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quarta-feira, setembro 29, 2010

Imagens do Exílio

Ao mesmo tempo em que o Brasil sofria com os traumas políticos do passado, o brasileiro sentia a decepção de sua primeira empreitada democrática ruir com o presidente Collor, e como consequência, sua auto-estima era cada vez mais afetada. O cinema nacional, intrinsecamente a esse contexto, se encontrava em uma profunda crise. Com a Embrafilmes fechada pelo então presidente, a quantidade de filmes produzidos por ano caiu a quase zero e projetos foram cancelados. O cinema nacional estava, assim como o país, completamente desacreditado em si próprio.

Refletindo a história que se escrevia, o cinema brasileiro veio a ter suas primeiras reações justamente com o impeachment de Collor e as primeiras políticas de Itamar Franco, continuadas no governo de FHC. Tem-se aí o início da Retomada. Quando os recursos da extinta Embrafilmes foram distribuídos, os projetos paralisados puderam ser retomados e os novos diretores, que só esperavam por fomento, tiveram espaço e oportunidade. Uma das primeiras produções - ou a primeira - a se destacar internacionalmente foi o filme Terra Estrangeira, de Walter Salles.

O filme tem início com o anúncio do confisco das poupanças dos brasileiros pelo governo de Collor, e segue mostrando personagens que, pela política vigente no país, se encontram completamente sem rumo. Paco (Fernando Alves Pinto) vai para Portugal após sua mãe ter morrido no momento em que soube dos confiscos das finanças dela. Lá, o personagem conhece e se envolve com Alex (Fernanda Torres), namorada de um traficante. Os dois brasileiros, sem perspectivas, flertam com o crime e não sabem qual rumo tomar. O filme deixa clara a sensação de desamparo dos personagens e trabalha, antes de tudo, as feridas do brasileiro daquela época, o luto e a descrença na própria nação, forçando o contato do telespectador com a realidade.

Todo em preto-e-branco, Terra Estrangeira nos apresenta ao Brasil da primeira metade dos anos 90 de forma melancólica, querendo falar do presente triste que abatia o país. Marcando por abordar personagens que não conseguem ver o futuro na própria nação, o filme de Salles mostra o retorno destes - que agora tinham a imagem da terra estrangeira como uma solução - à pátria mãe Portugal. Impedidos de voltar pelas reviravoltas da trama, a imagem mais marcante do filme é aquela em os dois protagonistas estão abraçados em uma praia com um navio encalhado à beira mar, impedido de retornar ao lugar de onde saíram. Essa foi a situação de muitos brasileiros como Paco e Alex, que não tinham mais perspectivas e esperanças no futuro do Brasil. Nas palavras do próprio Walter Salles, o que abatia o país naquela época era "não mais o exílio político dos anos da ditadura, mas um novo, econômico, que vem transformando o Brasil dos anos 90 num país de emigração, pela primeira vez em quinhentos anos".

Sou apaixonado por Terra Estrangeira. É um documento magnífico daquele período do Brasil, um filme que retrata com precisão a tristeza e falta de perspectiva do brasileiro já traumatizado da era Collor. A cena mais emblemática desse filme para mim é a final, ganhando até mesmo daquela do navio a beira mar. Embalada pela canção "Vapor Barato", de Gal Costa, a cena mostra o destino de Paco e Alex, que ainda tentam voltar para a nação deles, porém, mais cheios ainda de desesperança, perdidos e sem rumo. O momento final é perplexo quanto a realidade brasileira. Apesar de se passar em Portugual, o filme, ao meu ver, abre alí a Retomada do cinema nacional. Belíssima pela composição, a cena é pontuada por uma canção que faz jus a mensagem do filme e, incrivelmente, tem tudo a ver com a situação das personagens. Fiquei até a me questionar se aquilo que Gal canta, se a "minha grande, minha pequena, minha grande obsessão" fosse na realidade o Brasil. Fica aqui a questão.

Depois de uma grande indecisão, coloquei um vídeo da cena final de Terra Estrangeira. É um spoiler gravíssimo para quem nunca assistiu ao filme, mas vale a pena ser revisto por aqueles que já o assistiram.



segunda-feira, abril 05, 2010

A Casa de Alice

Após o término da projeção de A Casa de Alice, a primeira coisa que pensei foi: "Como um filme que começa tão bem e equilibrado pode se perder no meio do caminho, mas ainda assim ter um desfeixo satisfatório?". Não foi preciso eu o rever muito em minha mente para descobrir o que me incomodou. A Casa de Alice é mais um filme que segue a vertente de alto realismo do cinema brasileiro atual, que procura antes de tudo nos convencer daquelas vidas e criar na tela uma realidade quase tão palpável como a nossa (dos brasileiros), dessa vez, de uma família brasileira de classe média, apostando na crueza da imagem, nos sons ambientes e em atuações tão naturais quanto o diálogo mais banal que uma familia possa ter.

Tudo começa com planos nos vários cômodos da casa de Alice. Vemos os quartos, sala, cozinha, banheiro, varanda, e o despertar das personagens que, nas próximas horas, teriam que conviver por mais um dia uns com os outros. Em seguida, somos apresentados a vida e intimidade de Alice (Carla Ribas), uma manicure que mora na periferia da cidade de São Paulo com a sua família. Aos poucos presenciamos os vários conflitos familiares, do casamento desgastado entre Alice e seu marido, passando pela difícil convivência entre os seus filhos, aos problemas de saúde da mãe desta.

Tratando com grande naturalidade a vida dessas pessoas, a direção é eficiente em manter os acontecimentos, por mais dramáticos que sejam, distante do melodrama, sem em momento nenhum tentar comover o público, deixando que a situação destes personagens o faça por si só. A ausência de trilha sonora é um dos elementos que compõem o caráter tão real e quase documental do filme, permitindo que apenas os sons da cidade de São Paulo que invadem o pequeno e simples apartamento de Alice preencham o ambiente desta família. São os sons da vida que, pela sua presença, causam as emoções na medida incerta, confusa e incapaz de conduzir, como a trilha, as sensações do público, sendo um dos elementos fundamentais que conduzem o espectador a ter, assim como a protagonista, uma idéia pouco clara e condensada da vida de Alice.

Outro elemento que contribui para essa construção é a câmera sempre ousada que pega os planos mais incomuns, ou tão comuns, indiscretos e nada convencionais da família, sem grandes truques, com apenas o suficiente para que entendamos as situações que ocorrem na casa, assim como em um documentário, ou mesmo em um documento de famila. Tendendo a nos mostrar um drama familiar focado mais no coletivo, como se a família fosse um grande personagem em conflito interno, as situações são abordadas com pretensa neutralidade, enquanto a câmera sempre exita em buscar uma aproximação das personagens ou o ponto de vista particular destes, com a excessão de Alice, que de todos, parece ter seu contra-plano mais próximo da lente.

Como uma estória voltado para tal objeto, somos levados a acompanhar em difícil rítmo cotidiano a vida dessas pessoas. Filmes desse gênero são, assim como a vida, de mais difícil condensação, presenciamos fatos repetidos, com poucas modificações e uma trama que difícil evolue por justamente estar centrada na inércia que é a vida destes personagens. Apenas pequenas e singelas tramas se desenvolvem, deixando claro que houve um antes e um depois, sem dar um caráter especial aos eventos, mas sim, enfocando aquele presente representativo daquelas pessoas.

A Casa de Alice falha, no entanto, ao tentar fazer do filme um experimento narrativo ousado em um roteiro já complexo, delicado e pontuado por fatos tão discretos e comuns. O diretor Chico Teixeira, juntamente com a edição de Vânia Debs, confundem o telespectador e pouco acrescentam ao filme com as suas reviralvoltas na estrutura narrativa. Em determinado momento do filme, avançamos perceptivelmente algum tempo da trama, com uma elipse que esconde alguns fatos que veremos somente mais para frente, quando essas cenas "puladas" são inseridas, constituíndo assim uma edição recortada. Se essa estrutura já se apresentava confusa em um filme que mostra o cotidiano das personagens, sem pontos de referência na trama, sem fatos que marquem e nos ajudem a ligar os pontos no final, mais difícil ainda se torna a organização dos eventos na cabeça do espectador quando situações ocorridas num tempo antes dos eventos aos quais o filme presencia são mostrados. Cenas que mais se tratam de um flashback e não mais de um recorte de edição.

Toda essa estrutura impossibilita o público de organizar alguma ordem para as cenas e para os fatos no pós-sessão, chegando a frustrar pela incapacidade de se compreender completamente a evolução das situações. No entanto, suponho que a intensão dessa edição seja a de tornar toda aquela estória em algo menos sintetizante e confortavelmente interpretativo para o público, assim como a personagem a respeito de sua própria vida, ao mesmo tempo que conduz cada vez mais a atenção do público para o significado em si das cenas. Porém, não é justo o sacríficio da compreensão da estória quando a última cena, por si só, causaria o impacto necessário capaz de confundir e inquietar o espectador a respeito da vida daqueles personagens. Um excesso de retórica. Confusões a parte, sejam elas úteis ou não, A Casa de Alice é um documento realista e angustiante daquela prostagonista e sua família.

quinta-feira, novembro 05, 2009

O velho Caetano (e bom)

Entrei com muita expectativa na sala de cinema. A gente sempre espera ver algo surpreendente quando se trata de Caetano Veloso. A sinopse do filme Coração Vagabundo não dizia muita coisa, apenas ressaltava a presença de Paula Lavigne, Pedro Almodóvar, Michelangelo Antonioni, Gisele Bündehen, David Byrne e que o diretor Fernando Andrade "deixou o musico livre para dissertar sobre a saída de sua cidade natal, o sucesso no Exterior, a relação com Almodóvar e a separação de Paula Lavigne".

Algumas matérias de sites e jornais forma além: a atenção sobre a nudez de Caetano na cena inicial indicando a intimidade a qual o filme se propõe, a tentativa do diretor em apresentar o artista como um cara simpático e bem humorado às novas gerações, o medo de Caetano em envelhecer à preocupação em ser maquiado, as opiniões sobre quase tudo e a contestação da afirmação de Hermeto que o considerou um "musiquinho" afirmando ser a música americana a melhor do mundo.

Tudo isso está mesmo no filme, mas sem uma narrativa que nos atraia. Quem não gosta de Caetano poderá odiar o filme e mais ainda o artista. Então, melhor do que ver o filme é ouvi-lo. E como é bom ouvir Caetano no cinema! Sua voz fraca e violão primitivo crescem embalados com os arranjos modernos apresentados no álbum "A Foreing Sound" e a guitarra jovial de Pedro Sá.

O simpático Caetano que pretendeu ser apresentado a mim soou o mesmo Caetano com sua falsa-modéstia de sempre, do tipo que diz "eu não sou tão bom assim" quando quer afirmar o contrário, quando diz que não fala tão bem inglês mesmo tendo feito composições na língua britânica e ter gravado um álbum cantando em português/inglês como foi "Transa".

A transgressão de Caetano no filme ou "intimidade" não está na cena em que ele aparece nu. Aliás, não se vê quase nada. O que choca mesmo é o discurso sobre a velhice a partir de um homem velho que não se considera pejorativamente velho e que nunca se imaginou envelhecer como está hoje. Caetano nos ensino que o tempo dele é outro: o tempo de quem aprendeu a desacelerar e aprendeu que sempre há tempo sobretudo quando tem-se a idéia de que ele vai acabar num instante. Há mais vida, vontade e entusiasmo no Caetano de hoje, aos sessenta e tantos anos, do que naquele dos anos sessenta que gritava com impaciência e pressa: "É proibido proibir".

Em tempo: Paula Lavigne aparece estereotipada como chata no filme, Gisele Bündehen é absurdamente desnecessária na estória, Antonioni não diz muita coisa, Almodóvar podia ter dado um beijo na boca de Caetano que chocaria mais que o nu, e Pedro Sá não abre a boca. Mas o filme é bom? Não e eu gostei. Porque me fez refletir sobre o medo de envelhecer, porque é linda a cena do passarinho que pousa no ombro do companheiro de Caetano no Japão, porque Caetano continua sendo para mim uma referência estética artística e deu mais vontade de curtir o show dele aqui em São Luís, no dia 14.

"Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval. Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal. Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual. Já tem coragem de saber que é imortal" (O Homem Velho. Caetano Veloso)

Texto escrito por meu amigo desblogado Alberto Junior.


Ótimo texto, Alberto; e interessante análise. Atrevi-me a por umas ilustrações, mania minha! Obrigado pela contribuição ao blog.

sexta-feira, julho 18, 2008

O Gozo Espetacular da Violência

Tenho estudado e pesquisado mais intensivamente meu tema de monografia, que trata diretamente sobre cinema e violência, o que tem sido revelador em alguns aspectos, incitando-me a refletir sobre certos assuntos. Ao ler o artigo Estéticas da Violência no Cinema, de autoria da Doutora em Comunicação, Ivana Bentes, senti um forte incômodo diante do seguinte trecho:

"Para além do discurso midiático do medo difuso e demanda de repressão encontramos ainda outras diferentes formas de consumir a pobreza, ligadas ao circuito do turismo e das trocas culturais. A menos perversa, e mais antiga, faz pensar na pobreza e miséria como uma espécie de 'museu da humanidade', em que as favelas 'tombadas' (uma tendência inclusive urbanística, com o descarte, cada vez mais claro de qualquer idéia de 'remoção') são pontos turísticos com seu primitivismo-exótico, multiculturalismo e modos de vida em 'extinção'. A cena é comum em Copacabana. Um imenso jipe verde-oliva, apinhado de turista vestidos como se partissem para um safári africano, cruza a Avenida Atlântica saindo do Copacabana Palace. O Jeep Tour leva gente de todas as nacionalidades para ver de 'perto', ou do alto do jipe esse 'habitat natural' de uma pobreza ironicamente incorporada à imagem turística e folclórica do Rio de Janeiro.

[...]

A favela é o cartão-postal às avessas, uma espécie de museu da miséria, etapa histórica, não-superada, do capitalismo e os pobres, que deveriam, dada toda produção de riquezas do mundo, estar entrando em extinção, são parte dessa estranha 'reserva', 'preservada' e que a qualquer momento sai do controle do Estado e explode, 'ameaçando' a cidade."

É claro que chegamos ao ponto em que a violência e a miséria brasileira estão sendo encaradas como espetáculos. Não sei bem se o cinema tem a culpa nesse embelezamento da pobreza ou se somos nós que estamos um tanto incapazes de perceber a realidade, pois, mesmo que esses filmes possuam uma estética que traduz em belo uma difícil realidade, os mesmos são marcados por um realismo visceral que deveria nos chocar. Acredito que o problema esteja mesmo na forma como nos posicionamos quando estamos frente a telona; às vezes, parece que somos turistas visitando o nosso próprio país, tal qual, aqueles do jipe verde-oliva, citado por Ivana Bentes.

terça-feira, julho 08, 2008

Festival de Cinema

Festival de cinema, pra mim, é igual a festa. E neste último Guarnicê não foi diferente. Mas como estive mais ocupado, não fui todos os dias e não assisti metade dos filmes que concorreram aos prêmios do festival. Mesmo assim, consegui assisti a alguns bons longas-metragens como Os Desafinados e AVia Láctea.

Em relação aos curtas, pude observar algo interessante. Prefiro um bom filme a uma animação, no entanto, nos festivais sempre sou completamente fisgado por alguma animação. Ano passado terminei o evento encantado com o curta cearence Vida Maria, já neste ano, foi o paulistano Pajerama que me fascinou. O anime narra a estória de um índio que passa por uma torrente de situações inexplicáveis; metais, concretos e sinais da vida moderna surgem misteriosamente na virgem selva brasileira.

Panjerama trata de fatos misteriosos e apavorantes aos olhos do jovem índio. A produção, com o intuito de ressaltar o impacto e estranhamento das situações, utiliza uma trilha típica de suspenses baseada quase que completamente em ruídos, sem abdicar da temática indígena. O resultado é excelente. A forte trilha completa tão bem a idéia do roteiro, que os sinais de nossa modernidade e civilização no meio do universo particular dos índios de um Brasil do século XV lembram facilmente as típicas cenas cinematográficas no qual um homem mantém, pela primeira vez, contato com um ser ou tecnologia extraterrestre. E o melhor, claro, é o caráter hiperbólico do roteiro, que busca no exageiro simbólico da invasão da civilização européia à civilização indígena brasileira, uma forma de exaltar o impacto causado na cultura indígena e no próprio índio da época, quando estes viram seu espaço invadido e destruído.

sábado, junho 28, 2008

A Via Láctea

A cidade de São Paulo, como qualquer outra, é um organismo vivo, complexo, que caminha, se desenvolve e integra um conjunto de outros organismos na formação de um outro maior e mais complexo. Essa premissa é trabalhada em A Via Láctea, porém, com a palavra "organismo" sendo substituída por "universo" - ou galáxia, como a metáfora com a via láctea sugere - , pois esta última, pela sua definição, abrange infitamente um elemento e o torna, além de complexo, caótico. No filme, a Grande São Paulo é um dos personagens, e como tal, interage com todos os outros. É justamente através da interação entre cosmos (micros ou macros) que o filme desenvolve um argumento quase filosófico a cerca das diferentes perspectivas que podemos ter a cerca de cada um desses universos, seja a cidade, personagens ou a relação entre estes.

Toda essa idéia é construída no desenrolar da estória de um casal. Heitor (Marco Ricca) é um escritor e professor de literatura, que namora com Júlia (Alice Braga), uma estudante de medicina veterinária e ex-atriz. Em certa manhã, após uma discussão boba entre o casal em que Júlia decide que eles devem "dar um tempo", Heitor toma a decisão de voltar e concertar a relação, mas para isso, tem que atravessar São Paulo, lidando com os mais comuns problemas oferecidos pela cidade, como o trânsito engarrafado e pedintes.

Interagindo com o universo da cidade ao mesmo tempo que se encontra completamente imerso em seu próprio, Heitor é utilizado pelo roteiro como o principal ponto de partida e o referencial para a reflexão do público. Através do personagem, entendemos a relatividade da importância de seus problemas; então, se para Heitor a preocupação em retomar com a namorada é maior que tudo, quando o olhamos sob uma perspectiva mais abrangente - como quando o comparamos ao caos de um cidade como São Paulo ou à própria magnitude da Via Láctea - percebemos a insignificância do problema do personagem. Da mesma forma, as preocupações de Heitor se tornam infinitamente grandes quando as percebemos sob a perspectiva do verdadeiro "universo" que é a relação entre Heitor e Júlia.

Dedicada em desenvolve as personagens nos primeiros momentos do filme, a direção de Lina Chamie foi eficiente ao perceber que Heitor deveria ser um personagem central ao qual público deveria se identificar, servindo como uma referência, já que posteriormente este seria submetido a um processo comparatório, no qual suas experiências seriam percebidas por nós de acordo com a perspectiva proposta pelo filme. Um vez que o público assume a postura de Heitor, o roteiro e a direção partem para a construção dessas diferentes perspectivas. Ora olhamos a pertubação e ansiedade de Heitor para reencontrar Júlia como um grande problema, ora o vemos como apenas um "nada" em meio ao caos de São Paulo.

Mais interessante ainda é a forma que o roteiro encontrou de mostrar como o universo que é a cidade de São Paulo pode ser resignificado se o obsevarmos pelo ponto de vista de Heitor. Em certos momentos, é quase interpretável que a cidade se comunica com o personagem, mas na verdade, estamos tão imersos na visão de Heitor, nesses instantes pontuais, que, assim como este, intepretamos tudo que acontece no cosmo maior que é São Paulo como se fossem fatos estritamente ligados a relação de Heitor e Júlia. Então, quando o professor olha uma mensagem romântica em um outdoor eletrônico, este é levado automáticamente a lembrar de Júlia. E o filme é competente em aparentar que a cidade "age" intensionalmente, assim como às vezes achamos que os fatos do nosso dia-a-dia querem nos dizer algo. Nos levando a observar por alguns segundos a Via Láctea, o filme nos faz quase esquecer da existência tão complexa que é a relação do casal, já que a imensidão da galáxia indiretamente sugere isso, num momento em que o roteiro praticamente completa a sua idéia. Paradoxalmente, somos levados a perceber a vida também por um olhar bem singelo em outro momento, quando a câmera assume subjetivamente a visão do gato de estimação de Júlia.

O princípio de tudo, o romance de Heitor e Júlia, é também muito bem desenvolvido nos primeiros minutos de A Via Láctea. Escolhendo uma edição recortada e complexa, presenciamos primeiro a discussão do casal, para depois vermos como se conheceram e os dias em que estes estiveram felizes. Os melhores momentos do filme, no entanto, ficam mesmo com as descrições em off que os personagens fazem um do outro utilizando o linguajar típico de suas profissões (parte fundamental na composição do universo de cada um), dessa forma, enquanto Júlia descreve Heitor com um olhar veterinário e científico, Heitor faz o mesmo com Júlia, mas com um olhar poético, tornando esses momentos incrivelmente cômicos. A atuação da dupla, aliás, é impecável. Particulamente, acredito que Marco Ricca seja um dos atores brasileiros mais carismáticos na ativa no cinema nacional, enquanto que Alice Braga, além de bela, é muito convincente e profissional, sempre mostrando saber lidar com personagens secundários, entendendo a importância destes e, consequentemente, obtendo êxito ao criá-los. Além da sensação constante de que Heitor pode perder Júlia, Braga consegue em poucos instantes e sem nenhuma palavra nos mostrar o quanto o relacionamento significa para a personagem.

Com algumas cenas filmadas no importante Teatro Oficina, tentei olhar ao máximo para o cenário, afim de contemplar a visita surpresa, que quase esqueci a cena que se passava. Com a participação deste, que é um dos maiores símbolos do teatro nacional, o filme ganhou valores altíssimos em meu .Ponto-de-Vista. . E é esse aspecto de dialogar com as outras artes que torna A Via Láctea um filme mais admirável. A importância dedicada a trilha sonora do filme, que explora uma variedade imensa de gêneros musicais, influenciando pontualmente nas emoções dos personagens, é tão grande quanto a relevância dada a fotografia. Esta última, então, é parte fundamental na apresentação da cidade, com belíssimos quadros e imagens de São Paulo, e uma aparência quase sempre nublada, alternando com as cores mais quentes dos flashs mais românticos sobre o casal.

Encerrando o filme ainda dentro da temática proposta por este, os créditos nos são mostrados de maneira criativa, no qual cada um dos nomes da equipe surgem de dentro do nome anterior, seguindo a raciocínio lógico desenvolvido pela estória. E nada mais legal e generoso da parte da diretora Lina Chamie do que não intitular-se como a dona do filme, na típica frase "Um filme de...", mas responsabilizando, nos créditos, a equipe como um todo pela criação desse belíssimo longa.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Querô

Vez ou outra o cinema brasileiro nos presenteia com filmes que são uma verdadeira análise da dinâmica entre a sociedade e o "cidadão" brasileiros. Escrevo "cidadão" entre aspas pois, nestes casos cinematográficos, os personagens que servem como parte do experimento dessa dinâmica, na maioria das vezes, não possuem os benefícios do direito de cidadão (no sentido mais amplo do termo) e nem cumprem seus deverem enquanto indíviduos integrantes do Estado; e ainda há aqueles que são completamente ignorados por essa sociedade, como se nem mesmo tivessem o direito a cidadania. Tratando com eficácia e realismo a vida de quem nasce em um completo contexto de exclusão social, Querô nos apresenta a mais um exemplo dessa dinâmica entre uma sociedade desequilibrada e personagens esfacelados pela realidade em que vivem. Atores, produtores e diretores fazem um ótimo trabalho de construção dessa realidade ao mesmo tempo em que fazem da sétima arte um motivo de inclusão social. Ao analisar Querô e perceber alguns aspectos do longa, resolvi dedicar o final desse texto para traçar uma importante e inevitável relação, que de certa forma, reflete nossa realidade.

Adaptado do romance Uma Reportagem Maldita de Plínio Marcos, Querô, que tem como título o nome de seu protagonista, tem início mostrando a morte de Piedade (Maria Luisa Mendonça), uma prostituta de um dos prostíbulos da região portuária de Santos. Após cometer suicídio, a personagem deixa seu filho, o Querô (Maxwell Nascimento), em situação de abandono pela região santista, onde cresce na marginalidade e em meio a uma realidade violenta. Um jovem amargurado e revoltado com seu próprio destino, Querô segue sua jornada tentando não entrar nas rédeas do crime, da polícia e da FEBEM.

Desenvolvendo a estória com dinamicidade, a edição é competente em deixar clara as elípses de tempo propostas pelo roteiro, ao mesmo tempo em que desenvolve um time ótimo que equilibra o rítmo do filme, mesmo quando a estória centra-se em eventos relativamente pequenos, mas de igual importância - como a tentativa do personagem em dar estabilidade em sua vida e seu passageiro interesse por uma religião. Da mesma forma, o roteiro é eficiente ao retratar a realidade de Querô, propondo situações comuns a pessoas que vivem essa vida e dando ênfase aos aspectos psicológicos. Portanto, após todas as dificuldades passadas pelo personagem na FEBEM, presenciamos os traumas que ficaram em forma de pesadelos, pânico e fobia; são detalhes que mal pensamos que essas pessoas podem sofrer, como se não possuíssem a mesma sensibilidades humana de quem tem uma vida digna.

Um jovem amargurado e revoltado com seu próprio destino, Querô segue sua jornada buscando integridade e uma vida mais justa, mas tendo como base as regras que mediam a vida de quem sofre o abandono, como a violência e o crime. Dessa forma, quando vemos o protagonista na busca de uma vida estável, nos surpreendemos que este veja em uma arma de fogo a saída para todos os seus problemas e, do mesmo modo, ficamos impressionados com o seu comportamento quando este entra na FEBEM, revelando pela primeira vez ao público que este personagem se trata de um verdadeiro representante deste mundo.

Contando com um elenco dedicado, Querô se beneficia com ótimas atuações, tanto por atores experientes, como por novatos que viveram na própria pele a vida de um abandonado. Capacitados por oficinas preparatórias, o elenco é resultado de um ótimo trabalho de preparação, revelando talentos inegáveis como o de Maxwell Nascimento, que carrega o filme do início ao fim com seu olhar revolto e ao mesmo tempo ingênuo. Vale lembrar também da atuação de Ailton Graça, no personagem Brandão, e de Milhem Cortaz, que mais uma vez faz um bom trabalho com o seu personagem Edgar, que mesmo pouco desenvolvido pelo roteiro nas suas motivações, consegue de cara aparentar não ser uma pessoa muito diferente de todas aquelas crianças da FEBEM. E é importante frisar, que sem a excelente direção de Carlos Cortez, nada disso funcionaria.

No que se refere a fotografia, Querô tem como resultado um excelente trabalho em que a fotografia, ressaltando junto com a Direção de Arte, expõe toda a pobreza e a ambientação triste daquela região. Posso citar, no entanto, apenas uma falha: a rápida paixão do protagonista pela jovem evangélica Lica (Alessandra Santos), que mais pareceu uma fórmula artificial, e um tanto incoerente para o mundo do personagem, de estimulação deste a sair daquela realidade. Ou seja, o filme que até então buscava razões psicologicamente bem fundamentadas para o comportamento dos personagens, nesse momento incluía uma personagem e uma paixão deslocada na estória só pra que nós acreditássemos por um instante que Querô tentaria mudar a sua vida.


Sociedade x Indivíduo

Em Tropa de Elite, o personagem do Capitão Nascimento é um policial que ver-se na obrigação de tomar atitudes violentas e criminais para dar um mínimo de equilíbrio a uma circusntância comum no Brasil. O personagem acha-se correto em suas atitudes e pontos de vista. Suas idéias e caráter foram formulados, desviados ou adaptados para aquela situação e já não existe delimitação entre o certo e o errado para quem é vítima e obrigado a viver em uma sociedade problemática. A polícia, na circunstância proposta pelo filme, é obrigada a tomar atitudes corruptas e violentas, trabalhando a idéia de que não existe de fato um culpado, como se fossem vítimas de um Estado caótico. Chegamos então a conclusão de que a dicotomia polícia versus bandido não funciona no Brasil, e que a situação, como sempre, é mais complexa por aqui. Mas o que essa realidade demonstrada em Tropa de Elite e em outros filmes e documentários brasileiros tem a ver com a de Querô?

Como disse no início do texto, Querô é mais um exemplo de filme brasileiro que retrata a complexa dinâmica entre sociedade desequilibrada e personagens esfacelados pela realidade em que vivem; e, assim como o Capitão Nascimento, um policial corrupto, ou um sequestrador de ônibus com um histórico mizerável, Querô não tem uma opção, mas sim uma obrigação de viver em tais circunstâncias, como se fosse um papel imposto a ele. Dessa forma, mesmo quando o personagem tenta estabilizar sua vida e tornar-se uma pessoa comum, a sua identidade de um menor abandonado, um marginal, o impede de ter qualquer êxito.

Querô é um personagem simbólico e representativo, que também vive dentro da falta de limites entre o certo e errado, comportando-se da melhor forma que lhe cabe para sobreviver, em uma sociedade que o abandona e ignora. Se o personagem rouba e mata, nada mais faz do que tentar encontrar soluções para sua realidade imutável e condenável. Desse ponto de vista, o longa apresenta uma visão racional a respeito dessa realidade, e paradoxialmente sensível, em relação ao personagem. Talvez o mais belo desse filme seja o projeto por trás deste, que se estende à oficinas de inclusão social e capacitação de jovens em situação de abandono.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Tropa de Elite - Parte II

Uma vez que o B.O.P.E. ganha a empatia do público, o Capitão Nascimento também o faz, afinal ele é praticamente a representação do batalhão, pensando e agindo da mesma forma. Extremamente racional e competente, o personagem busca constantemente a perfeição naquilo que faz, e toda a pressão promovida tanto pelo nascimento do filho quanto pela rotina estressante da polícia, leva o capitão a sofrer ataques de Síndrome do Pânico.

Interpretando de maneira intensa e carregando o filme, Wagner Moura conduz seu personagem durante todo a estória de forma equilibrada, sem deixar que as atitudes truculentas do personagem antipatizem o público e que este exiba uma ausência de carisma. De certa forma, Wagner Moura teve a vantagem da narração em off, que possibilita uma amenização das impressões negativas e uma compreensão dos comportamentos do personagem por parte do público. Outro destaque é o ator Caio Junqueira, que mesmo em um papel pequeno consegue dar ares de verossimilhança ao seu personagem, doando-lhe uma imaturidade e impulsividade marcante. É o típico ator brasileiro
que não ganha o destaque merecido. Já o novato André Ramiro, que a princípio nos parece um personagem pequeno e de pouca expressividade, vai ganhando a tela no decorrer do filme, e ao fim, presenciamos a sua trágica e empolgante mudança. De um modo geral, o elenco todo foi muito bem preparado, dos atores menos participativos aos maiores destaques, resultando em excelentes cenas verdadeiras, sejam elas cômicas ou dramáticas.

Abordando essa estória com grande realismo, Tropa de Elite tem um caráter quase documental e exibe cenas que parecem ser extraídas de situações reais. Utilizando uma fotografia não mais inovadora, mas possuindo quadros e seqüências que ressaltam o realismo, o filme adquire uma aparência verossímil e violenta, e até certo ponto, de leve angustia, por conseqüência das cores, do clima constantemente nublado e pelas imagens noturnas das favelas cheias de contrastes das sombras com luzes. A edição não deixa a desejar e cria um clima de urgência nas cenas de ação, contrapondo-se aos momentos mais lentos que procuram desenvolver os personagens e a história. Dessa forma, o filme ganha um ritmo equilibrado, não só por manter o telespectador atento aos eventos e revelações acerca da polícia, mas por tornar as estórias dos personagens em fatos relevantes e atraentes. Portanto, interessamo-nos pelas cenas de Matias na universidade, mesmo elas estando entre outras aparentemente mais importantes. Isso ocorre tanto pelo ótimo desenvolvimento das seqüências e como pelas correlações que nelas existem com as questões abertas pelo filme, como também pela narração em off do protagonista, que cria um clima de desconforto ao afirmar que Matias agia errado ao tentar ser policial e um universitário ao mesmo tempo.

Há dois elementos em Tropa de Elite que incomodarão a maioria: um, é narração em off, que usada quase exaustivamente, tem uma função essencial de contextualizar, mostrar a visão do personagem e expor informações importantes; seria muito difícil e forçado pôr tanto na boca dos personagens. Outro elemento é o final abrupto, porém ideal, já que nos entrega apenas o necessário enquanto todo o resto fica subtendido. E mesmo que algumas pessoas saiam frustradas com o final, tenho quase certeza
que ficarão satisfeitas com todo o resto, pois não é todo dia que se assiste a um filme que representa incrivelmente uma situação íncomoda pra quase toda uma nação, ao mesmo tempo em que nos envolve nos conflitos dos personagens e em cenas empolgantes, sem que uma coisa prejudique a outra. Vemos, portanto, em Tropa de Elite um equilíbrio incrível das melhores coisas que um filme pode ter.

Inteligente, complexo e importante do ponto de vista social, Tropa de Elite é um grande filme, marcado pela coragem de seu diretor em expor a realidade e chocar o público. Dizem que o filme é fascista e que defende a violência policial, no entanto, um pouco mais de raciocínio é o suficiente pra revelar que isso é nada mais do que a representação da realidade, uma realidade tão violenta que necessitamos de um
capitão Nascimento pra que haja o mínimo de equilíbrio social. E se o brasileiro hoje consegue idolatrar como herói um “monstro fascista” (confesso que também torci pelo personagem e seus objetivos durante o filme), estamos realmente com sérios problemas ou completamente desesperado e exaustos de tanta violência. Na verdade, gostaria muito que “Ônibus 174” e “Tropa de Elite” fossem parte de uma trilogia. Assim, ficaria esperando por um próximo grande filme sobre essa polêmica realidade da segurança no Brasil.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Tropa de Elite - Parte I

A resenha abaixo sobre o filme Tropa de Elite está dividida em duas partes devido o tamanho. O filme merece uma análise detalhada e tive que ater-me a vários detalhes importantes.

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Quando assisti pela primeira vez ao trailer de Tropa de Elite no cinema, pensei: “Que bom! O lado mais intrigante dessa história vai ser contado”. Já esperava muito, mas não esperava tanto, pois o filme tinha a missão de abordar os vários paradoxos e toda a complexidade que envolve a situação da violência, corrupção e falta de moral na sociedade brasileira, através da mais contraditória instituição, a polícia. Tropa de Elite, entretanto, consegue fazer tudo isso e muito mais com grande competência.

O filme nos apresenta à vida do capitão Nascimento enquanto integrante e líder de uma equipe do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar, o B.O.P.E. Ao mesmo tempo em que tenta combater o tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro, o capitão Nascimento luta para encontrar um substituto e poder cuidar da mulher e do filho que vai nascer. Paralelamente, os policiais aspirantes, Matias e Neto, descobrem casos de corrupção dentro do batalhão em que trabalham. Ansiosos por agir contra o tráfico e à corrupção policial, os dois personagens entram para o B.O.P.E. e tornam-se candidatos a substituírem Nascimento.

O filme tem início com a violenta cena em que Matias e Neto estão emboscados em um grande e violento tiroteio. Narrado em off pelo próprio capitão Nascimentos, o filme logo no início nos causa impacto pelas informações e visões do personagem a cerca da violência, do tráfico e da situação da polícia. Em seguida, somos apresentados aos personagens e à forma como a polícia funciona. È nesse ponto que o filme cresce, ao transformar os fatores daquela (da nossa) realidade social e da polícia (principalmente) em uma grande teia na qual ninguém é um verdadeiro culpado. E o longa vai mais além. Mostrando, a princípio, situações de corrupção da polícia em que poderíamos rapidamente julgar a instituição e quem faz parte dela, logo somos levados a reconhecer as prováveis causas da situação da polícia. E através da ótica do Capitão Nascimento e pelas circunstâncias de conflitos entre policiais e universitários/sociedade, descobrimos que os primeiros são condicionados e obrigados a agirem de determinada forma, já que se encontram em situação extrema (Ganhar apenas quinhentos reais para subir o morro e arriscar a vida é uma situação extrema), e que a classe média e alta possa ser a verdadeira financiadora do tráfico.

Trabalhando essa realidade, e mexendo em seus vários pontos sensíveis, o roteiro busca mostrar o lado da polícia ao mesmo tempo em que denuncia os atos corruptos e violentos desta e do tráfico. Quando vemos o B.O.P.E. agir na favela, matando sem remorso um traficante e em seguida agindo com violência contra universitários, logo o capitão Nascimento deixa claro sua atitude ao mostrar que essa violência promovida pelo B.O.P.E. é um ato “necessário”, conseqüente do tráfico e dos financiadores destes, ou seja, do universitário ou do indivíduo qualquer que usa de seu dinheiro para comprar drogas. E o “mal necessário” da violência pela policia é infelizmente inegável até em nossa própria realidade, quanto mais em uma cidade sitiada pelo tráfico, mostrando o quanto a situação do Brasil é problemática. Necessitar de um herói violento para que a sociedade permaneça em equilíbrio é, nada mais, nada menos do que uma grande corda bamba sobre a qual uma nação pode estar; e não podemos negar que são personagens como capitão Nascimento ou batalhões como o BOPE que estão mantendo o equilíbrio.
Ao mesmo tempo que vemos o Batalhão Especial agir contra o tráfico e a corrupção de maneira até romântica, estabelece-se um vínculo forte entre o público e o B.O.P.E., pois este passa a estar entre o bem e o mal, responsável por concertar uma situação que não pode ser feita senão através da violência e da guerra, e isso o batalhão faz com competência. E estabelecendo ainda mais essa relação com o público, o Batalhão ainda é contra a corrupção policial e também os maiores inimigos do tráfico.

terça-feira, outubro 23, 2007

Cidade de Deus x Tropa de Elite





Muita gente compara a estética de Tropa de Elite com a de Cidade de Deus, afirmando ter encontrado uma série de semelhanças, e que o primeiro não passa de mais um filme seguindo a escola do segundo.

Não percebo a relação dos dois filmes dessa forma, e pra mim, Tropa de Elite e Cidade de Deus têm suas diferenças, até mesmo na estética. Enquanto o filme de Fernando Meirelles não tenta ser tão realista e é mais estilizado, o filme de José Padilha é muito visceral e mais realista, além de possuir uma relevância e contextualização mais profunda.

Se Cidade de Deus tem uma estilização do ambiente da favela e das pessoas que se encontram lá, Tropa de Elite desbanca na realidade sem medo nenhum de chocar o telespectador. As únicas semelhanças visíveis entre as estéticas dos dois filmes residem no modo frenético de edição, na linguagem fragmentada e na narração que busca tomar o ponto de vista do protagonista como referência.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Tropa de Elite: "Osso Duro de Roer"

Ontem assisti ao filme Tropa de Elite (no cinema). O longa é simplesmente melhor, mais complexo e polêmico do que eu esperava, e minhas expectativas eram muitas para o filme do mesmo diretor de Ônibus 174. Tropa de Elite, de fato, é um "osso duro de roer".

Update 16/10: Esqueci de comentar, mas em breve vou tentar postar algo mais elaborado a respeito de Tropa de Elite. Trata-se de um filme complexo e com bastante detalhes a se analisar. Tentarei assistir mais uma vez (no cinema).

Ontem (dia 15/10) tive o desprazer e curiosidade de olhar na internet algumas fotos de restos mortais de alguns traficantes cruelmente abatidos pelo B.O.P.E., o batalhão especial em questão no filme. Esse filme ainda vai render muita polêmica.

Feliz da Vida

No início do ano afirmei aqui mesmo no blog não sentir firmeza no cinema brasileiro e que não estava acreditando nessa retomada. Pois bem! Nos últimos três meses (o exato tempo que fiquei sem postar) tive motivos de sobra para amenizar essa opinião. O nome desses motivos são na respectiva ordem de valor: Tropa de Elite, Cheiro do Ralo, Saneamento Básico e Batismo de Sangue. Isso porque não pude assistir a O Céu de Suely e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.

domingo, outubro 14, 2007

Debate Sobre 'Cidade de Deus'



Na quarta-feira, dia 3 de outubro, estive presente em um debate entre dois professore da UFMA sobre a estética do filme 'Cidade de Deus' que aconteceu no Anfiteatro do curso de Comunicação Social da universidade.

No debate foi discutida a estética imprimida por Fernando Meirelles ao seu filme Cidade de Deus. Os argumentos eram em sua maioria contra, para os dois debatedores, que tomavam como base de análise a comparação com a estética de outros filmes brasileiro e também com a dos filmes de Glauber Rocha.

Esse foi particularmente um debate importante. Nunca tinha refletido sobre a estética de Cidade de Deus e muito menos, feito uma comparação. Eu já havia assistido a um filme de Glauber Rocha e experimentado o choque daquele tipo de abordagem da realidade brasileira, que no debate intitulam de "estética da fome".

Os professores argumentaram insistentemente que Fernando Meirelles usou em Cidade de Deus um tom leve para a violência da favela, imprimindo um rítmo acelerado e uma edição frenética que pouco possibilita o espectador de experimentar e refletir, assim como a própria situação do roteiro de ser explorada. Esse tipo de estética foi comparada por eles como aquela usada em filmes Hollywoodianos; ou seja, Fernando Meirelles havia renegado tudo o que Glauber Rocha havia de forma genial e autêntica criado para o cinema brasileiro.

Assisti a Cidade de Deus ontem e confesso que realmente há uma leveza da violência, que mesmo possuíndo naturalmente em si própria um forte impacto, há um contraponto assumido pelo constante alívio cômico e pela forma com que os personagens e o ambiente da favela são trabalhados. Enquanto o filme poderia abordar a favela de uma forma mais dramática, centrando no sofrimentos dos que moram lá, na vitimização destes pela violência e mizéria, e no constante choque através de uma estética integralmente violenta; Cidade de Deus mostra em rítmo acelerado a vida dos favelado em um cotidiano entremeado de violência e de fatos positivos. Dessa forma, enquanto vemos Buscapé perder o irmão na violência, vemos também ele paquerar, fumar um baseado e divertir-se, ou então quando vemos a violência desmedida dos traficantes, vemos também a camaradagem entre eles.

Seguindo o mesmo raciocínio, os debatedores também afirmaram que Meirelles trabalha o ambiente da favela semelhante a um gueto. De certa forma a história da Cidade de Deus e de seus moradores realmente nos dá a entendê-los dessa forma. A favela foi criada pelo governo e inacabada no que se refere a saneamento básico, todos que não tinham moradia eram "jogados" no "bairro" e renegados. Se gueto trata-se de um grupo marginalizado pela sociedade, no caso da Cidade de Deus a favela deveria sim ser abordada como um gueto. É conveniente. A única diferença é que não se tratava de um grupo social específico, pois a única coisa em comum das pessoas que foram levadas para lá é que elas não possuíam moradia.

Ao mostrar os prós e contras do ambiente da favela, Meirelles consequentemente amenizou o impacto da violência e tornou a favela em um lugar de identificação ao espectador. É como se o drama da violência se transformasse em aventura e a miséria em estilo de vida, isso quando comparamos a estética de Meirelles com a "Estética da Fome".

No entanto, mesmo com essa amenização, a violência está lá, à mostra, e não se pode negar que Meirelle consegue criar cenas violentas eficazes sem apelos gráficos. E mesmo que o público se divirta ao assistir ao filme e concentre-se em outros aspectos da vida de um favelado, a violência não deixa de chocar em seus breves momentos de protagonização. E qualquer espectador em sã consciência consegue entender o quão violenta pode ser uma favela e perceber que qualquer um ali trocaria aquela vida por uma coisa melhor, de Buscapé a Bené.

Eu encaro essa amenização como uma forma de levar a realidade da favela para além das mentes intelectuais, uma forma de democratizar o conhecimento dessa realidade. E se a abordagem da favela feita por Meirelles ameniza a violência, ela mostra outros lados da favela que não se trata disso. Já no caso de uma abordagem feita dentro da estética da fome, talvez aspectos naturais da vida de um favelado não fossem abordados, e como diz Regina Case "A periferia não é só miséria e violência".

O que uma estética possibilita, a outra até certo ponto impede. No caso do ritmo acelerado, sou a favor porque acredito que isso reflita de certa forma algo da nossa vida moderna (não vou me aprofundar nesse aspecto, pois isso é uma outra questão, mas acredito que o ritmo empregado à maioria dos filmes hoje, um dia será um objeto de estudo da nossa atual civilização) e não sou contra o frenetismo, desde que o roteirista e o diretor sejam capazes de trabalhar suas personagens e as situações em curto espaço de tempo. Já vi muitos filmes lentos que perdem tempo com inutilidades, assim como já vi muitos filmes velozes que usam cada segundo e são um verdadeiro coquetel de sensações e choques. Cada filme com sua estética, cada estética com sua proposta e cada proposta com sua mensagem.

Por isso não sou a favor da defesa de um só tipo de tratamento dentro das artes. É verdade que no Cinema Novo o filme brasileiro segue mais a Cosmética da Fome" que a estética de Glauber Rocha, mas ao invés de esperarmos sempre obcecadamente e radicalmente uma "estética da fome", deveríamos esperar as mais variadas formas possíveis de se abordar um mesmo assunto. Isso sim seria mais lucrativo, pra todo mundo. Dentro de sua proposta, Fernando Meirelles faz bem e faz certo.

sexta-feira, junho 22, 2007

Festival Guarnicê de Cinema - 6º Dia

O 6º e último dia de exibição dos filmes competidores do festival foi o melhor. Nem um dos filmes exibidos que pude assitir deixaram a desejar, mas claro, digo isso dentro daquilo que consegui ver, já que não estive presente o dia inteiro no festival. Assisti a 6 filmes e 1 longa metragem, e só cheguei tarde mesmo porque estava fazendo figuração do novo curta de Francisco Colombo, ao qual ele havia me convidado para olhar a fase de produção do filme. Foi bem interessante, e no pouco tempo que participei, deu pra ter uma noção do que é um set de filmagem. Já o mais lamentável do último dia, foi a não exibição do filme "Ódio" de Breno Ferreira, que fora tão falado.

Quanto aos filmes que assisti, segue a lista abaixo:

Cão Sem Dono, de Beto Brant e Renato Ciasca (longa-metragem)
-Quando comecei a assistir já haviam se passado 15 minutos, mas tudo que vi a seguir foi até claro pra mim. Depois, ao discutir com amigos sobre o longa, vi que minha visão estava completamente distorcida. O foco do confilto das personagens era outro, e não fui nem capaz de perceber uma série de coisas, que caso eu tivesse assistido os 15 minutos iniciais, teria compreendido. Pegar filmes do meio? Nunca mais!

Piruetas, de Haroldo Borges
-Esse foi o filme que mais me agradou no festival inteiro, ao lado do curta de animação "Vida Maria". Narrando a estória de um garoto e seu avô que têm suas vidas transformadas com a chegada de um circo e consequentemente de uma paixão para o segundo, "Piruetas" nos dá a possibilidade de desvendar as intenções e o subtexto tão elaborado das personagens, sem que necessitemos de falas óbvias e lugares-comuns, tudo através de cenas muito bem dirigidas e atuações excelentes, principalmente por parte do ator-mirim, que dá um show de carisma. O avô do garoto, apaixonado e rejuvenescido pela malabarista do circo, entristece ao saber que o picadeiro vai embora, restando ao curioso e engenhoso garoto ajudar o avô. Poucas falas e nenhum melodrama, é nos olhares e em cenas poucos incinuosas que desvendamos aqueles personagens, sem que o público sofra da tão comum subestimação por parte do diretor e cia. Simples, porém inteligente, possui a melhor direção dos filmes que pude assistir no festival.


Outros Filmes

-Identidade em Trânsito, de Daniele Ellery e Márcio Câmara
-Eisenstein, de Leonardo Lacca, Raul Luna e Tião
-Primeiro movimento, de Érica Valle
-O Evangélho Segundo Seu João, de Eduardo Souza Lima, João Moraes e Leornado Gomes


Considerações Quanto ao Festival

Não podia dizer outra coisa senão "excelente". Ouvi vários profissionais passarem pelo festival dizendo considerar um dos mais importantes do país. Eu acredito. Não participei de outros anteriores, por isso não posso fazer comparações, mas por si só julgo que me acrescentou e muito. Que venha o próximo!

domingo, junho 17, 2007

Festival Guarnicê de Cinema - 4º e 5º Dia

Nestes dois dias me superei. Assisti 18 curtas-metragens e um longa. Além dos filmes, estive bastante presente no curso de Produção de Audio e Vídeo, e confesso que fiquei bastante empolgado com essa coisa de escrever um roteiro e produzir um vídeo. Eu devia realmente ter participado dos outros festivais que passaram.

O curso ministrado pela produtora Clélia Bessa rendeu muitas dicas, como formatação de formulários e projetos, e até alguns contatos interessantes que podem ajudar em produções de audio e vídeo, fora que fiquei sabendo que é possível conseguir equipamentos e materiais de graça através da CTAV. Agora só resta criar.












Choque de Linguagem

Em um dos posts anteriores, eu disse que me aventuraria em outros cinemas. Acho que comecei por um bom terreno, o dos curtas. Pequenos e descomprometidos comercialmente, os curtas-metragens servem como experimentos, uma forma de expressão mais livre dos artistas e comunicadores, e até mesmo como um exercício de linguagem.

Alguns filmes que assisti foram verdadeiros choques de linguagem. Possuíam uma narrativa nada convencional e seus significados não estavam nem um pouco aliados às interpretações mais lógicas que constumamos ter em filmes mais comerciais (Isso não é uma regra). Surrealismo, simbolismo, expressionismo; formas mais vanguardistas de expressão acabam sendo alternativas mais criativas de contar uma estória ou tratar de algo, sendo as vezes, até as mais eficazes para determinados assuntos. Uma coisa é certa, sempre fica uma sede de reflexão e entendimento desses filmes que parecem tão complexos.

Filmes Assistidos

- Wood & Stock - Sexo, Drogas e Rock'n'roll (Longa-metragem), de Otto Guerra

-[(OPUS.(NÔUMENO)], de Felipe Moura

-O Eixo do Homem, de Marcius Barbiere

-Borralho, de Artuno Sabóia

-O Brilho dos Meus Olhos, de Allan Ribeiro

-Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomas Farkas e Ricardo Dias

-"Yansan", de Carlos Eduardo Nogueira

-Sol de Amém, de Ives Albuquerque

-Adro da Candelária, de Alexandre Guerreiro

-Balada do Vampiro, de Estevan Silveira

-Juro que Vi: Matinta perera, de Humberto Avelar

-Cabaceiras, de Ana Bárbara Ramos

-"Memórias Sentimentais de um Editor de Passos", de Daniel Turini

-O Crime da Ulen, de Murilo Santos

-Redenção, de João Paulo Furtado

-Trash in Rio, de Luis Fernando Reis

-Lady Christiny, de Alexandre Lino

-Olhar da Violência, de Márcio Moreira

-Remando Contra a Maré do Atrazo, de Leonício Aires da Silva

sexta-feira, junho 15, 2007

Festival Guarnicê de Cinema - 2º e 3º Dia

O melhor e o pior de um Festival é o fato de ter milhares de coisas que você poderia fazer e desfrutar. Como um só, tenho que escolher o que julgo mais interessante. O problema é que tudo é muito interessante no Guarnicê; e se já estou inteiramente envolvido no festival nas tardes dessa semana, gostaria de ser dois para participar dos eventos que acontecem paralelamente.

Gostaria de ter assistido a mais filmes, só não o fiz porque pela tarde, das 2 às 5, estive presente no curso de Produção de Audio e Vídeo, também pelo festival, que aliás, tem sido muito exclarecedor quanto às estruturas do cinema em grande escala. Assisti nos dois últimos dias 15 curtas metragens, mais vários comerciais de televisão e vídeo clips que competiram no festival. Vou citar e comentar alguns dos curtas-metragem.

Filmes Assistidos

Origem dos Nomes
-O filme narra o mito dos kayapó-Xikrin, mostrando o ritual da tribo indígena. Talvez o maior erro do filme seja o fato dele não apresentar ao público em geral o próprio mito, que se torna na tela algo incompreensível. Outro ponto negativo, são as interpretações dos atores em estilo teatral, totalmente inapropriadas para o cinema.

Era uma Vez...
-Tudo começa numa noite, com uma jovem fantasiada de fada em um ponto de ônibus. Ao embarcar, ela senta ao lado de um senhor, um ladrão. O que se segue, são surpresas agradáveis e interessantes a cerca das personagens. Contradições nos comportamentos, decorrentes do estado emocional deles, tornam-se o vetor do curta. Um ótimo filme que transforma os personagens em figuras complexas e ambíguas em pouco tempo.

Vida Maria
-Um curta surpreendente. Vida Maria dedica-se a contar o ciclo da mulher do interior nordestino do Brasil, onde a ignorância é o principal motivo da mizéria da vida daquelas pessoas. O curta começa com uma pequena "Maria" tentando escrever o próprio nome num caderno velho, e logo é interropida pela mãe, que manda a criança lavar roupas. Daí vemos toda a vida da pequena "Maria" em um incrível plano sequencia (o primeiro que vi em uma animação) em que a personagem cresce, casa-se, tem filhos e no fim reprime outra "Mariazinha" sua filha em planos idênticos ao inicial, só que agora com o corpo da mãe da protagonista em um caixão no meio da sala. Sem se preocupar em retratar as figuras humanas de forma realista, o curta torna mais expressiva ainda as marcas físicas da mizéria. O ambiente sertanejo é incrivelmente retratado e detalhes como as marcas de expressão no rosto das personagens e o balançar da câmera, como se houvesse um câmera-men andando (algo típico de plano-sequência), dão um brilho ao curta. Belo e cativante, o curta recebeu forte aplausos.

Leonel Pé-de-Vento
-Leonel é um garoto que nasceu pé-de-vento, ou seja, vive sempre cinco metros acima do chão. Por causa disso, Leonel viveu isolado até o dia em que é visto por uma garota. Impresionada, ela decide ajuda-lo, e descobre que se ele ficar inteiramente feliz, voltará ao chão. A garota resolve então se tornar amiga de Leonel, e isso foi o suficiente para deixa-lo feliz por completo. Esse curta de animação possui um estória simples e com um final previsível, mas é na sua metáfora que o filme surpreende, mostrando que assim como Leonel necessitou da aceitação da garota para se resolver em suas diferenças, a aceitação daqueles que são diferentes é fundamental para evitar o isolamento.

Outros Filmes

-Quando o Tempo Cair
-O Som da Luz do Trovão
-Graçanaã
-Espeto
-No Rastro do Camaleão
-Cine Zé Sozinho
-Sete Minutos
-Akomabu - A Cultura Não Deve Morrer
-Sexodrama
-Orquestra de Batuque
-"O Senhor da Floresta"------------------------------------------------------A Estória da Figueira

terça-feira, junho 12, 2007

Festival Guarnicê de Cinema

Ontem teve ínicio o 30º Festival Guarnicê de Cinema, no Centro de Criatividade Odilo Costa Filho. Como pretendo desta vez me envolver bastante com o festival, estive presente já na estréia e pretendo também estar por lá até o dia 17, pra descontar os festivais que perdi. Muitas oficinas, workshops, palestras e exibições, nem sei o quê fazer e em qual tempo, mas já pretendo ver alguns debates e vou me esforçar pra assistir a alguns filmes. Inscrevi-me em um Curso de Produção Audiovisual e no Workshop Múltiplas Faces de um Ator, dos vários que tinham por lá, mas vou mesmo me dedicar às exibições.

Repercutindo a Abertura

Cheguei meio atrazadão! Mas não o suficiente para perder a solenidade e muito menos o mais importante, os filmes. Quando entrei no Odylo Costa Filho, encontrei logo várias caras conhecidas e me juntei a alguns amigos. Ganhei até um mingual de milho. Uma "musiquinha" chata, tema do festival, ficava tocando insistentemente, mas insistentemente mesmo, não trocavam ela por nada. Então fiquei conversando qualquer coisa com o pessoal até a hora de entrar. A "musiquinha" tocava. Uns dois atores famosos de cinema já estavam por lá. A "musiquinha" tocava e enjoava.......... : /

Chegando a hora da Solenidade de Abertura, entrei muito tarde no teatro e não tinha mais onde sentar (Droga!). Aconteceu então a Solenidade, bem básica, nada que tirasse o brilho dos reais objetivos do Festival; acontecia o mesmo blá blá blá de cerimônia, mas sempre embalado pela "musiquinha", que eu não aguentava mais. Falando nela, já dava pra perceber que era alvo de comentários e murmúrios no evento; e a "musiquinha" parece mais a chata trilha sonora daquele jogo "The Sims". Encerrada a cerimônia, foi a vez da exibição do vídeo de animação do festival, que precede os vídeos. (Embalado por quem? ... Pela 'musiquinha'!)...... * [

Começou os filmes e me dei conta de que eu estava em pé...(Droga!). Na doida (O que não faço pra assistir a um filme) sentei no chão mais a frente, enquanto ficava uma multidão "chique" atrás em pé. Não demorou muito, estavam todos sentados no chão também. Passado um tempo, um pessoal de uma fila, duas mulheres e um homem, resolvem sair de lá. Elas passam tranquilamente por mim e ele se desequilibra, dando um forte pisão na minha perna. Era Norton Nascimento. Ele pede desculpas, eu aceito e o cara vai embora.

O que eu não faço pra assistir a um filme?!..... : p


Comentários do Filmes

Apesar do que disse acima, valeu a pena ter assistido, muito! Pude ver como o cinema maranhense, por incrível que pareça, tem suas preciosidades e cineastas realmente talentosos. Dos seis filmes exibidos, só um não me agradou mesmo. Vou fazer um curto comentário do que pude perceber de cada um.

Na Terra de Caburé, de Murilo Santos: É um ótimo documentário em curta, que faz um apanhado histórico dos conflitos entre os indíos Teneteharas e os missionários Capuchinhos da região de Barra do Corda. Traz uma visão ampla da história, dando enfoque aos dois lados do conflito. É eficiente em levar, em poucos minutos, uma noção completa da história para o público.

Jardins Suspensos, de Euclides Moreira: Dos curtas exibidos, foi este que mais me agradou. As imagens mostradas do Centro Histórico de São Luís são quase poéticas, sempre retratando nas poesias das legendas que entremeavam as imagens, um saudosismo que refletia o que aquelas construções foram, e como aquela natureza, hoje, toma conta de si própria. Depois do lado belo das imagens de verdadeiros jardins supensos em telhados coloniais, o documentário se propõe a denunciar o descaso com essas construções. Tudo muito bem pontuado por uma ótima trilha sonora.

Rosas, de Ione Coelho: É um bom filme. Apesar de despretencioso no roteiro, exibe planos interessantíssimos. A estória se revela de maneira prazerosa quando vemos uma viúva, que visitava seu finado marido, dando de cara com outra aparente viúva triste no túmulo do falecido.

Litânia da Velha, de Frederico Machado: Conta a estória da simpática velhinha sem rumo. Ela abandona seu casebre e vagueia pela Centro Histórico enquanto perde as forças. No entanto, creio que funcionaria melhor sem a narração poética, que só não é dispensável por ter seus bonitos momentos. Neste filme percebi o quanto conheço cada canto do Reviver.... : )

Filé com Fritas, de Murilo Santos: Este não me agradou nem um pouco. Estória meio boba de um casal que vai a um restaurante e lá tem um indivíduo que observa constantemente a mulher, o marido furioso mata o indivíduo lá mesmo e uma manchete nos jornais afirma : "Cego foi assassinado em restaurante". A piada funciona, mas o filme em si é marcado por atuações que não convencem, exceto a de Murilo Santos, que além de convencer muito, arranca risadas do público.

Bom Te Ver, de Francisco Colombo: Outro preferido. Só a idéia de documentar, em entrevista, um pouco da vida daquela personagem já é ótima. O curta trata-se de uma entrevista com uma figura maranhense, uma ousada e "pra frente" atriz dos palcos do Maranhão (Desculpe! Mas não lembro o nome dela. O filme nos dá uma oportunidade de saber). Ela é puro carisma!.....................................
Frase da personagem: "Sou filha de pais separados...sou filha da puta. Na minha certidão não tinha o nome do meu pai."


Hoje prefiro pensar que o cinema maranhense sofre mais com limitações do que com erros de quem o produz. Há bons artistas e boas visões dentro do Estado, mas a escassez deles é uma questão bem mais complexa do que imaginamos.
Quem estiver interessado em acompanhar o festival, logo abaixo, nos coments, tem a programação.

domingo, maio 13, 2007

Apenas erros...e um elenco especial.

Quando o cinema brasileiro nos anos 90 deu aquela avançada básica, todos ficaram empolgados. E era realmente pra tanto, pois filmes como Central do Brasil e O Que É Isso Companheiro lançaram trazendo novo fôlego ao nosso cinema. Já hoje! Não sei não. Dizem que estamos no mesmo processo, mas a decepção ainda é constante. Pesquisas mostra que o número de produções está diminuindo e dá pra contar nos dedos o número de Longas bons que o Brasil tem produzido. O tão comentado Ó Pai Ó, ou Ó Paí Ó é o exemplar das besteiras que tem sido feitas ultimamente. Neste post vou me dedicar a mostrar minhas impressões em relação a Ó Pai, Ó.

O nome do filme que se trata uma expressão comumente usada na Bahia, significa o que diríamos aqui na seguinte forma: “Olha praí, olha!”, algo que não significa nada durante o filme, apenas é a transposição de um vívio dos personagens baianos para o título do longa.
Engraçado?! Divertido?! Legal?! Divertir, ele pode até divertir, mas somente aqueles que estão em busca de algo realmente descomprometido e que não possui estória nenhuma. A sensação de se assistir “Ó, Pai Ó!”, é a de está presenciando o cotidiano de algumas pessoas, mas quando digo cotidiano, falo do sentido pleno da palavra. Eu até poderia contar uma sinopse antes de analisar o filme, como sempre faço, mas não posso fazer isso simplesmente porque o filme não possui. Bom! Mas vou tentar.

O filme mostra o primeiro dia de carnaval dos habitantes de um cortiço, localizado no bairro da Barroquinha, logo abaixo do Pelourinho. Todo o conjunto de situações (Atenção! Digo, “situações” e não “trama”). Todo o conjunto de situações tem início quando impiedosa dona do pobre prédio fechara o registro de água para acabar com a festa de todos.

Após isso, apenas vemos atores como Lázaro Ramos, Dirá Paes, Stênio Garcia
, Wagner Moura (Que mostra sua pior performance, isso porque admiro muito o ator, mas sua interpretação estereotipada não convence nem os mais lentos) sendo desperdiçados em situações engraçadinhas e em musicais inúteis. De onde o filme começa, ele se encerra. Sem uma evolução das personagens. Sem uma trama que se desenrole. O filme se trata apenas de confusões umas atrás das outras com o único intuito de fazer rir. Sapatões, travestis, gays, prostitutas, cornos, todos usados no filme da forma mais pejorativa e desrespeitosa possível como formula de escandalizar as confusões do filme. Sem contar, que retrata esses personagens como se fossem a marca da periferia nordestina. Engraçado?! Não deixa de ser, mas se é legal, é outra história.

Contudo, como excelente ator que Lázaro Ramos é, o filme vale por uma cena em especial que este faz, no qual o seu personagem, Rock, discursa com toda a indignação contra argumentos racistas que ele escuta de outro personagem. Fica claro que o ator se inspirou em toda a raiva contida (ou não) em situações que ele deve ter sofrido durante a vida e na própria carreira. A cena é um espetáculo.


Tentando criar uma imagem mais vendável ainda da Bahia para o mundo todo através da bahianidade (e isso fica sempre claro, principalmente quando o filme tenta trazer conotações otimistas e divertidas para uma realidade infeliz), “Ó, Pai Ó” se propõe somente a isso, retratando um ambiente que todo gringo e brasileiro gosta de ver, e talvez por isso agrade uma maioria. Uma coisa é certa, mesmo que artisticamente falho, o filme vai ser divertido para a maioria dos nordestinos. Algumas identificações serão inevitáveis, do axé aos cabarés.