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quinta-feira, outubro 28, 2010

Toy Story 3

Toy Story 3 (EUA, 2010), escrito e dirigido por Lee Unkrich, com Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Ned Beatty, Don Rickles, Michael Keaton, Wallace Shawn e Jodi Benson.

Eu tinha apenas onze anos quando assistir a Toy Story pela primeira vez. Foi a primeira grande animação feita inteiramente por computação gráfica e apresentando um mundo de forma tridimensional. Mas não era apenas esse caráter tecnológico do desenho que encantava as platéias e profissionais de cinema no mundo inteiro, essa animação tinha mais, possuía divertidos e marcantes personagens, um roteiro incrivelmente amarrado e sensível, ótimas tiradas cômicas, um visual fabuloso, e uma história que agradava das crianças aos avós destas. E foi a Pixar, com seu Toy Story, quem inaugurou o gênero Animação como o conhecemos hoje.

Se no primeiro filme da trilogia descobrimos que bonecos têm vida própria e são completamente dependentes do afeto de seus donos, a ponto de um novo boneco de uma criança se apresentar como uma ameaça para os veteranos desta, no segundo filme acompanhamos a angustiante descoberta desses personagens de que eles podem ser descartados por seus donos. Logo, em Toy Story 3, os brinquedos de Andy encaram a possibilidade de serem abandonados, já que seu dono cresceu e vai para a faculdade. Esse temor e sina são trabalhados de forma profunda e sensível na trama, através dos personagens Woody, Buzz e os outros brinquedos que já conhecemos.

Com o agora jovem Andy já prestes a entrar na faculdade, os brinquedos começam a se questionar sobre qual será o destino deles. Acidentalmente doados a uma creche, os personagens se encantam com a aparência do local e a perspectiva de que lá sempre serão úteis às crianças. Por saber que a doação não passou de um engano, Woody foge e tenta retornar para a casa de seu dono antes que este vá embora. Enquanto isso, Buzz Lightyear e os outros brinquedos de Andy descobrem a terrível realidade da creche, inclusive a de que eles não podem sair de lá.

O filme abre com uma cena divertidíssima em que vemos uma aventura dos brinquedos imaginada (e brincada) por Andy, quando este ainda era uma criança. A sequência serve como um eficaz contraponto a situação que se segue. Desejando chamar a atenção do seu dono, os brinquedos, liderados pelo "caubói" Woody, bolam um plano para que estes sejam vistos por Andy dentro de um baú em seu quarto, e assim, surja uma pequena possibilidade do jovem retomar o interesse em brincar. E claro que o plano não da certo.

Explorando o drama e os conflitos desses brinquedos diante da dúvida a cerca de seus destinos, o roteiro de John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich é brilhante ao retratar a questão quase existencial desses personagens de forma incrivelmente delicada e sutil.
Logo, não deixa de ser comovente presenciar a situação de submissão deles a seu dono, que temem ser jogados no lixo por não serem mais úteis. Mesmo que esses brinquedos tenham como objetivo de vida servir a sua criança, buscar o próprio destino que não seja um lixão acaba se apresentando como uma possibilidade, e implicando em conflitos internos riquíssimos para esses personagens.

Enquanto Woody toma, na história, a posição de boneco fiel ao seu dono, Lotso assume o oposto, e ganha o posto de personagem mais ambíguo e complexo do filme. De aparência amigável e todo cor-de-rosa, o ursinho Lotso se revela, no decorrer da trama, um brinquedo cínico e manipulador capaz de tornar o ambiente da creche em uma prisão para todos os brinquedos de lá. Rivalizando diretamente com a comovente cena de Toy Story 2 em que a "cowgirl" Jessie relembra os momentos que teve com a sua dona, o sombrio flashback de Lotson explica as razões e os traumas que o tornaram em um urso de pelúcia cruel.

Repleto de cenas de ação empolgantes e muitíssimo bem elaboradas, Toy Story 3 assume um ritmo mais veloz de narrativa, intercalando cenas importantes e intimistas de desenvolvimento das personagens com sequências tensas e sombrias. Como é de praxe, a Pixar simplesmente arrasa nos detalhes da animação, desde os cenários complexos como a creche, passando pela variedade de brinquedos, até as expressões das personagens. A qualidade tecnológica da imagem possibilita efeitos mais convincentes e gráficos mais reais; além disso, a direção de Lee Unkrich fez um trabalho excepcional na concepção de muitas das cenas, utilizando marcas e características de gêneros cinematográficos nas composições, por exemplo, de momentos como aquele em que vemos por fora de uma máquina (de guloseimas) a sombra de personagens através da estrutura externa do objeto, semelhante àquelas cenas de filmes noir e de espionagem onde os bandidos estão reunidos em tono de uma mesa jogando baralho, banhados por uma luz que irrompe na escuridão do lugar. Dessa mesma forma, algumas sequências são tão lúgubres e tensas que mais parecem tiradas de um filme de terror, como aquela em que bebês brincam violentamente com os brinquedos novos da creche ou o momento em que dois personagens são perseguidos por um bebê de brinquedo.

Mesmo assim, Toy 3 consegue ser tão ou mais engraçado quanto os seus predecessores. Cenas como a da versão um tanto caliente do Buzz Lightyear, ou aquelas envolvendo a Barbie e o Ken, divertem e dão o alívio cômico necessário a trama. Também não deixam de ser divertidas as referêcias a elementos dos filmes anteriores, a exemplo, "O Garra". Da mesma forma, as referências a filmes foram inseridas de forma orgânica, até mesma a já batida alusão a Missão Impossível funcionou perfeitamente sem que soasse gratuita. Desenvolvendo uma tensão crescente, a última meia hora da animação dá conta de aprofundar os conflitos e a premissa até o limite, culminando em uma emocionante sucessão de eventos digna de um capítulo final de uma trilogia.

Por mais que Toy Story se trate de uma animação e que carregue, por isso, um aspecto de ludicidade e infantilidade, a série conseguiu em todos os três filmes desenvolver de forma eficiente o potencial dramático da premissa elaborada. Isso, aliás, tem se revelado como uma característica desse contemporâneo gênero cinematográfico, que, por ter seu humor acentuado, trabalha o drama dentro de uma sutileza inteligente. Toy Story 3, porém, não hesita em desenvolver ao máximo os aspectos sombrios e comoventes de sua própria história, enquanto consegue divertir e encantar. Teremos aí mais um clássico do cinema?

Cotação: Excelente

quarta-feira, setembro 29, 2010

Imagens do Exílio

Ao mesmo tempo em que o Brasil sofria com os traumas políticos do passado, o brasileiro sentia a decepção de sua primeira empreitada democrática ruir com o presidente Collor, e como consequência, sua auto-estima era cada vez mais afetada. O cinema nacional, intrinsecamente a esse contexto, se encontrava em uma profunda crise. Com a Embrafilmes fechada pelo então presidente, a quantidade de filmes produzidos por ano caiu a quase zero e projetos foram cancelados. O cinema nacional estava, assim como o país, completamente desacreditado em si próprio.

Refletindo a história que se escrevia, o cinema brasileiro veio a ter suas primeiras reações justamente com o impeachment de Collor e as primeiras políticas de Itamar Franco, continuadas no governo de FHC. Tem-se aí o início da Retomada. Quando os recursos da extinta Embrafilmes foram distribuídos, os projetos paralisados puderam ser retomados e os novos diretores, que só esperavam por fomento, tiveram espaço e oportunidade. Uma das primeiras produções - ou a primeira - a se destacar internacionalmente foi o filme Terra Estrangeira, de Walter Salles.

O filme tem início com o anúncio do confisco das poupanças dos brasileiros pelo governo de Collor, e segue mostrando personagens que, pela política vigente no país, se encontram completamente sem rumo. Paco (Fernando Alves Pinto) vai para Portugal após sua mãe ter morrido no momento em que soube dos confiscos das finanças dela. Lá, o personagem conhece e se envolve com Alex (Fernanda Torres), namorada de um traficante. Os dois brasileiros, sem perspectivas, flertam com o crime e não sabem qual rumo tomar. O filme deixa clara a sensação de desamparo dos personagens e trabalha, antes de tudo, as feridas do brasileiro daquela época, o luto e a descrença na própria nação, forçando o contato do telespectador com a realidade.

Todo em preto-e-branco, Terra Estrangeira nos apresenta ao Brasil da primeira metade dos anos 90 de forma melancólica, querendo falar do presente triste que abatia o país. Marcando por abordar personagens que não conseguem ver o futuro na própria nação, o filme de Salles mostra o retorno destes - que agora tinham a imagem da terra estrangeira como uma solução - à pátria mãe Portugal. Impedidos de voltar pelas reviravoltas da trama, a imagem mais marcante do filme é aquela em os dois protagonistas estão abraçados em uma praia com um navio encalhado à beira mar, impedido de retornar ao lugar de onde saíram. Essa foi a situação de muitos brasileiros como Paco e Alex, que não tinham mais perspectivas e esperanças no futuro do Brasil. Nas palavras do próprio Walter Salles, o que abatia o país naquela época era "não mais o exílio político dos anos da ditadura, mas um novo, econômico, que vem transformando o Brasil dos anos 90 num país de emigração, pela primeira vez em quinhentos anos".

Sou apaixonado por Terra Estrangeira. É um documento magnífico daquele período do Brasil, um filme que retrata com precisão a tristeza e falta de perspectiva do brasileiro já traumatizado da era Collor. A cena mais emblemática desse filme para mim é a final, ganhando até mesmo daquela do navio a beira mar. Embalada pela canção "Vapor Barato", de Gal Costa, a cena mostra o destino de Paco e Alex, que ainda tentam voltar para a nação deles, porém, mais cheios ainda de desesperança, perdidos e sem rumo. O momento final é perplexo quanto a realidade brasileira. Apesar de se passar em Portugual, o filme, ao meu ver, abre alí a Retomada do cinema nacional. Belíssima pela composição, a cena é pontuada por uma canção que faz jus a mensagem do filme e, incrivelmente, tem tudo a ver com a situação das personagens. Fiquei até a me questionar se aquilo que Gal canta, se a "minha grande, minha pequena, minha grande obsessão" fosse na realidade o Brasil. Fica aqui a questão.

Depois de uma grande indecisão, coloquei um vídeo da cena final de Terra Estrangeira. É um spoiler gravíssimo para quem nunca assistiu ao filme, mas vale a pena ser revisto por aqueles que já o assistiram.



sexta-feira, setembro 24, 2010

A Origem

Inception (EUA, 2010), escrito e dirigido por Christopher Nolan, com Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Michael Caine, Ken Watanabe e Cillian Murphy.

Christopher Nolan é um cineasta que, em praticamente toda a sua trajetória, tentou fugir do básico, do simples e do convencional. A inversão ou experimentação em estruturas narrativas e o desenvolvimento ao extremo dos conceitos elaborados em cada filme comprovam a inquietação e as grandes intenções de um diretor que busca unir o entretenimento a um conteúdo cinematográfico de grande qualidade, e um produto industrial a idéias mais autorais, sempre tendo como ponto central a figura humana. Dessa vez, em A Origem, Nolan explora o fascinante e misterioso mundo dos sonhos, e consequentemente, do subconsciente humano, em uma trama inventiva e frenética, que evolui até o máximo e além daquilo que se espera para um único filme.

A frente de uma equipe de espiões industriais, Dom Cobb (DiCaprio) é um dos melhores no que faz, ele rouba segredos da mente das pessoas através de uma tecnologia que permite a invasão dos sonhos alheios. Uma vez dentro do sonho da vítima, a equipe tenta encontrar as informações secretas desejadas, ou então, a fim de manipulá-la, leva-a a ter outro sonho dentro do sonho no qual já se encontra, criando níveis diferentes capazes de confundi-la. Fugitivo da justiça americana, Cobb aceita a proposta do grande empresário Saito (Watanabe) de invadir os sonhos do herdeiro bilionário Robert Fisher (Murphy) da indústria concorrente para "instaurar" uma idéia, uma tarefa inédita e de extremo risco para a Cobb, seu parceiro Arthur (Gordon-Levitt) e o resto da equipe. Em troca, Cobb conquistaria a entrada livre nos EUA e reencontraria seus filhos.

Impressionando por transcender, em poucos minutos de filme, os próprios conceitos recém apresentados na trama sobre a capacidade de invadir sonhos e roubar idéias, Norlan faz questão de tornar a trama - em seu roteiro escrito de forma fenomenal - mais complexa através da inversão do principal objetivo da invasão. Invés de entrar na mente de alguém para adquirir as informações mais secretas, a equipe de Cobb passa a ser incumbida de implantar uma idéia na mente de Fisher. Esse tipo de inversão de lógica, que normalmente esperaria um segundo filme para ser explorada, torna a história infinitamente mais complexa, ao mesmo tempo em que possibilita um desenvolvimento muito mais profundo e criativo das idéias elaboradas por Norlan, assim como do modo de funcionamento do subconsciente em seu estado mais dominante. Imergindo no universo dos sonhos, Norlan cria leis para os sonhos em A Origem que não se difere muito dos nossos mais cotidianos "passeios" noturnos. Logo, fatos que ocorrem no exterior de quem sonha, e que podem ser captados pelos seus sentidos, são completamente capazes de interferir nos sonhos. Então, chove torrencialmente enquanto um personagem dorme com vontade de urinar ou sons externos são absorvidos, configurando-se como parte integrante daquela "realidade". Outra lei de igual fascínio reside na diferença temporal que existe entre o mundo real e um sonho, sendo cinco segundo no primeiro equivalente a um minuto no segundo. Um sono de dez horas, então, implica em uma semana para quem está dormindo. Se essas leis por si só tornam esse universo impressionante e cheio de possibilidades, quando inserido o conceito dos sonhos dentro de outros sonhos a história ganha complexidade, reviravoltas e um ritmo que exigem o máximo de atenção e concentração possíveis do espectador. E mesmo assim, Christopher Nolan não faz questão de se prender a explicações repetitivas, confiando na inteligência e perspicácia de seu público.

Retratando os cenários das imagens oníricas com relativa lucidez, o incrível design de produção parece fugir da tentadora possibilidade de construir cenários surrealistas ou irreais, comuns a obras que retratam os sonhos e inconsciente humano. Focando-se mais no processo de manipulação da equipe de Codd a Robert Fisher, Norlan evita devaneios e imagens confusas que possam complicar mais ainda a vida do espectador. É possível perceber, também, que a concepção dos cenários de cada um dos sonhos muito tem a ver com a subjetividade e experiências de vida de cada um. Em maior ou menor grau, isso pode ser percebido. A aparência dos sonhos arquitetados pela equipe de Cobb (isso mesmo, em cada sonho existe um arquiteto, e a esse, outros sonhadores podem ser "ligados") é diferente daquelas em que outros personagens são arquitetos.

Mesmo tendo que lidar com tamanha complexidade narrativa, o elenco de um modo geral faz um excelente trabalho. DiCaprio surge tão intenso como nas produções anteriores, e faz de Cobb um homem misterioso e complexo, quase que no limite de sua sanidade; a exemplo, a cena em que Cobb fica em dúvida se atira ou não em uma imagem de sua falecida esposa, fruto de uma projeção mental dele mesmo. A introdução de projeções da falecida esposa de Cobb logo no início do filme serve como as primeiras pistas para o misterioso passado do personagem, que vai sendo revelado em perfeita sincronia com a trama.

Mas é possível que o trabalho mais fenomenal desta produção esteja na montagem. Lee Smith teve o desafio de tornar clara a velocidade do tempo em cada um dos níveis de sonho, pois em cada sonho que os personagens se submetem, em cada nível mais profundo de sonho, o tempo passa de forma diferente do nível anterior (seguindo a escala que já citei aqui). O montador, portanto, tem completo êxito em sua montagem, pois todos os níveis de sonhos aparentaram ser dotados de uma sincronia particular graças a uma montagem inteligente e criativa. Assim, perto do clímax da ação, foi utilizado um slow motion no nível um de sonho, enquanto a urgência e caos cresciam gradativamente de nível para nível, até àquele que Cobb denomina como limbo.

Explorando ao máximo o universo criado, Christopher Nolan faz de A Origem um exemplar do gênero ficção científica, respeitando as regras estabelecidas e indo muito além do que o próprio espectador pode imagina, às últimas consequência. O desfecho, por mais confuso que seja, segue toda a lógica estabelecida desde o início e - espero que eu esteja errado - é possível que algumas pessoas acreditem ver incoerências.

Cotação: Excelente

segunda-feira, setembro 20, 2010

2019 - O Ano da Extinção

Daybreaker (AUT/EUA, 2009), escrito e dirigido por Micheal Spierig e Peter Spierig, com Willen Dafoe, Ethan Hawke, Sam Niel e Claudia Karven.

Os irmãos Michael e Peter Spierig possuem uma experiência cinematográfica relativamente pequena e pouquíssima expressiva, ambos dirigiram e escreveram apenas três filmes, entre eles, este 2019 - O Ano da Extinção, o primeiro a ter uma estrutura e repercussão de um filme A. Esta foi a primeira película que pude assistir da dupla e, à primeira impressão, pude constatar que se tratam de diretores que arriscam investir nas próprias inventividades e que são dotados de uma preciosa intenção, a de desenvolver seus personagens dentro das situações criadas. Infelizmente, eles ficam apenas na intenção e pouco conseguem fazer no desenrolar da história. Tratando de uma das criaturas mais famosas e fascinantes do cinema e da literatura, a dupla nos apresenta a vampiros que vivem em uma realidade completamente diferente daquelas já vistas em outras histórias.

Em 2019, após uma pandemia de um misterioso vírus, quase toda a população é composta por vampiros que passaram a viver de uma forma semelhante àquela dos humanos, mas ainda dependentes do sangue e sob extrema intolerância a raios ultravioletas. Praticamente dizimada, o resto da raça humana é caçada e seu sangue comercializado como alimento. Com a escassez cada vez maior do sangue humano, o governo decide criar um substituto do alimento dos vampiros. O cientista Edward Dalton (Hawke), um vampiro que não aceita a própria natureza e luta pela conservação da raça humana é um dos encarregados de projetar a substância, mas em meio a fracassos e ao caos da falta de sangue, ele acaba se juntando a um grupo de humanos que poderão ajudá-lo a salvar a humanidade.

Iniciando de forma promissora, a primeira cena de 2019 mostra uma vampira adolescente se suicidando por não conseguir aceitar as condições as quais vive, como a eterna aparência juvenil, devido a sua natureza vampiresca. O que pode parecer incoerente, na verdade, trabalha a complexidade de sentimentos existentes em um indivíduo que não morre e nem pode amadurecer. A imortalidade, geralmente tratada de forma positiva nas histórias de vampiros, logo na abertura é representada como uma característica negativa através do ponto de vista de uma pessoa. Porém, o elemento inovador desta história de vampiros se trata da premissa em que estas criaturas substituíram os humanos em seu habitat, passando a caçá-los. Essa idéia, por si só, é atraente e cheia de possibilidades, o que já conta de forma positiva para o roteiro. Além disso, os irmão Spierig nos apresenta à curiosa adaptação dessa nova sociedade formada por vampiros, onde carros bloqueiam a luz solar, vias subterrâneas possibilita o trânsito de vampiros pelas cidades e o sangue humano é extraído como uma fonte não renovável prestes a acabar.

Explorar a natureza vampírica sob a ótica da não aceitação desse mal e da culpa, remete, de certa forma, a série X-Men, em que mutantes tentam lidar com os próprios poderes especiais enquanto são discriminados socialmente. A diferença é que, enquanto a mutação é um dado natural em X-Men, o vampirismo em 2019 é decorrente de uma infecção, o que nos faz traçar um paralelo imediato dos vampiros com doentes e do vampirismo como um sintoma. Dessa forma, é louvável a intenção dos diretores em retratar o conflito de alguns personagens com a natureza vampírica, como a auto repressão de Edward Dalton aos seus instintos vampiresco, que, evitando ingerir sangue humano e não se conformando com a dizimação da humanidade, não hesita em tentar se transformar novamente em humano quando se ver frente a essa possibilidade.

Coerente a realidade de uma civilização dominada por vampiros, o diretor de arte Bill Booth faz um bom trabalho ao usar arquiteturas e designers sofisticados e elegantes, sempre com tons escuros, luzes que variam do branco ao vermelho, refletindo bem as características desse famosos personagens. O mesmo pode ser percebido nos figurinos compostos quase que predominantemente por cores neutras, mas com uma estilização meio retrô, tentando remeter ao estilo mais tradicional dos vampiros. A fotografia, no entanto, é decepcionante pelo exagero nos tons de azul escuro, quando não, num sépia forçado em imagens que mostram a luz do dia, o que entrega a imaturidade do fotógrafo Ben Nott, que tenta criar uma atmosfera mais envolvente sem sucesso.

Evitando a artificialidade vista na maquiagem dos vampiros da saga Crepúsculo, a equipe de maquiagem de 2019 se sai muito bem ao dar o tom branco pálido à pele dos atores, assim como dá a aparência realista e impressionante às criaturas chamadas de subespécies, uma evolução dos vampiros que sofrem abstinência de sangue humano. Os efeitos especiais, impressionantemente, cumprem muito bem o seu papel, desde o aspecto pastoso do sangue humano coagulado, até as sequências de ação, falhando apenas em alguns detalhes, como a aparência das pupilas dos vampiros que aparentam terem sido criadas digitalmente. As cenas de ação, como aquela em que uma subespécie invade a casa de Edward e ataca a ele e seu irmão, são eficientes e causam a tensão e impacto necessários aos espectador.

No entanto, as maiores falhas de 2019 residem no seu roteiro. Justamente por abordar uma proposta promissora, o roteiro deixa a muito a desejar por não desenvolver os conflitos possíveis. A relação de Edward e com o seu irmão Frankie - que gosta de ser vampiro - pouco acrescenta a trama, já que a diferença ideológica de ambos não serve nem para esclarecer os motivos que levam alguns indivíduos a gostar de ser vampiro (algo do qual ainda falarei). Já Charles Bromley (Niel), o homem a frente do laboratório de hematologia responsável por desenvolver o substituto do sangue, surge como um "vilão" bidimensional que, mesmo demonstrando se importar com a filha, não hesita em transformá-la em uma vampira contra a própria vontade dela. É mais um daqueles que parecem gostar muito de ser vampiro.

Ao contrário de X-men, 2019 esquece de desenvolver os motivos que levam alguns vampiros gostarem de serem vampiros. Se na série dos mutantes vemos o orgulho que o vilão Magneto sente de seus poderes, tudo o que este sofreu e que o levou a se voltar contra a humanidade (Magneto acreditava que um novo holocausto aconteceria com os mutantes); em 2019, aqueles que se orgulham de ser vampiro têm sua postura fracamente justificada. Frankie, o irmão de Edward, dá uma justificativa pedestre de gostar de ser vampiro porque nunca conseguiu ser um bom humano, enquanto Charles Bromley parece não sentir o menos remorso de extinguir os últimos integrantes da humanidade, o que uma falha significativa, pois nas primeiras cenas do filme já fica estabelecida a proposta de vampiros com certos comportamentos e consciência humanas.

Interessante por estabelecer conceitos novos, 2019 - O Ano da Extinção decepciona por não respeitá-los e ao deixar escapar as diversas possibilidades de examinar o comportamento dessas criaturas fantásticas imersas em um contexto peculiar para elas.

Cotação: Regular

domingo, setembro 05, 2010

Considerações sobre o Cinema 3D


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Um dos maiores equívocos em grande parte das propagandas de cinemas 3D e nos próprios filmes que hoje experimentam essa nova tecnologia é a promessa de transportar as imagens para fora da tela, como se essa impressão ótica fosse o grande trunfo dessa nova tecnologia. Foi por conta dessas propagandas enganosas que senti uma certa frustração ao assistir pela primeira vez a um filme em três dimensões, há quase dois anos. Tratava-se da segunda película projetada em 3D na cidade onde moro, o filme-concerto U2 3D, que mostrava vários trechos da turnê Vertigo Tour, da banda irlandesa. Lembro de ter percebido que essa tecnologia não apresentava tamanha liberdade aos objetos cênicos de um filme como sempre foi propagado por aí, o que havia era apenas uma percepção mais palpável e realista destes.

O mais interessante é que essas propagandas enganosas parecem ter sido disseminadas como consequência de uma grande incompreensão da própria tecnologia que estava (ainda está) sendo experimentada por parte dos produtores de cinema e dos exibidores. Dessa forma, o maior problema não reside nas já velhas e descredibilitadas propagandas de cinemas 3D, mas sim nas novas empreitadas cinematográficas com essa tecnologia. É visível que muitos produtores de cinema não entenderam ainda a essência e as verdadeiras potências da imagem em três dimensões. Muitos filmes 3D, ainda hoje, são feitos tendo como base a ingênua idéia de que a terceira dimensão da imagem pode proporcionar uma maior interatividade ou impressão de que os personagens ou objetos podem sair da tela, levando o espectador a sentir-se mais dentro daquela realidade fictícia.

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É fato que existe um sobressalto quando um objeto com aparentes três dimensões voa em direção ao público, a impressão de solidez e palpabilidade realmente existe, mesmo que mínima. Contudo, na tecnologia 3D todas as imagens estão presas a tela, nada dali sai, pois diferentemente de uma imagem holográfica a 3D não ocupa um lugar em um espaço real, mas sim simula este espaço. Em sua essência, o cinema em três dimensões não foi criado para transpor nada da tela, e nem para criar esta impressão; ao contrário, ele parte do princípio de criar a profundidade dos elementos na imagem, através de uma técnica chamada estereoscópia, que consiste em captar uma mesma imagem em dois ângulos diferentes alinhados de forma horizontal, como se fosse a imagem de dois olhos, um esquerdo e outro direito. Essa técnica permite que vejamos objetos em uma imagem dotados de profundidade e não chapados, como na imagem de duas dimensões. A terceira dimensão, aliás, é a própria profundidade.

Já a tentativa de provocar essa impressão de transposição da tela (ou parede) pode acabar resultando para o espectador em uma frustrante quebra da quarta parede, o que, consequentemente, destrói a ilusão quando este descobre que objeto nenhum sai da tela, pois claro, tudo aquilo é ficção. Indo na contramão de muitas produções, a recente animação Como Treinar o seu Dragão esquece de tentar impressionar o público com os já clichês de "atirar coisas contra a platéia" e passa a trabalhar com o que realmente importa na imagem tridimensional: o seu terceiro elemento, a profundidade. Dessa forma, assim como no recente e impressionante Avatar, o que está no fundo, a nova dimensão dessa realidade fictícia e as impressões que causam ao espectador ganham maior relevância e são melhor experimentadas.

O cinema 3D não veio pra confundir a realidade fictícia da tela com a nossa de espectador, nem para confundir os espectador com o personagem. O cinema 3D veio pra tornar aquela história fictícia mais verdadeira, pra trabalhar mais ainda a nossa fantasia e imersão. No dia que o cinema se transformar numa espécie de game holográfico aí sim transportar objetos e personagens para fora da tela pode passar a funcionar narrativamente.

segunda-feira, abril 05, 2010

A Casa de Alice

Após o término da projeção de A Casa de Alice, a primeira coisa que pensei foi: "Como um filme que começa tão bem e equilibrado pode se perder no meio do caminho, mas ainda assim ter um desfeixo satisfatório?". Não foi preciso eu o rever muito em minha mente para descobrir o que me incomodou. A Casa de Alice é mais um filme que segue a vertente de alto realismo do cinema brasileiro atual, que procura antes de tudo nos convencer daquelas vidas e criar na tela uma realidade quase tão palpável como a nossa (dos brasileiros), dessa vez, de uma família brasileira de classe média, apostando na crueza da imagem, nos sons ambientes e em atuações tão naturais quanto o diálogo mais banal que uma familia possa ter.

Tudo começa com planos nos vários cômodos da casa de Alice. Vemos os quartos, sala, cozinha, banheiro, varanda, e o despertar das personagens que, nas próximas horas, teriam que conviver por mais um dia uns com os outros. Em seguida, somos apresentados a vida e intimidade de Alice (Carla Ribas), uma manicure que mora na periferia da cidade de São Paulo com a sua família. Aos poucos presenciamos os vários conflitos familiares, do casamento desgastado entre Alice e seu marido, passando pela difícil convivência entre os seus filhos, aos problemas de saúde da mãe desta.

Tratando com grande naturalidade a vida dessas pessoas, a direção é eficiente em manter os acontecimentos, por mais dramáticos que sejam, distante do melodrama, sem em momento nenhum tentar comover o público, deixando que a situação destes personagens o faça por si só. A ausência de trilha sonora é um dos elementos que compõem o caráter tão real e quase documental do filme, permitindo que apenas os sons da cidade de São Paulo que invadem o pequeno e simples apartamento de Alice preencham o ambiente desta família. São os sons da vida que, pela sua presença, causam as emoções na medida incerta, confusa e incapaz de conduzir, como a trilha, as sensações do público, sendo um dos elementos fundamentais que conduzem o espectador a ter, assim como a protagonista, uma idéia pouco clara e condensada da vida de Alice.

Outro elemento que contribui para essa construção é a câmera sempre ousada que pega os planos mais incomuns, ou tão comuns, indiscretos e nada convencionais da família, sem grandes truques, com apenas o suficiente para que entendamos as situações que ocorrem na casa, assim como em um documentário, ou mesmo em um documento de famila. Tendendo a nos mostrar um drama familiar focado mais no coletivo, como se a família fosse um grande personagem em conflito interno, as situações são abordadas com pretensa neutralidade, enquanto a câmera sempre exita em buscar uma aproximação das personagens ou o ponto de vista particular destes, com a excessão de Alice, que de todos, parece ter seu contra-plano mais próximo da lente.

Como uma estória voltado para tal objeto, somos levados a acompanhar em difícil rítmo cotidiano a vida dessas pessoas. Filmes desse gênero são, assim como a vida, de mais difícil condensação, presenciamos fatos repetidos, com poucas modificações e uma trama que difícil evolue por justamente estar centrada na inércia que é a vida destes personagens. Apenas pequenas e singelas tramas se desenvolvem, deixando claro que houve um antes e um depois, sem dar um caráter especial aos eventos, mas sim, enfocando aquele presente representativo daquelas pessoas.

A Casa de Alice falha, no entanto, ao tentar fazer do filme um experimento narrativo ousado em um roteiro já complexo, delicado e pontuado por fatos tão discretos e comuns. O diretor Chico Teixeira, juntamente com a edição de Vânia Debs, confundem o telespectador e pouco acrescentam ao filme com as suas reviralvoltas na estrutura narrativa. Em determinado momento do filme, avançamos perceptivelmente algum tempo da trama, com uma elipse que esconde alguns fatos que veremos somente mais para frente, quando essas cenas "puladas" são inseridas, constituíndo assim uma edição recortada. Se essa estrutura já se apresentava confusa em um filme que mostra o cotidiano das personagens, sem pontos de referência na trama, sem fatos que marquem e nos ajudem a ligar os pontos no final, mais difícil ainda se torna a organização dos eventos na cabeça do espectador quando situações ocorridas num tempo antes dos eventos aos quais o filme presencia são mostrados. Cenas que mais se tratam de um flashback e não mais de um recorte de edição.

Toda essa estrutura impossibilita o público de organizar alguma ordem para as cenas e para os fatos no pós-sessão, chegando a frustrar pela incapacidade de se compreender completamente a evolução das situações. No entanto, suponho que a intensão dessa edição seja a de tornar toda aquela estória em algo menos sintetizante e confortavelmente interpretativo para o público, assim como a personagem a respeito de sua própria vida, ao mesmo tempo que conduz cada vez mais a atenção do público para o significado em si das cenas. Porém, não é justo o sacríficio da compreensão da estória quando a última cena, por si só, causaria o impacto necessário capaz de confundir e inquietar o espectador a respeito da vida daqueles personagens. Um excesso de retórica. Confusões a parte, sejam elas úteis ou não, A Casa de Alice é um documento realista e angustiante daquela prostagonista e sua família.

quinta-feira, novembro 05, 2009

O velho Caetano (e bom)

Entrei com muita expectativa na sala de cinema. A gente sempre espera ver algo surpreendente quando se trata de Caetano Veloso. A sinopse do filme Coração Vagabundo não dizia muita coisa, apenas ressaltava a presença de Paula Lavigne, Pedro Almodóvar, Michelangelo Antonioni, Gisele Bündehen, David Byrne e que o diretor Fernando Andrade "deixou o musico livre para dissertar sobre a saída de sua cidade natal, o sucesso no Exterior, a relação com Almodóvar e a separação de Paula Lavigne".

Algumas matérias de sites e jornais forma além: a atenção sobre a nudez de Caetano na cena inicial indicando a intimidade a qual o filme se propõe, a tentativa do diretor em apresentar o artista como um cara simpático e bem humorado às novas gerações, o medo de Caetano em envelhecer à preocupação em ser maquiado, as opiniões sobre quase tudo e a contestação da afirmação de Hermeto que o considerou um "musiquinho" afirmando ser a música americana a melhor do mundo.

Tudo isso está mesmo no filme, mas sem uma narrativa que nos atraia. Quem não gosta de Caetano poderá odiar o filme e mais ainda o artista. Então, melhor do que ver o filme é ouvi-lo. E como é bom ouvir Caetano no cinema! Sua voz fraca e violão primitivo crescem embalados com os arranjos modernos apresentados no álbum "A Foreing Sound" e a guitarra jovial de Pedro Sá.

O simpático Caetano que pretendeu ser apresentado a mim soou o mesmo Caetano com sua falsa-modéstia de sempre, do tipo que diz "eu não sou tão bom assim" quando quer afirmar o contrário, quando diz que não fala tão bem inglês mesmo tendo feito composições na língua britânica e ter gravado um álbum cantando em português/inglês como foi "Transa".

A transgressão de Caetano no filme ou "intimidade" não está na cena em que ele aparece nu. Aliás, não se vê quase nada. O que choca mesmo é o discurso sobre a velhice a partir de um homem velho que não se considera pejorativamente velho e que nunca se imaginou envelhecer como está hoje. Caetano nos ensino que o tempo dele é outro: o tempo de quem aprendeu a desacelerar e aprendeu que sempre há tempo sobretudo quando tem-se a idéia de que ele vai acabar num instante. Há mais vida, vontade e entusiasmo no Caetano de hoje, aos sessenta e tantos anos, do que naquele dos anos sessenta que gritava com impaciência e pressa: "É proibido proibir".

Em tempo: Paula Lavigne aparece estereotipada como chata no filme, Gisele Bündehen é absurdamente desnecessária na estória, Antonioni não diz muita coisa, Almodóvar podia ter dado um beijo na boca de Caetano que chocaria mais que o nu, e Pedro Sá não abre a boca. Mas o filme é bom? Não e eu gostei. Porque me fez refletir sobre o medo de envelhecer, porque é linda a cena do passarinho que pousa no ombro do companheiro de Caetano no Japão, porque Caetano continua sendo para mim uma referência estética artística e deu mais vontade de curtir o show dele aqui em São Luís, no dia 14.

"Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval. Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal. Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual. Já tem coragem de saber que é imortal" (O Homem Velho. Caetano Veloso)

Texto escrito por meu amigo desblogado Alberto Junior.


Ótimo texto, Alberto; e interessante análise. Atrevi-me a por umas ilustrações, mania minha! Obrigado pela contribuição ao blog.

sábado, agosto 09, 2008

Dois Curtas

Resisto em postar vídeos porque, geralmente, a maioria não assiste mesmo. Mas em si tratando desses dois divertidos e bons curtas, não consegui resistir, e aqui estão eles. Acho que não preciso avisar, mas insisto: Deixem o vídeo carregar por inteiro antes!

Um curta que mostra como uma edição pode terminar o roteiro.




Selton Mello defendendo as suas teorias "tarantianas".

segunda-feira, julho 21, 2008

O Cavaleiro das Trevas - Primeiras e Sensíveis Impressões

Intrigado, cansado e feliz. Há cerca de uma hora, eu estava saindo da sala de cinema na qual assistia a Batman - O Cavaleiro das Trevas, e ainda sinto um pouco do peso que o filme deixou sobre minha mente.

Frenético em seu ritmo e realista em seu tratamento, essa continuação segue a mesma lógica do primeiro, mas desenvolvendo-se com uma intensidade tão forte que o diferencia de qualquer outro filme de super-herói. Impregnado por um pessimismo que não via desde O Senhor dos Anéis, o filme pouco nos dá a chance de acreditar em algum sucesso para os conflitos dos personagens, transformando a sessão de mais de duas horas e meia em uma experiência realmente cansativa e difícil, o que é certamente positivo por, de certa forma, essas sensações serem resultantes da carga dramática e da fácil correlação que fazemos da vida em Gothan City com a típica situação de medo e insegurança a qual vivemos nas metrópoles. Essa nova série, arrisco-me dizer, trata-se sobre a cidade, seu caos, sua moral frágil, seus bandidos e heróis, e bem mais a dicotomia destes.

Como uma grandiosa promessa que já sentia medo de não ser cumprida a altura, o Coringa revelou-se um indivíduo completamente sem senso, um anárquico. Eu sinto, mas muito mesmo pela morte de Heath Ledger, muito mais após este filme, que deixou marcado e comprovado como em nenhum outro o talento do ator. Intenso, visceral, intuitivo e dominante da técnica, Ledger assusta em cada momento de sua aparição, e de sua ausência também, que através de uma sádica mistura de humor e horror, me causava vários sorrisos nervosos durante a projeção. Com um vilão desses foi realmente difícil permanecer calmo.

Confesso que, mesmo lembrando bem o que foi o Batman Begins, ainda fiquei completamente abismado com a visão que Chritopher Norlan possui da estória do herói e com tudo que reproduziu neste filme. Penso, aliás, que o objetivo do diretor seja realmente nobre no que diz respeito a qualidade, seja na estética, seja no conteúdo; são filmes como esse, possuidores de uma natural tendência industrial mas que trazem consigo um trabalho artístico profundo, que pegam desprevenidamente uma distraída ou ignorante massa, como se fossem armadilhas para o bom gosto. São iscas que levam, aos poucos, um público a refinar seu paladar e torná-lo mais exigente. Ah! E como é bom ver milhares de pessoas correndo para os cinemas jurando que irão assistir a um divertido filme de super-herói, quando na verdade estão experimentando um denso e bem desenvolvido drama policial, que não arrastaria um-quarto desse público. Nesse sentido, adoro cineastas sagazes e propagandas enganosas de estúdios gananciosos. Como é dito em Batman - O Cavaleiro das Trevas: "Às vezes as pessoas merecem algo melhor que a verdade."

Ainda vou postar aqui uma análise mais crítica do filme, mas sinceramente, antes vou assisti-lo mais uma vez. Acho que não estava preparado para o excesso de informação. Deveria sempre estar!

sexta-feira, julho 18, 2008

O Gozo Espetacular da Violência

Tenho estudado e pesquisado mais intensivamente meu tema de monografia, que trata diretamente sobre cinema e violência, o que tem sido revelador em alguns aspectos, incitando-me a refletir sobre certos assuntos. Ao ler o artigo Estéticas da Violência no Cinema, de autoria da Doutora em Comunicação, Ivana Bentes, senti um forte incômodo diante do seguinte trecho:

"Para além do discurso midiático do medo difuso e demanda de repressão encontramos ainda outras diferentes formas de consumir a pobreza, ligadas ao circuito do turismo e das trocas culturais. A menos perversa, e mais antiga, faz pensar na pobreza e miséria como uma espécie de 'museu da humanidade', em que as favelas 'tombadas' (uma tendência inclusive urbanística, com o descarte, cada vez mais claro de qualquer idéia de 'remoção') são pontos turísticos com seu primitivismo-exótico, multiculturalismo e modos de vida em 'extinção'. A cena é comum em Copacabana. Um imenso jipe verde-oliva, apinhado de turista vestidos como se partissem para um safári africano, cruza a Avenida Atlântica saindo do Copacabana Palace. O Jeep Tour leva gente de todas as nacionalidades para ver de 'perto', ou do alto do jipe esse 'habitat natural' de uma pobreza ironicamente incorporada à imagem turística e folclórica do Rio de Janeiro.

[...]

A favela é o cartão-postal às avessas, uma espécie de museu da miséria, etapa histórica, não-superada, do capitalismo e os pobres, que deveriam, dada toda produção de riquezas do mundo, estar entrando em extinção, são parte dessa estranha 'reserva', 'preservada' e que a qualquer momento sai do controle do Estado e explode, 'ameaçando' a cidade."

É claro que chegamos ao ponto em que a violência e a miséria brasileira estão sendo encaradas como espetáculos. Não sei bem se o cinema tem a culpa nesse embelezamento da pobreza ou se somos nós que estamos um tanto incapazes de perceber a realidade, pois, mesmo que esses filmes possuam uma estética que traduz em belo uma difícil realidade, os mesmos são marcados por um realismo visceral que deveria nos chocar. Acredito que o problema esteja mesmo na forma como nos posicionamos quando estamos frente a telona; às vezes, parece que somos turistas visitando o nosso próprio país, tal qual, aqueles do jipe verde-oliva, citado por Ivana Bentes.

quinta-feira, julho 17, 2008

O Incrível Hulk

Ao comparar o primeiro filme (Hulk) com este novo O Incrível Hulk, percebemos claramente que existem novas pretenções da Marvel para esta série. O primeiro, dirigido por Ang Lee, procurava desenvolver ao máximo o drama da situação ao qual Bruce Banner se encontrava, estudando a psicologia do personagem e tematizando com solidez o filme. Já nesta continuação, a tentativa foi de contar a estória do personagem através de um estilo mais comum aos utilizados em adaptações de HQ's, no qual o equilíbrio entre a ação, desenvolvimento das personagens e o drama é feito de forma a tornar a narrativa fluída e com rítmo adequado para o tipo de estória. Não que a empreitada de Ang Lee não tenha sido boa, na verdade, foi ótima e fundamentou como em nenhum outro filme de super-herói os poderes e traumas deste personagem, que, no fundo, estão estritamente ligados.

Mesmo que eu acredite que o tratamento dado pela direção de Louis Leterrier a este segundo filme seja mais coerente à estória, sinto e senti maior empatia pela forma com que Ang Lee a contou. A densidade com a qual este último desenvolveu e a utilização de argumentos psicanalíticos/psicológicos como explicação para os traumas do protagonista, indiretamente deram ao filme sensações mais vicerais e angustiantes, além de nos conceder explicações quase plausíveis para a mutação do personagem. E essa capacidade de tornar a estória mais emotiva quando racionalizada parece ser inexplicavelmente um trunfo comum às estórias de Hulk. Da mesmo forma, em O Incrível Hulk, os momentos mais emocionantes e dramáticos estão diretamente ligados às questões psicológicas de Bruce Banner, quando estas são desenvolvidas.

Com um início ágil, o filme, logo após nos apresentar a nova situação e esconderijo de Bruce Banner, nos deixa a par da ameaça e do constante desespero do personagem em se livrar de seu "poder". Usando a favela da Rocinha como cenário para o esconderijo de Banner, a produção fez um ótimo trabalho ao escolher ângulos fabulosos compondo uma bela fotografia, e ao explorar, em alguns momentos, o caótico ambiente do morro, como na perseguição que os militares norte-americanos fazem pelas ruelas, lajes e becos traiçoeiros do morro. O trabalho de Direção de Arte e a produção no geral foram tão bem realizados que o íncomodo típico que nós brasileiros sentimos ao assistir filmes hollywoodianos filmados no Brasil foi quase imperceptível pela escassez de deslizes na representação da Rocinha e da vida na favela, tropeçando apenas aqui e ali.

Com uma urgência e rítmo intenso, o início do longa praticamente em nada parece com a cuidadosa apresentação das personagens de seu antecessor e, curiosamente, uma nova versão do auto-experimento científico de Bruce Banner que o tornou em Hulk foi mostrada (nesta, sua namorada Betty Ross quase morreu no incidente). Investindo mais tempo nos momentos de ação, o roteiro se torna mais atrativa e prende fortemente o espectador, ao passo que mostra também as consequência traumáticas da "pós-transformação em Hulk" e de toda a ação ocorrida, assim como a carga emocional deste por ter que, constantemente, manter-se isolado como um fugitivo e ver-se sempre a um passo de "surtar" novamente. Dessa forma, reencontramos um Bruce Banner amargurado, que sofre o peso de sua natureza mutante e do que ela pode criar.

Composta essa nova versão cinematográfica, nada mais normal que a mudança de elenco. Bruce Banner, antes atuado por Eric Banna, agora ganha um novo e competente interprete, Edward Norton. Se Banna possuía um físico mais avantajada (malhado) que dificultava uma aparência mais frágil, Norton já possui um corpo esguio, mas diferentemente do primeiro, exibe aspectos psicológicos que imprimem maior segurança ao personagem. A verdade é que a fragilidade típica de um personagem inseguro e possuidor de certos desajustes emocionais acaba sempre prejudicada por alguns desses aspectos. Se eu escolhesse entre as atuações dos dois, mesmo sendo um adimirador do trabalho de Norton, ficaria com a de Eric Banna, por considerá-la a mais coerente. No entanto, vale ressaltar que certas mudança têm mais a ver com escolhas tomadas pela direção, do que pela composição feita pelos atores.

Edward Norton, porém, é bastante eficiente ao mostrar o peso dos problemas e restrições do personagem sobre si. Da mesma forma, a atriz Liv Tyler, que interpreta Betty Ross, funciona muito bem com Norton, imprimindo química ao casal. Mas infelizmente, o roteiro esquece de sustentar o lado da personagem como uma importante pesquisadora, deixando-a apenas como a mera namoradinha do herói. Já Tim Roth, constroi um Emil Blonsky interessante e ambiciso, e até certo ponto, um tanto obcecado e ameaçador, até para o próprio Hulk.

Superando o primeiro filme no que diz respeito a efeitos especiais, O Incrível Hulk impreciona pela veracidade do próprio Hulk, mas não a ponto de esquecermos de seu caráter digital. Dessa vez, com uma pele composta por uma coloração mais escura que o torna mais ameaçador, o Hulk ganhou um caráter mais verossímio, chagando a impressionar por alguns instantes pela preocupação dos técnicos em tornar o personagem em algo "real" e palpável. A única falha na composição do herói fica mesmo nas suas expressões faciais sempre indefinidas e quase sem emoções, tornando praticamente indecifrávis os pensamentos e as sensações de um personagem que é, na verdade, a forma física e surtada do inconsciente de Bruce Banner.

Em meio a incerssões bem sucedidas de algumas cenas cômicas, o momento em que Betty Ross fica completamente irritada com um taxista, ao passo que, ironicamente, Bruce aparenta total postura parcial a situação; é o único que revela-se ineficaz por não possuir qualquer elemento surpresa pela obviedade da tirada cômica. Possuíndo uma série de pequenas situações forçadas, o final peca ao investir quase que completamente na ação desenfreada e, novamente, na criação surpresa e desnecessária de um novo vilão.

Preocupado em não apenas referenciar os quadrinhos, o diretor Louis Leterrier faz homenagens óbvias à série de TV dos anos 80, como o plano das íris dos olhos de Banner no momento da transformação em Hulk, ou o próprio título do longa que é a referência mais direta à série. O filme, aliás, se dá ao luxo de explorar as diversas possibilidades estéticas ou narrativas assumidas variadamente nas muitas versões dos quadrinhos. Hulk foi uma das HQ's com mais adaptações diferentes da mesma estória e, talvez, a utilização de outra versão, no filme, do momento em que o protagonista sofre o incidente laboratorial que o transforma em Hulk, seja uma liberdade absorvida pela adaptação cinematográfica dessa característica da estória do herói, a de possuir vários início e versões.

De um modo geral, o tom utilizado nesse novo filme sobre o super-herói verdão é mais adequado que o da versão anterior, por ser mais leve, menos denso, com mais rítmo e não menos dramático, sem, com isso, torná-lo pobre e superficial. Essa mudança bem sucedida confirma que, em certos casos, melhor que utilizar um estilo denso e racional que transforme uma obra pop em uma arte mais rebuscada, é desenvolver o filme dentro de um estilo mais atrativo e coerente à proposta da estória, mas que mesmo assim faça jus ao potencial desta e não duvide da inteligência de seu público. São justamente estas as maiores qualidade de O Incrível Hulk.

sábado, julho 12, 2008

Wall.E - Primeiras e Sensíveis Impressões

Quando escrevo sobre um filme e intitulo o texto de "Primeiras e Sensíveis Impressões", a idéia que tenho, obviamente, é de relatar o que senti e as primeiras impressões vindas do filme. Isso tem sido comum e relativamente fácil de se fazer, mas em si tratando de Wall-E, nas diversas vezes em que comecei a escrever este post me vi buscando um texto mais frio e distante, procurando não explorar e muito menos expor um pouco da experiência bem pessoal que foi assistir a essa animação.

A verdade é que dificilmente uma pessoa que assiste a Wall-E sairá a mesma ou sem um mínimo de reflexão. O filme é emocional, certamente. Mas incrivelmente racional também, como uma mistura magnífica que mais parece Steven Spielberg e Stanley Kubrick na direção de um mesmo filme, protagonizado por Chalie Chaplin. E comparar o robozinho com o ator é mais que um elogio ao trabalho da Pixar.

A princípio, Wall-E parecia ser uma ousada estória sobre a vida solitária de um robô programado para limpar uma Terra completamente poluída. No filme, um cenário verdadeiramente angustiante. São quase 30 minutos sem falas, apenas com gestos e rotinas, para então descobrirmos que a estória se trata da paixão entre dois robôs, que no decorrer do filme, abandonam suas diretrizes em prol do "amor". Aparentemente, uma idéia maluca e água-com-açucar, mas a verdade é que trata-se de um cinema de primeira.

O robô Wall-E é um personagem fascinante e irresistível. Não imagino quem possa ignorá-lo e não se comover logo nos primeiros instantes com a alma (isso mesmo) e sensibilidade do robô, que é uma singela homenagem a humanidade. E é isso que o filme de fato acaba por nos mostrar ser, uma homenagem ao homem e sua sensibilidade, e não é à toa que Wall-E guarda em sua casinha improvisada diversas lembranças bonitas e singelas do que foram as pessoas que naquele lugar já residiram. O mesmo indivíduo capaz de destruir o mundo em que vive e de discriminar o próximo por pura ignorância, é também aquele que ama, dá as mãos ao outro. O personagem consegue sempre ver o melhor do homem em todo o longa e, curiosamente, ele sempre me pareceu a versão mais pura e inocente deste, ou seja, aquela sem rancor e traumas, que não tem medo de sentir, se emocionar, se apaixonar ou parecer bobo.

A verdade é que, ao assistir Wall-E, pude observar o melhor do que podemos ser, e vendo aquele personagem inserido em um contexto de total destruíção de nosso maior bem, fica clara a mensagem de que somente essa versão de nós é capaz de dar o devido valor. Não demora muito para entendermos o porquê da total poluíção do planeta, quando na metade do filme, Wall-E encontra os humanos e, junto com ele, descobrimos que o homem do futuro não passa de um ser amorfo, ignorante, acrítico, que perdeu até sua capacidade de locomoção por total entrega às facilidades tecnológicas e que, ao primeiro e surpreso contato, todos parecem exibir atenção e simpatia, mas por pura carência e solidão. O filme vai mais além em seus argumentos, tratando do consumismo e da vida cada vez mais envolta de um tecnicismo e por frias diretrizes de um mundo com olhares voltados para valores superficiais.

Não foi possível não me emocionar. Para alguns, o filme funciona como uma verdadeira redescoberta do que somos; já para outros, como uma feliz relembrança, enquanto que uma outra parte apenas ignorará, assim como os humanos de Wall-E, que vivem deitados pela atrofia de seus corpos em cadeiras flutuantes e com uma espécie de TV (é uma mídia) frente aos olhos, incapazes de olhar para o lado e de sentir algo genuinamente humano e real. Como a paixão de Wall-E por Eva.


A Comoção de Courtney

Já que falei de Wall-E, não vou deixar de comentar a respeito de um curioso caso sobre o filme. Courtney, uma jovem norte-americana, enviou um vídeo para a Pixar que era um registro do que ocorria sempre que assistia ao tease-trailer da animação lançado a meses na internet. Coutney se emocionava, inevitavelmente, sempre que via o olhar e escutava a voz do protagonista. Depois disso, a jovem passou a receber e-mails constantes de alguns funcionários da Pixar que ficaram comovidos com o seu vídeo. A equipe acabou convidando Courtney a comparecer na festa de comemoração do lançamento do filme, e lá foi homenagiada pelo próprio diretor.

Segundo o namorado de Coutney, que se encontrava também no evento:

"Então [Andrew Stanton] disse: 'Há seis meses, quando o primeiro trailer de Wall.E foi lançado, estávamos apenas na metade do processo de realizar o filme e não sabíamos ao certo como iríamos concluir o projeto. Estávamos exaustos. E aí, um dia, um vídeo apareceu no YouTube mostrando uma garota assistindo ao trailer. E toda vez que o via, ela chorava. Quando vimos aquilo, soubemos que estávamos indo na direção correta'.

Todos no cinema riram deste caso, demonstrando que sabiam do que ele estava falando.

'Bem', Andrew Stanton disse. 'Nós convidamos Courtney para estar aqui esta noite.'


Um burburinho tomou conta do cinema. Quando virei e olhei para minha namorada, ela estava boquiaberta pela surpresa. Andrew Stanton pediu que ela se levantasse e mil pares de olhos se viraram para fitá-la e, então, um ensurdecedor aplauso começou. Courtney ficou parada e, sem saber o que fazer, soprou beijos para os artistas e técnicos que fizeram o filme. Foi uma das coisas mais emocionantes e surpreendentes que ela já viveu e que já testemunhei. E a Pixar fez isso apenas porque o vídeo dela havia tocado seus artistas, deixando-os otimistas com relação ao filme que estavam fazendo. E eles quiseram retribuir o favor.

(...)

A Pixar nunca tentou usar essa história para promover o filme. Eles realmente fizeram isso exclusivamente porque ficaram tocados pela reação de Courtney ao trailer, porque acharam que isto seria algo bacana de se fazer e porque acreditaram que isto agradaria também aos seus funcionários - os quais, pelo que vi, eles tratam com enorme respeito".


(trecho extraído do post "Pixar, Humanidade, Emoções" do blog Diário de Bordo, de autoria de Pablo Villaça)

O relato completo e o vídeo de Courtney podem ser vistos aqui.

E... Bom! O trailer de Wall-E, pra quem estiver curioso.

sábado, junho 28, 2008

A Via Láctea

A cidade de São Paulo, como qualquer outra, é um organismo vivo, complexo, que caminha, se desenvolve e integra um conjunto de outros organismos na formação de um outro maior e mais complexo. Essa premissa é trabalhada em A Via Láctea, porém, com a palavra "organismo" sendo substituída por "universo" - ou galáxia, como a metáfora com a via láctea sugere - , pois esta última, pela sua definição, abrange infitamente um elemento e o torna, além de complexo, caótico. No filme, a Grande São Paulo é um dos personagens, e como tal, interage com todos os outros. É justamente através da interação entre cosmos (micros ou macros) que o filme desenvolve um argumento quase filosófico a cerca das diferentes perspectivas que podemos ter a cerca de cada um desses universos, seja a cidade, personagens ou a relação entre estes.

Toda essa idéia é construída no desenrolar da estória de um casal. Heitor (Marco Ricca) é um escritor e professor de literatura, que namora com Júlia (Alice Braga), uma estudante de medicina veterinária e ex-atriz. Em certa manhã, após uma discussão boba entre o casal em que Júlia decide que eles devem "dar um tempo", Heitor toma a decisão de voltar e concertar a relação, mas para isso, tem que atravessar São Paulo, lidando com os mais comuns problemas oferecidos pela cidade, como o trânsito engarrafado e pedintes.

Interagindo com o universo da cidade ao mesmo tempo que se encontra completamente imerso em seu próprio, Heitor é utilizado pelo roteiro como o principal ponto de partida e o referencial para a reflexão do público. Através do personagem, entendemos a relatividade da importância de seus problemas; então, se para Heitor a preocupação em retomar com a namorada é maior que tudo, quando o olhamos sob uma perspectiva mais abrangente - como quando o comparamos ao caos de um cidade como São Paulo ou à própria magnitude da Via Láctea - percebemos a insignificância do problema do personagem. Da mesma forma, as preocupações de Heitor se tornam infinitamente grandes quando as percebemos sob a perspectiva do verdadeiro "universo" que é a relação entre Heitor e Júlia.

Dedicada em desenvolve as personagens nos primeiros momentos do filme, a direção de Lina Chamie foi eficiente ao perceber que Heitor deveria ser um personagem central ao qual público deveria se identificar, servindo como uma referência, já que posteriormente este seria submetido a um processo comparatório, no qual suas experiências seriam percebidas por nós de acordo com a perspectiva proposta pelo filme. Um vez que o público assume a postura de Heitor, o roteiro e a direção partem para a construção dessas diferentes perspectivas. Ora olhamos a pertubação e ansiedade de Heitor para reencontrar Júlia como um grande problema, ora o vemos como apenas um "nada" em meio ao caos de São Paulo.

Mais interessante ainda é a forma que o roteiro encontrou de mostrar como o universo que é a cidade de São Paulo pode ser resignificado se o obsevarmos pelo ponto de vista de Heitor. Em certos momentos, é quase interpretável que a cidade se comunica com o personagem, mas na verdade, estamos tão imersos na visão de Heitor, nesses instantes pontuais, que, assim como este, intepretamos tudo que acontece no cosmo maior que é São Paulo como se fossem fatos estritamente ligados a relação de Heitor e Júlia. Então, quando o professor olha uma mensagem romântica em um outdoor eletrônico, este é levado automáticamente a lembrar de Júlia. E o filme é competente em aparentar que a cidade "age" intensionalmente, assim como às vezes achamos que os fatos do nosso dia-a-dia querem nos dizer algo. Nos levando a observar por alguns segundos a Via Láctea, o filme nos faz quase esquecer da existência tão complexa que é a relação do casal, já que a imensidão da galáxia indiretamente sugere isso, num momento em que o roteiro praticamente completa a sua idéia. Paradoxalmente, somos levados a perceber a vida também por um olhar bem singelo em outro momento, quando a câmera assume subjetivamente a visão do gato de estimação de Júlia.

O princípio de tudo, o romance de Heitor e Júlia, é também muito bem desenvolvido nos primeiros minutos de A Via Láctea. Escolhendo uma edição recortada e complexa, presenciamos primeiro a discussão do casal, para depois vermos como se conheceram e os dias em que estes estiveram felizes. Os melhores momentos do filme, no entanto, ficam mesmo com as descrições em off que os personagens fazem um do outro utilizando o linguajar típico de suas profissões (parte fundamental na composição do universo de cada um), dessa forma, enquanto Júlia descreve Heitor com um olhar veterinário e científico, Heitor faz o mesmo com Júlia, mas com um olhar poético, tornando esses momentos incrivelmente cômicos. A atuação da dupla, aliás, é impecável. Particulamente, acredito que Marco Ricca seja um dos atores brasileiros mais carismáticos na ativa no cinema nacional, enquanto que Alice Braga, além de bela, é muito convincente e profissional, sempre mostrando saber lidar com personagens secundários, entendendo a importância destes e, consequentemente, obtendo êxito ao criá-los. Além da sensação constante de que Heitor pode perder Júlia, Braga consegue em poucos instantes e sem nenhuma palavra nos mostrar o quanto o relacionamento significa para a personagem.

Com algumas cenas filmadas no importante Teatro Oficina, tentei olhar ao máximo para o cenário, afim de contemplar a visita surpresa, que quase esqueci a cena que se passava. Com a participação deste, que é um dos maiores símbolos do teatro nacional, o filme ganhou valores altíssimos em meu .Ponto-de-Vista. . E é esse aspecto de dialogar com as outras artes que torna A Via Láctea um filme mais admirável. A importância dedicada a trilha sonora do filme, que explora uma variedade imensa de gêneros musicais, influenciando pontualmente nas emoções dos personagens, é tão grande quanto a relevância dada a fotografia. Esta última, então, é parte fundamental na apresentação da cidade, com belíssimos quadros e imagens de São Paulo, e uma aparência quase sempre nublada, alternando com as cores mais quentes dos flashs mais românticos sobre o casal.

Encerrando o filme ainda dentro da temática proposta por este, os créditos nos são mostrados de maneira criativa, no qual cada um dos nomes da equipe surgem de dentro do nome anterior, seguindo a raciocínio lógico desenvolvido pela estória. E nada mais legal e generoso da parte da diretora Lina Chamie do que não intitular-se como a dona do filme, na típica frase "Um filme de...", mas responsabilizando, nos créditos, a equipe como um todo pela criação desse belíssimo longa.

domingo, junho 22, 2008

Sex and the City

Desde que passei a ter acesso a TV a cabo, à intenet ou a conversar com pessoas que acompanham um pouco da TV norte-americana, ouvi constantemente a respeito da fomosa série Sex and the City, e muito bem. Como alguém que desfruta um pouco dessa teledramaturgia, sempre tive um mínimo de curiosidade, mas não a suficiente para baixar a série pela internet, já que não possuia o canal ao qual era exibida. Com o lançamento do filme, foi mais que normal o retorno da velha curiosidade pela estória, agora mais forte por querer entender os motivos que levaram-na a ser adaptada para o cinema. Bom! Finalmente assisti, e vejo apenas um motivo para essa adaptação: bilheterias. Popular como foi enquanto série, e contendo uma estrutura e estória semelhante às bem-sucedidas comédias-românticas, Sex and the City sempre teve o potencial para torna-se um sucesso na telona. No entanto, a parte triste dessa história é que se o filme fosse uma espécie de episódio piloto da série, eu a esqueceria pouco tempo depois e viria a assistí-la apenas por acaso, em um desses tours pela TV a cabo. E tenho a plena certeza que as mulheres que estiverem lendo este texto estão argumentando que eu não entendo nada do universo feminino, e eu rebato: às vezes realmente não entendo as mulheres, mas se critico o filme, faço-o justamente para defender o universo feminino, pois sou convicto de que este seja mais rico que o mundo de Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha, ao qual pude visitar durante excecivas duas horas e meia.

Baseada no livro de Candace Bushnell e de mesmo nome, a série foi produzida entre 1998 e 2004 pela HBO e exibida no próprio canal (no Brasil, a série foi exibida pelos canais Multishow e Fox Life). A estória se passava em Nova Iorque e contava o dia-a-dia de quatro amigas através do olhar da simpática Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), focando nas relações íntimas e nos problemas tipicamente femininos das quatro quase-coroas (uma já é!), com cada episódio tematicamente organizado segundo as matérias escritas por Carrie na sua coluna do jornal The New York Star. O filme, que mostra o pós-seriado, tem início com um reencontro das quatro amigas. A partir daí, acompanhamos novas aventuras amorosas, nas quais Carrie Bradshaw decide se casar, Charlotte York (Kristin Daves) tenta ter seu primeiro filho, Miranda Hobbes (Cythia Nixon) enfrenta problemas com o casamento que 'esfriou', enquanto que Samantha Jones (Kim Cattrall) parece cada dia mais desestimulada com o casamento e seduzida pelo vizinho.

É difícil encontrar o culpado pelos equívocos ideológico de um filme baseado em uma série de TV que é baseada em um livro, sem ter assistido ao segundo e lido o último; não seria justo, pois não sei que tipo de modificações foram feitas na adaptação de um livro para uma série. Mas como o produtor/direto/escritor da série assume as mesmas funções no filme e possuíndo este a capacidade de melhorar a obra, posso atribuir-lhe culpa parcial pelos erros e acertos de seu primeiro longa-metragem. Trantando o universo feminino como se este fosse resumido apenas a grifes, amor (diga-se "caça ao príncipe encantado") e mimos, Michael Patrick King desenvolve o filme aos moldes de uma comédia-romântica. Sex and the City, enquanto tal gênero, até diferencia-se por fugir dos clichês e estar mais centrado nas aventuras sexuais e românticas dessas mulheres, deixando o par romântico condutor da estória de lado e evitando o clímax típico que envolve o moço correndo atrás da moça, antes que esta fuja de vez da sua vida (ou de Estado, como elas costumam fazer).

No entanto, o filme passa maior parte de seu tempo preocupado em nos mostrar o cotidiano consumista das personagens, que estão sempre preocupadas com suas roupas, jóias e homens. Como se estes fossem as maiores motivações de suas vidas, nem sequer somos bem apresentados às profissões de cada uma, tornando-as, a princípio, em figuras bobas e superficiais. A personagem de Parker, em especial, parece estar sempre preocupada em ter um belo e grande guarda-roupas para colocar suas infinitas vestimentas. Dessa forma, com quase meia hora de projeção, nenhum conflito é estabelecido, a não ser a disputa das personagens por uma jóia em um leilão ou a procura de Carrier e seu noivo por um grande apartamento em Nova Iorque. E não bastasse o "cotidianísmo" fútil da trama, somos obrigados a encarar toda aquele estilo de vida como se fosse o ideal de vida femino, como se todas as mulheres que se prezem tivessem que ser caçadoras do homem perfeito e loucas por roupas de grifes.

Até este ponto, está tudo bem, existem muitos filmes que pregam ideologias e modos de vida um tanto acefálicos. Mas o que há de mais ofensiva e nociva é a pretensa imagem do filme como se este fosse um produto que tratasse transparente e prioritariamente da vida feminina: seus problemas e conflitos; enquanto, na verdade, o faz em apenas alguns momentos pontuais do longa. Essa pseudo imagem atrelada aos valores deturpados que o filme prega, como consumismo exacerbado, um romantismo cego e a idéia errônea de sucesso, são capazes de confundir o telespectador menos desinformado. Admiro-me que, mesmo no atual contexto, em que as mulheres buscam sua liberdade e respeito, uma série com esse conteúdo (caso seja igual ao filme), que limita tanto as mulheres a escravas da necessidade de um homem e a pessoas inúteis que em nada se interessam pela realidade - a não ser, por modas e grifes - tenha feito tamanho sucesso.

A verdade é que, por trás da suposta mulher moderna de Sex and the City (refiro-me apenas ao filme), que fala livremente sobre sexo e aparenta ser mais independente do que nunca, há mulheres mimadas e imaturas, que não conseguem visualizar seu sucesso senão estando ao lado de um bom-partido (e que tenha um bom dote - interprete como quiser), que vivem frustradas e são incapazes de encarar situações difíceis com o mínimo de inteligência, sempre dramatizando excessivamente. Então, quando por acaso alguma dessas é traída ou abandonada no altar, a única atitude cabível na mente miúda dessas personagens é ignorar completamente o companheiro, como se este não merecesse expor o seu lado ou parecer para elas como uma pessoa que possue fraquezas - Claro! O homem têm que ser perfeito na lógica dessas quarentonas. Mais absurdo ainda é a definição entre homens bons e homens maus que rodeia a cabeça das personagens, reduzindo estes a uma simples dicotomia, assim como a vida destas a algo semelhante a um conto de fadas, quando acreditam que o homem bom e perfeito vai aparecer um dia.

Há no filme, porém, qualidades inquestionáveis, como o humor constante e bem elaborado, extraído de situações simples e geralmente beneficiadas pelas boas atuações. Há cenas hilárias, como a de Carrier que, ao descobrir algo desagradável em uma festa de dia dos namorados, tem sua saída dramática dificultada pelos enfeites da festa; ou então, o momento em que a mesma personagem, necessitando urgentemente de um celular e recebendo um I-Fone no lugar, descobre não saber usar o aparelho. Novamente "porém", as tiradas cômicas em certos momentos ultrapassam o limite do bom senso e caem em piadas bobas como as personagens; então, situações como a de Charlotte York (Daves), passando por séria crise intestinal, soam fortemente forçadas.

Com poucos momentos dedicados a Charlotte York durante o filme, Kristin Daves pouco pode fazer, e sua personagem, que a princípio parecia-nos expontânea e simpática, aos poucos soa irritante e artificial, protagonizando alguns dos momentos mais constrangedores do filme - em algumas cenas, a atuação de Daves pouco condiz com o clima da situação proposta. Já Sarah Jessica Parker, parece a vontade com sua personagem, sabendo lidar muito bem com as cenas cômicas; enquanto isso, Kim Cattrall toma, com sua personagem Samantha Jones, o posto abandonado por Kristian Daves; e Cythia Nixon faz de Miranda Hobbes a personagem mais complexa do grupo, pois, aparentando, a princípio, ser a mais séria e racional, aos poucos presenciamos as atitudes mais imaturas e impulsivas da personagem, o que não deixa de ser uma curiosa contradição. Quanto ao elenco secundário, o ator David Eigenberg faz um ótimo trabalho com seu carismático Steve Brady, enquanto Evan Handler, interpretando Harry, é insistentemente ignorado pela câmera, como se esta estivesse evitando revelar a limitada beleza do ator, chegando a constranger com alguns cortes de fuga.

Mesmo que adiando excessivamente o reencontro entre o casal principal da trama e prolongando a estória, o filme possui um desfecho até interessante para alguns personagens, assumindo pelo menos por esses instantes aquilo a que se propõe sempre e quase nunca cumpre, ou seja, trabalhar o universo feminino. Lembro que pude ouvir um coro feminino suspirando um "ownnnnnnnnnn!" tipicamente americano, quando um personagem presenteia inesperadamente sua amada Carrie com a cobertura de um apartamento em Manhattan, logo no início do filme, revelando o envolvimento e a identificação do público com as personagens. Tenho certeza que a maioria das mulheres achará tudo isso muito lindo e aplaudirá o filme achando que este é sincero ao universo da mulher, não percebendo que, por trás da suposta mulher moderna de Sex and the City, há um estilo de vida, que se seguido por qualquer uma, nada mais serão do que mulheres com quadros de histeria, constantes frustrações, carência excessiva e comportamentos imaturos (tudo em grande estilo e elegância); e claro, não posso negar, um belo e cheio closet.