletindo enfim sobre eu mesmo como exemplo de um telespectador que nunca se viu tão cheio de conflitos e sensações ambígua por um programa de TV - principal característica do telespectador de Lost, característica esta que dá sinais de uma nova relação do telespectador com a mídia -, o porquê disso tudo acredito que possa ficar claro com o decorrer dos posts.

Bom! O menos interessante para quem ler esses textos sobre a série (se alguém ler, pois considero sua extensão) é tentar entender meus argumentos e pontos de vistas, enquanto que perceber como reajo a esta seja bem mais importante para a compreensão da relevância da série nesse novo contexto dos meios de comunicação, em que os programas televisivos tendem a "abrir" links para novas informações e o telespectador ensaia ser um "usuário" desse espaço já não tão definido que é a televisão. E por essas razões meu maior objetivo com os textos sobre a série é o de tentar ser sincero na minha experiência enquanto telespectador.


Reflexões do dia 24/01 sobre Because You Left e The Lie.

Às vezes é preciso sentir falta de uma determinada coisa para descobrir a sua existência. Em Lost, atribui-se sempre ao seu sucesso a capacidade da série em tratar de fatos fantásticos dentro de um padrão de verossimilhança que não prejudique os dramas dos personagens, então vemos estórias com relativa profundidade, desenvolvimento minucioso e singelo, e uma carga dramática incomum para uma série de ficção científica que nos dá a impressão de que os personagens estão sempre em primeiro plano na trama, elevando a série a um nível de qualidade atípico para o gênero de ficção científica, sendo até confundida com drama em determinadas fases. No entanto, entender como isso ocorre, como esse drama se sobrepõe a ação ou como esse pano de fundo fantástico nos parece tão real e aceitável ao ponto de não comprometer o drama sempre foi um desafio, pelo menos pra mim, que nunca aceitei a afirmativa de que cuidadosos roteiros, excelentes atuações e ótimas direções foram suficientes para compor esse padrão da série.

Na estréia da quinta e penúltima temporada, aquele que talvez seja um dos maiores e principais elementos constitutivos desse aspecto da série é revelado, mas da pior forma, através da sua ausência. Logo no início dessa nova fase da série, descobrimos que existem fortes e terríveis conseqüências àqueles que permaneceram na ilha após a fuga de seis dos sobreviventes. Após ser "movida", a ilha - sempre tratada nos roteiros como entidade ou mito - passa a se locomover no tempo, fazendo com que os personagens que estão nela presenciem diversos fatos já ocorridos em vários momentos da história da ilha. Muito fantástico! Mas quando Lost não foi fantástico? O que faz dessa série algo tão sólido é justamente o fato de seus criadores saberem exatamente o que ela é, um entretenimento; mas uma série voltada para o divertimento que se faz pretensiosa, que não se prende aos moldes da aventura e da ficção científica, assim como não perdeu a oportunidade de desenvolver em uma trama que poderia, a princípio, ser apenas um drama sobre náufragos que precisam conviver entre si para sobreviver, mas desenvolvendo mitos dentro daquele ambiente; uma série que quebra os padrões estruturais de uma trama linear e os explora; que se utiliza da imaginação do telespectador pra enriquecer a si própria, quebrando o limite da tela e dando ao espectador minutos de poder, o poder de imaginar, assumindo limitadamente propostas narrativas ainda inovadoras em que o telespectador tem, indireta e experimentalmente, a capacidade de interação e construção de conteúdos. Os telespectadores-usuários de Lost já insistem em fazer isso pela internet.

Inovações a parte, são os elementos fantásticos da série que mais importam e a forma com que eles parecem tão reais e aceitáveis para quem acompanha. Fora as respostas científicas, o tratamentos dramático e a força da interpretação dos atores, existe algo que está inserido na própria essência dessa série que compõe esse padrão, algo que leve à aceitação do inaceitável, sem a menor chance de cair no ridículo, como se fosse um desvio entre a afirmação radical de "Impossível! Isso não existe" para a questão "Mas o que é isso? E o que isso significa?". No primeiro episódio dessa quinta temporada a trama entra naquele que é o tema mais espinhoso e traiçoeiro na história do entretenimento (e por que não da física?), a "viagem no tempo". Bem elaborada, Lost prepara essa trama atual desde a terceira temporada ao criar conceitos que evitam o paradoxo típico dos roteiros que falam sobre o assunto, evitando que personagens do futuro possam modificar o passado ou assumindo a seu universo regras como: "O tempo é como uma rua. Podemos nos mover para frente e para trás, mas não podemos nunca criar uma nova rua. Se tentarmos fazer algo diferente, iremos falhar todas as vezes. O que aconteceu, aconteceu". Por esses e outros argumentos a série evita uma série de contradições e paradoxos temporais, inovando no tema, tornando esse inaceitável em algo mais crível. Mas durante toda a série algo a mais foi explorado que não apenas argumentos ou explicações científicas para fatos fantásticos, mas sim estratégias de concentração, de focalização da atenção do telespectador, assim como um mágico faz em sua performance.

Desde a temporada anterior a trama conta com o personagem Daniel Faraday, bem interpretado por Jeremy Davies. Trata-se de um típico cientista excêntrico, especializado em física e em experimentos que envolvem o tempo. Quando a ilha passa a "surtar" e a ter seus saltos de tempo, comparados por ele como "saltos de um disco de vinil arranhado", o personagem serve como um guia para esse universo com regras próprias e diferentes. No entanto, a série nunca utilizou nenhum personagem dessa forma, nunca houve um guia em Lost, nenhum personagem esteve lá para explicar determinados fenômenos, principalmente entregar sua compreensão de bandeja ao telespectador. Se há uma descarga eletromagnética de grandes proporções na ilha, a única coisa que os personagens conseguem explicar é que o céu ficou roxo, e tudo que o telespectador sabe hoje sobre o fenômeno ocorrido na trama este descobriu aos poucos. Sempre fomos presenteados por informações, quando não desconexas, incompletas e cheias de novas questões para serem encaixadas, fato que sempre revelou a confiança dos autores na inteligência de seu público. Quando os sobreviventes que permanecem na ilha descobrem que o acampamento deles simplesmente desapareceu, logo Faraday aparece e os explica que "ele não desapareceu, pois ainda não existe" sugerindo a viagem no tempo. Mais a frente, os personagens dão de cara com uma escotilha que já havia sido completamente destruída há duas temporadas, mas completamente intacta, e novas explicações são dadas por Faraday. Em determinado momento, o personagem chega a falar para todos que eles podem estar "ou no passado ou no futuro". São falas cuidadosas, bem elaboradas pelos roteiristas, mas são explicativas, contextualizam e entregam com clareza a natureza dos fatos, quando a confusão típica que permeia os eventos fantásticos da série é que torna tudo mais aceitável e desloca a concentração do telespectador do fenômeno em si para a curiosidade acerca da natureza e significado deste, como sempre foi feito. Em circunstâncias normais, ou seja, em outras temporadas, o sumiço de um acampamento, a presença de pessoas que já morreram e o reaparecimento de coisas que já haviam sumido do mapa seria um belo prato de confusões na cabeça do telespectador, que antes de ter as respostas - que não seriam colocadas de forma tão óbvia -, especulariam sobre o significado de todos aqueles fenômenos, e a última questão que passaria por suas mentes seria a verdade e possibilidade daquilo tudo. Esse desvio de atenção do espectador atrelado ao ótimo tratamento das cenas, à ótima direção e outros elementos, são fundamentais nessa aceitação do telespectador ao que é improvável na vida real, resultando posteriormente em um casamento perfeito de drama e fantasia.

Nos dois primeiros episódios da quinta temporada vemos o equilíbrio desses elementos comprometido pela má utilização do personagem Daniel Faraday como um instrumento de respostas fáceis que põe em exposição para o telespectador - pela primeira vez pouco confuso sobre os novos fenômenos - tudo o que há de inverossímil nessa nova trama, e logo quando se trata de um tema tão fácil de cair no contraditório, ou no ridículo e na auto-paródia, como o de viagem no tempo. No entanto, a trama é muito bem elaborada e dá sinais de que permanecerá na coerência, inovando pelos novos conceitos de viagem no tempo, tema tratado em exaustiva tradição nas ficções científicas. Da mesma forma, as personagens continuam tão bem desenvolvidas, assim como os roteiros continuam extremamente cuidadosos, mas o equilíbrio que elevava a série a patamares privilegiados no gênero de ficção científica foi prejudicado e corre sérios riscos de se perder nessa trama que tende a ser cada vez mais explicativa. Vejamos para onde a série vai.


Reflexões do dia 30/01 sobre Jughead.

Jughead é uma bomba, no bom sentido conotativo. No denotativo também. Jughead é o nome de uma bomba de hidrogênio testada pelos EUA no pacífico sul nos anos 50, e o episódio se trata sobre esse novo artefato. Uma constatação interessante é que o episódio faz uma enorme amarração de pontas, ou melhor, leva o espectador a organizar essa teia de informações desconexas através de informações aparentemente irrelevantes e cenas singelas. A tal e polêmica viagem no tempo da ilha continua a ocorrer e a cada clarão e sons ensurdecedores, os personagens se descobrem em outra época. Neste episódio, Locke, Sawier e Juliet estão na ilha do ano de 1954, descobrem que Os Outros têm a posse de uma bomba de Hidrogênio do governo americano, quando este invadia o local provavelmente a fim de fazer experimentos nucleares.

Se os dois primeiros episódios da temporada indicavam um possível esvaziamento do drama da série pelo tratamento comprometido dos elementos fictícios, algo que já expliquei; neste novo episódio tudo parece voltar ao normal. E não bastasse a dissipação do temor, a trama ganha contornos muito mais complexos, impressionando pela amplitude, pelo cenário macro, que pode envolver épocas que ainda não imaginamos e personagens que ainda nem vimos. Lost nos apresenta um mundo cada vez mais vasto e uma história impressionantemente ampla para uma série que a princípio levava o telespectador a acompanhar a vida de apenas 14 sobreviventes, trata-se de uma macro estória em um hiperseriado.

As viagens no tempo, que eram as protagonistas dos meus temores nos dois primeiros episódios, nesse terceiro se solidifica como uma nova estrutura narrativa. Uma das marcas de Lost foi o fato de incluir flashbacks de um de seus personagens por episódio, o que conferia a cada um o potencial protagonístico, e ao mesmo tempo negava a todos a centralidade da estória. Na quarta temporada, a série se reinventou estruturalmente ao incluir flashforwards com estórias do futuro dos personagens. Nessa atual temporada, as viagens no tempo assumem uma função estrutural semelhante, como se fossem longos flashs que deixaram de ser apenas uma estrutura narrativa para se inserir na própria narrativa, quase uma metáfora e referência aos tradicionais flashs da série. Essa nova composição não poderia ser inaugurada em momento mais coerente, pois as viagens no tempo se assemelham a grande flashs daquela que é a principal e maior personagem, a ilha, justamente quando a trama se amplia para muito além do que os personagens são capazes de explorar.

Lost, a meu ver, é o experimento de um produto que tenta se expandir ao máximo, para além dos limites das narrativas tradicionais, explorando a vastidão de uma macro estória povoada por personagens curiosos e fascinantes. Lost é a materialização mais clara do atual desejo de se explorar as possibilidades, pela expansão (detalhamento) geográfica, temporal e potencialização de cada personagem como um protagonista; é a própria fomentadora de sua amplitude, os mistérios funcionam como pedaços perdidos de um mapa que nem sabemos o tamanho total. Seus telespectadores são sedentos e investigativos, desejosos do poder de controlar a estória a qual estão imersos; caso o controle remoto permitisse, seriam capazes de definir os rumos, criar novas versões, ou acompanhar a vida de cada personagem, algo que a séria já nos oferece. A tridimensionalidade do mundo de Lost fica tão visível neste episódio que até uma imagem composta por um plano típico dos primeiros jogos 3-D - o da câmera que acompanha o cano de uma arma, semelhante ao jogo Doom -, foi utilizado.

Em Jughead, as proporções da trama chegam a ser incômodas ao telespectador tenso, esforçado em não perder ou esquecer de detalhes importantes. A desconcentração e dispersão do público é quase impossível, e a criatividade voa longe. Outra coisa fica bem mais evidente em Jughead, Lost forma uma nova linha de telespectadores, pessoas mais críticas, investigativas, criativas, inconformadas com o básico ou lógico, donas de novas idéias, participativas, ou seja, pessoas mais imersas nas questões do que preocupadas com as respostas. Deus abençoe os criadores dessa série por isso, o inconformismo nunca foi tão fomentado no mundo do entretenimento. São esses telespectadores que hoje são denominados de fanáticos, nerds, geeks, “atoas”, que são pioneiros e experimentam um pouco do que será o mundo do espectador-usuário das hipermídias do futuro. Particularmente, considero os fãs de Lost uma versão bem mais interessante e atualizada dos internautas que ainda não perceberam a valiosa fusão entre a TV e a internet.

Vejamos até onde a série vai. Voltarei a postar quando ela fizer mais uma reviravolta na minha cabeça!

domingo, janeiro 25, 2009

Os Seis Fatos Aleatórios sobre Mim

De volta ao blog após meses dedicados a monografia. Há duas semanas que a defendi e durante esse período venho querendo postar algo, mas sem sucesso. Idéias não faltam, palavras sim, no entanto, as vezes que tentei postar esse texto ocorreram falhas no site do Bloguer e eu acabava o perdendo. Essa é a terceira vez que o escrevo. Paciência!

Bom! Na falta de uma fluência para escrever (não sei por que, é o que mais tenho feito), resolvi começar com algo leve, livre e que fosse voltado para o próprio autor. Indicado por Dani, uma amiga de trabalho e vizinha da blogosfera, vou fazer um meme. Pra quem não sabe, o meme é uma brincadeirinha típica do mundo dos blogs que se assemelha a uma corrente: o blogueiro que for indicado responde ou comenta o que for sugerido pelo meme, e em seguida o repassa para a quantidade de pessoas que a brincadeira sugerir.

O interessante do meme reside na possibilidade do autor falar mais de si mesmo, do blog ou de assuntos que ele não costuma falar, principalmente no caso de um blog temático como o meu. Ao contrário do meme, os "selos de qualidade" - uma outra brincadeira que se pretende mais séria - são pura besteira, qualquer um possui e repassa para qualquer outro, sem critérios de distribuição. Assim, aquilo que era para ser uma referência de qualidade, se torna mero presente. Banalizado.

Mas indo direto ao assunto, o meme em questão é bem mais simples que o primeiro que fiz, devo citar apenas seis fatos aleatórios sobre mim. Para fazê-lo, porém, devo seguir as seguintes regras que valem para as pessoas a quem eu repassar.

- Colocar o link de quem te indicou pro meme;
- Escrever estas 5 regras antes do meme pra deixar a brincadeira mais clara;
- Contar os 6 fatos aleatórios sobre você;
- Indicar 6 blogueiros pra continuar a brincadeira;
- Avisar para esses blogueiros que eles foram indicados.

Enfim, os seis fatos aleatórios sobre mim:

Gosto de andar de ônibus, mas não de esperar.

Enquanto baixo algum episódio de Lost, sempre fico pensando na melhor hora para assisti-lo, como se isso fizesse alguma diferença na minha compreensão e imersão na estória.

Quando criança, meu brinquedo preferido era a imaginação. Dinossauros existiam. Já atuava e elaborava estórias.

Sou curioso e assisto Big Brother. Gosto de histórias reais, é interessante analisar o desencadear e a coerências dos fatos, assim como a dinâmica entre as pessoas, geralmente tão diferentes. É inspiração para a ficção. O real é uma fonte inesgotável de imprevisibilidades, enquanto a ficção é uma massa muito estruturada e mais previsível. Por isso não abomino os reality shows, pelos menos aqueles que se pretendem reality.

Sempre releio o que escrevo aqui na tentativa de experimentar a leitura de meu próprio texto como se fosse um internauta que acessa o blog. Tenho sempre uma relação de amor ou de ódio com cada texto. Há aqueles dos quais me envergonho por ter escrito, outros que me orgulho, assim como há dias em que desejo dar fim ao blog por insatisfação, e em outros, sonho que esse meu espaço vai me tornar um comunicador e uma pessoa melhor.

Não acredito em violões e mocinhos. Por mais que eu tente, geralmente enxergo o melhor que existe nas pessoas, seja quem for, mesmo que na metade das vezes eu acabe me ferrando. Sou o típico bobão! E 90 por cento das vezes gosto bem mais das pessoas do que sou capaz de mostrar.

Já li em outros blogs que esse meme é terapêutico. Não posso discordar! Então o passarei para os seguintes blogueiros:

sábado, novembro 15, 2008

A TV Brasil na TV a Cabo

. O texto abaixo foi enviado por mim à Ouvidoria da Empresa Brasil de Comunicação no dia 28 de setembro deste ano. Nele, expus uma questão que põe em cheque o acesso democrático da TV Brasil e informo uma oferta que julgo indevida da emissora por uma empresa operadora de TV a Cabo.

"O que faço aqui não é bem uma crítica, mas uma reflexão.

Meu nome é Caio Rafael Carvalhêdo, sou de São Luís - Maranhão, universitário e um integrante da audiência da TV Brasil. Atualmente, sou assinante de uma TV a Cabo. A minha escolha por essa TV se deu por motivos de diversidade de conteúdo, informação e entretenimento. No entanto, sou um apreciador da TV Aberta também, em especial, a TV Brasil.

O que me trouxe aqui foi o fato de que a TV Pública Brasileira está inacessível a mim por esse motivo, por minha escolha. Sou assinante da TV a Cabo JET, empresa do Rio de Janeiro, mas não tenho acesso a TV Brasil por ela, pois sou assinante do pacote básico e o canal é oferecido em um pacote especial mais caro, o que considero completamente injusto.

Se opto pela transmissão em TV a Cabo, a qual obviamente pagarei, certamente a TV Brasil, que na teoria é pública, deveria estar no pacote básico, sendo dessa forma, disponível para todos os telespectadores da TV a Cabo, indiscriminadamente, dever este que, creio eu, a TV Pública tem para com o telespectador brasileiro.

Mesmo que o canal em questão seja transmitido pela TV Aberta, um telespectador não pode ter seu direito de recepção de um dos canais mais importantes e democráticos do país negado só porque escolheu a TV a Cabo. Assim penso! Minhas condições financeiras não me permitem pagar 30 reais a mais pelo pacote especial, e não faria isso apenas para assistir a um canal que eu deveria tê-lo acessível da forma mais democrática possível, seja por qual meio de transmissão televisiva. Quanto a TV Aberta, não vejo vantagem pela limitação de conteúdo e de qualidade, portanto, a TV a Cabo me parece ideal.

O que alego aqui é que a pequena parcela de telespectadores brasileiros que são clientes dessa empresa e que pode apenas optar pelo pacote básico está tendo o seu direito a TV Pública negado e não parece justo o telespectador ter que fazer a escolha entre a TV a Cabo e a TV Brasil por causa dessa circunstância.

Minha TV possui apenas uma entrada de vídeo, o que me impediria de ter os dois modos mais comuns de transmissão recepcionados por ela ao mesmo tempo, além de que não tenho uma antena de TV Aberta justamente por ter feito a escolha de uma paga. Eu poderia trocar minha assinatura da JET por de outra TV a Cabo, que me oferecesse o canal, mas na verdade sinto que o meu direito de livre acesso a TV Brasil é negado nesse caso e acredito que o mais justo seja buscar o que me é de direito.

"... televisão pública que funciona como serviço público subordinado ao controle da sociedade civil." Para uma TV que se defini de tal forma, sinto-me, enquanto integrante dessa sociedade, limitado no acesso ao canal. Não sei bem se esse é o local ideal pra eu fazer tal reclamação, mas foi o primeiro que me veio à mente.

Também não sei se estou, na verdade, confuso na definição e função da TV Brasil. Gostaria, enfim, de ter algum esclarecimento ou resposta quanto a isso, se há regulamentação que permita esse tipo de oferta de transmissão da TV Brasil por empresas de TV a Cabo. E se caso isso seja errado e se revele contra os princípios que norteiam a existência da emissora, gostaria de saber aonde e a quem devo recorrer.

No contrato assinado com a empresa que faz transmissão de canais para minha residência havia uma promoção inicial de liberação, por 6 meses, dos canais que constituem os pacotes mais caros. Por descuido meu, apenas ao término da promoção pude descobrir que a TV Brasil fazia parte de um pacote mais caro e que eu não poderia pagar. Hoje, não tenho por onde assistir a TV Brasil, até que tome uma providência. Terei que instalar uma antena de TV Aberta? Cancelar minha TV a Cabo? Trocá-la? Comprar um aparelho de TV novo que tenha duas entradas de antena ou vídeo? Ou me habituar à troca de antenas sempre que quiser assistir a TV Brasil? Essas não são as questões que desejo abrir, pois são praticamente irrelevantes se pensarmos nas diversas possibilidades de acesso que posso, ainda assim, ter ao canal. O que deixo é a dúvida da existência do livre e fácil acesso a TV Pública em quaisquer formas de transmissão para qualquer indivíduo brasileiro. Ou também apenas apresento aquilo que desconfio ser uma falha por parecer contra a proposta que levou a implantação do canal. Não acho justo uma TV a Cabo, que oferece todos os canais abertos, veicular o sinal da TV Brasil por um preço mais caro, como se fosse um canal feito originalmente para TV Fechada, igual a uma TV Privada, o que se revela um verdadeiro contra-senso.

Obrigado pela atenção!

Caio Rafael Carvalhêdo"


. A Ouvidoria da EMB, em resposta enviada a mim no dia 13 de novembro:

"a) canais destinados à distribuição obrigatória, integral e simultânea, sem inserção de qualquer informação, da programação das emissoras geradoras locais de radiodifusão de sons e imagens, em VHF ou UHF, abertos e não codificados, cujo sinal alcance a área do serviço de TV a Cabo e apresente nível técnico adequado, conforme padrões estabelecidos pelo Poder Executivo;

Com efeito, necessário se faz ressaltar que tal exigência aplica-se tão somente às operadoras de tv a cabo, razão pela qual as prestadoras que operam na modalidade MMDS ou DTH não são obrigadas a disponibilizar gratuitamente o sinal das emissoras abertas.


No presente caso, a operadora de tv por assinatura citada pelo Sr. Rafael, Jet TV, opera na modalidade MMDS, motivo pelo qual esta prestadoras não estaria obrigada, por força da Lei do Cabo, a disponibilizar gratuitamente o sinal das emissoras abertas que operam em São Luís, dentre elas, a TV Brasil (canal 2E).


Contudo, a partir da Lei nº 11.652/2008, como exposto acima, todas as prestadoras de serviços de televisão por assinatura deverão obrigatoriamente disponibilizar gratuitamente em todos os seus planos (sem custo adicional) o sinal da EBC. A única ressalva que se faz a essa obrigação é aquela contida no parágrafo único do artigo 29, que também restou acima explicitada.


A partir dessas considerações, sugiro que a Ouvidoria informe o Sr. Rafael sobre a obrigatoriedade da Jet TV disponibilizar em todos os seus planos o sinal da EBC, sem qualquer custo adicional, bem como a possibilidade do mesmo encaminhar denúncia, seja por e-mail ou 0800, para que a Anatel verifique tal situação junto a Jet TV.

Finalmente, informo que o presente e-mail será repassado ao Sr. Kaiser, que atualmente é o Presidente do Comitê internamente criado na EBC para tratar de assuntos que envolvam Anatel e Ministério das Comunicações, tendo em vista que a EBC também poderá comunicar a Anatel o fato da Jet Tv não estar disponibilizando gratuitamente, em todos os seus planos, o sinal da EBC.

Aproveitamos a oportunidade para pedir desculpas pela demora em responder e agradecer pela colaboração.

Estaremos sempre à disposição.

Atenciosamente,Carolina Farah

Assessora da Ouvidoria da EBC
"


. Nada melhor do que ver o seu direito de consumidor e cidadão serem cumpridos. Já agradeci a Ouvidoria da EBC e farei, com certeza, a denúncia à Anatel, pois a TV Brasil se mostrou, logo nos seus primeiros meses de existência, uma das melhores opções da TV, seja Aberta, seja a Cabo. Pena que nesta época, em que mais preciso assistir a filmes nacionais, eu não tenha acesso ao canal.

terça-feira, novembro 11, 2008

100º


O .Ponto-de-Vista. foi com certeza fundamental na minha vida acadêmica, seja pela prática da escrita ou pelas reflexões. O post de número 100 do blog coincide justamente com os últimos dias como universitário e o início da minha vida profissional. Daqui pra frente, o blog naturalmente não será o mesmo. Mudanças e evoluções radicais ocorreram entre os primeiros posts e os últimos, o mesmo acontecerá como consequência dos meus seis últimos e intensos meses, em que minha perspectiva e alguns dos meus pontos de vistas a respeito dos temas que costumo abordar por aqui tiveram algumas mudanças significativas.

Em comemoração ao centésimo post do blog, disponibilizo links para os textos dos quais mais tive prazer em escrever.

Post preferido


Como nem tudo são flores no blog de um universitário...


sexta-feira, outubro 10, 2008

Alice - Na Toca do Coelho

Não é bem no país das maravilhas, mas quem sabe na capital! São Paulo, em Alice, é fonte dos desejos da protagonista que dá nome a nova série da HBO Latin Americana, exibida aos domingos, às 22 horas, no canal. Saída da cidade de Palmas, em Tocantins, Alice abandona os preparativos de seu casamento para ir ao enterro de seu pai, que havia se suicidado. Uma vez fisgada pelos encantos da cidade, após um breve e intenso estranhamento, a personagem encontra motivos de sobra para permanecer nela, seja pela confusa noite badalada, pelas cobranças dos familiares em Tocantins ou pela descoberta da amplitude do mundo, que só uma cidade como São Paulo poderia proporcionar.

De cara exibindo um visual e estética tipicamente cinematográfica inspirados nas novas tendências televisivas norte-americanas e, atualmente, mundiais, no que se refere a convergência das linguagens cinematográfica e televisiva, Alice assume o estilo adulto de série, sem puderes e dando a si mesma a liberdade para criar e desenvolver essa estória com a sinceridade devida. O trabalho fotográfico, que busca extrair das luzes paulistanas todo o poder de sedução da grande megalópole, se revela quase que completamente cinematográfico, investindo em planos bem elaborados que realçam as sensações, como na cena do suicídio do pai de Alice, ou para simbolizar passagens importantes, como a "libertação" da protagonista que, após passar por um longo túnel em uma seqüência marcada pelo frenetismo, tem a sua vida radicalmente modificada, transitando de sua simples e ingênua vida para o curioso cotidiano no "país das maravilhas", pela qual a personagem passa a ter a noção de um mundo maior e, consequentemente, o desejo por este. O casamento, planejado, portanto, resignifica-se como um elemento aprisionador, agora que a personagem está frente a milhões de possibilidades. E é entusiástico marcar o fim de noite de Alice a partir de um envolvimento sexual com um típico gringo que visita São Paulo a trabalho, e que assume representativamente uma importante passagem tão comum em uma cidade global para o que existe fora do próprio cerco nacional. Nesse instante, as possibilidades vislumbradas e curiosidades de Alice vão mais além, e São Paulo se torna praticamente irressistível.

A trilha funciona adequadamente, resumida praticamente em sons eletrônicos contextualizantes do ambiente metropolitano, quando não, saltando para o melodrama comedido, típico também das tendências das séries de TV's modernas, mas que pontua muito bem os momentos mais sensíveis da personagem. Andréia Horta surpreende como Alice, considerando-se preconceituosamente o trabalho anterior ao qual ela participou na TV Record. A atriz é competente em conduzir a personagem de acordo com as exigências da estória, já que as descobertas desta é que dão o sentido da série e concentrar-se na transição de sua simples concepção de vida para o ambicioso desejo de conhecer o mundo é bem mais importante que desenvolver de cara qualquer complexidade dramática mais profunda da personagem. O elenco estréia muito bem e vale destacar a empolgante participação de Carla Ribas, que, tenho a forte impressão, renderá bons momentos.

Com mais de 1 milhão até agora bem investidos pela HBO, Alice promete, com base no primeiro e ótimo episódio da série, mostrar grandes aventuras embarcadas pela personagem na descoberta do "país das maravilhas", ou como pode vir a ser também, da selva metropolitana. Agora resta acompanhá-la na expedição pela grande cidade cheia de faces, possibilidades e que nunca dorme.