quinta-feira, julho 17, 2008

O Incrível Hulk

Ao comparar o primeiro filme (Hulk) com este novo O Incrível Hulk, percebemos claramente que existem novas pretenções da Marvel para esta série. O primeiro, dirigido por Ang Lee, procurava desenvolver ao máximo o drama da situação ao qual Bruce Banner se encontrava, estudando a psicologia do personagem e tematizando com solidez o filme. Já nesta continuação, a tentativa foi de contar a estória do personagem através de um estilo mais comum aos utilizados em adaptações de HQ's, no qual o equilíbrio entre a ação, desenvolvimento das personagens e o drama é feito de forma a tornar a narrativa fluída e com rítmo adequado para o tipo de estória. Não que a empreitada de Ang Lee não tenha sido boa, na verdade, foi ótima e fundamentou como em nenhum outro filme de super-herói os poderes e traumas deste personagem, que, no fundo, estão estritamente ligados.

Mesmo que eu acredite que o tratamento dado pela direção de Louis Leterrier a este segundo filme seja mais coerente à estória, sinto e senti maior empatia pela forma com que Ang Lee a contou. A densidade com a qual este último desenvolveu e a utilização de argumentos psicanalíticos/psicológicos como explicação para os traumas do protagonista, indiretamente deram ao filme sensações mais vicerais e angustiantes, além de nos conceder explicações quase plausíveis para a mutação do personagem. E essa capacidade de tornar a estória mais emotiva quando racionalizada parece ser inexplicavelmente um trunfo comum às estórias de Hulk. Da mesmo forma, em O Incrível Hulk, os momentos mais emocionantes e dramáticos estão diretamente ligados às questões psicológicas de Bruce Banner, quando estas são desenvolvidas.

Com um início ágil, o filme, logo após nos apresentar a nova situação e esconderijo de Bruce Banner, nos deixa a par da ameaça e do constante desespero do personagem em se livrar de seu "poder". Usando a favela da Rocinha como cenário para o esconderijo de Banner, a produção fez um ótimo trabalho ao escolher ângulos fabulosos compondo uma bela fotografia, e ao explorar, em alguns momentos, o caótico ambiente do morro, como na perseguição que os militares norte-americanos fazem pelas ruelas, lajes e becos traiçoeiros do morro. O trabalho de Direção de Arte e a produção no geral foram tão bem realizados que o íncomodo típico que nós brasileiros sentimos ao assistir filmes hollywoodianos filmados no Brasil foi quase imperceptível pela escassez de deslizes na representação da Rocinha e da vida na favela, tropeçando apenas aqui e ali.

Com uma urgência e rítmo intenso, o início do longa praticamente em nada parece com a cuidadosa apresentação das personagens de seu antecessor e, curiosamente, uma nova versão do auto-experimento científico de Bruce Banner que o tornou em Hulk foi mostrada (nesta, sua namorada Betty Ross quase morreu no incidente). Investindo mais tempo nos momentos de ação, o roteiro se torna mais atrativa e prende fortemente o espectador, ao passo que mostra também as consequência traumáticas da "pós-transformação em Hulk" e de toda a ação ocorrida, assim como a carga emocional deste por ter que, constantemente, manter-se isolado como um fugitivo e ver-se sempre a um passo de "surtar" novamente. Dessa forma, reencontramos um Bruce Banner amargurado, que sofre o peso de sua natureza mutante e do que ela pode criar.

Composta essa nova versão cinematográfica, nada mais normal que a mudança de elenco. Bruce Banner, antes atuado por Eric Banna, agora ganha um novo e competente interprete, Edward Norton. Se Banna possuía um físico mais avantajada (malhado) que dificultava uma aparência mais frágil, Norton já possui um corpo esguio, mas diferentemente do primeiro, exibe aspectos psicológicos que imprimem maior segurança ao personagem. A verdade é que a fragilidade típica de um personagem inseguro e possuidor de certos desajustes emocionais acaba sempre prejudicada por alguns desses aspectos. Se eu escolhesse entre as atuações dos dois, mesmo sendo um adimirador do trabalho de Norton, ficaria com a de Eric Banna, por considerá-la a mais coerente. No entanto, vale ressaltar que certas mudança têm mais a ver com escolhas tomadas pela direção, do que pela composição feita pelos atores.

Edward Norton, porém, é bastante eficiente ao mostrar o peso dos problemas e restrições do personagem sobre si. Da mesma forma, a atriz Liv Tyler, que interpreta Betty Ross, funciona muito bem com Norton, imprimindo química ao casal. Mas infelizmente, o roteiro esquece de sustentar o lado da personagem como uma importante pesquisadora, deixando-a apenas como a mera namoradinha do herói. Já Tim Roth, constroi um Emil Blonsky interessante e ambiciso, e até certo ponto, um tanto obcecado e ameaçador, até para o próprio Hulk.

Superando o primeiro filme no que diz respeito a efeitos especiais, O Incrível Hulk impreciona pela veracidade do próprio Hulk, mas não a ponto de esquecermos de seu caráter digital. Dessa vez, com uma pele composta por uma coloração mais escura que o torna mais ameaçador, o Hulk ganhou um caráter mais verossímio, chagando a impressionar por alguns instantes pela preocupação dos técnicos em tornar o personagem em algo "real" e palpável. A única falha na composição do herói fica mesmo nas suas expressões faciais sempre indefinidas e quase sem emoções, tornando praticamente indecifrávis os pensamentos e as sensações de um personagem que é, na verdade, a forma física e surtada do inconsciente de Bruce Banner.

Em meio a incerssões bem sucedidas de algumas cenas cômicas, o momento em que Betty Ross fica completamente irritada com um taxista, ao passo que, ironicamente, Bruce aparenta total postura parcial a situação; é o único que revela-se ineficaz por não possuir qualquer elemento surpresa pela obviedade da tirada cômica. Possuíndo uma série de pequenas situações forçadas, o final peca ao investir quase que completamente na ação desenfreada e, novamente, na criação surpresa e desnecessária de um novo vilão.

Preocupado em não apenas referenciar os quadrinhos, o diretor Louis Leterrier faz homenagens óbvias à série de TV dos anos 80, como o plano das íris dos olhos de Banner no momento da transformação em Hulk, ou o próprio título do longa que é a referência mais direta à série. O filme, aliás, se dá ao luxo de explorar as diversas possibilidades estéticas ou narrativas assumidas variadamente nas muitas versões dos quadrinhos. Hulk foi uma das HQ's com mais adaptações diferentes da mesma estória e, talvez, a utilização de outra versão, no filme, do momento em que o protagonista sofre o incidente laboratorial que o transforma em Hulk, seja uma liberdade absorvida pela adaptação cinematográfica dessa característica da estória do herói, a de possuir vários início e versões.

De um modo geral, o tom utilizado nesse novo filme sobre o super-herói verdão é mais adequado que o da versão anterior, por ser mais leve, menos denso, com mais rítmo e não menos dramático, sem, com isso, torná-lo pobre e superficial. Essa mudança bem sucedida confirma que, em certos casos, melhor que utilizar um estilo denso e racional que transforme uma obra pop em uma arte mais rebuscada, é desenvolver o filme dentro de um estilo mais atrativo e coerente à proposta da estória, mas que mesmo assim faça jus ao potencial desta e não duvide da inteligência de seu público. São justamente estas as maiores qualidade de O Incrível Hulk.

terça-feira, julho 15, 2008

Uma Mídia mais Discreta?

Se no "Caso Isabella" eu discordava da cobertura excessiva e sensacionalista que extrapolava o limite do bom-senso, tanto por parte dos profissionais de comunicação quanto pelos milhares de receptores; frente a cobertura deste mais novo e triste caso de uma criança atingida pela violência, admito que alguns segmentos de mídia têm feito o seu trabalho de forma mais equilibrada, sensata e buscando encontrar, por trás dessa veiculação, um sentido e uma relevância que vão além do interesse público ou da audiência, mas que procure desvendar o contexto por trás dessa situação. Algo que não aconteceu no primeiro caso, que apenas com mais de um mês alguma discussão rasteira sobre violência doméstica e suas causas fora levantada.

Nesse caso ocorrido no domingo, dia 6, policiais militares foram acusados de disparar pelos menos 16 tiros contra o carro ao qual João Roberto, de 3 anos, se encontrava com sua mãe e irmão. A criança teve morte cerebral logo na segunda-feira, enquanto os dois PM's envolvidos na operação foram presos em um batalhão na Tijuca. Eles afirmaram que estavam trocando tiros com ladrões e negam terem atirado contra o carro em que o menino se encontrava. No meio da semana, o vídeo de segurança do prédio em frente ao ocorrido revelou que os policiais dipararam contra o carro, indicando um erro operacional, e dos grandes.

As reportagens sobre o ocorrido apuram os fatos de forma mais cuidadosa, além da habitual tentativa jornalística de comover. O que a princípio era noticiado como um típico caso de violência policial, passou a informar um possível despreparo da polícia, tanto psicológico como operacional. A questão inevitavelmente se aprofundou. A discussão sobre a deficiência dos policiais militares surgiu e vários meios de comunicação optaram por não impor papéis e funções aos personagens dessa história, com o intuito somente de sensacionalizar este, que é mais um fato complexo de nossa sociedade. Até a possibilidade dos policiais realmente terem trocando tiros com ladrões está sendo bem divulgada pela mídia, criando uma verdadeira situação reflexiva que vai para longe da simples comoção, vitimação e da incitação de raiva na população.

Tenho uma forte impressão que essa postura da imprensa nesse caso tenha ocorrido por esse fato caracterizar-se como parte de uma discussão já em pauta desde o ano passado pelo cinema e por outras mídias. Hoje, há uma verdadeira inquietação para se entender a instituição policial brasileira e como esta se encontra, já que ela é fundamental para a manutenção do equilíbrio social, principalmente em um país subdesenvolvido. Fiquei um pouco surpreso com a forma de tratamento da mídia em um caso que poderia ser muito bem explorado, aproveitando o sentimento de revolta induzido, intensamente utilizado pela imprensa no caso de Isabella Nardoni. No entanto, a reflexão sobre as condições da polícia foi quase inevitável de surgir no caso do pequeno João, já que envolvia diretamente policiais militares do Rio de Janeiro. E acredito, a imprensa não se submeteriam a tamanho indiscrição em um caso tão delicado.

A verdade é que a violência no Rio não é novidade, assim como a insegurança atual que sentimos em relação a instuição que deveria nos trazer um mínimo de segurança. Considerando esses fatores, talvez seja mais fácil de entender as diferenças consideráveis que existem entre o Caso Isabella e o de um menino que, infelizmente, será apenas parte de uma estatística tão comum à cidade. Nesse momento, a comovente revolta da massa realmente faz falta.

E então. Será uma mídia mais discreta ou exitem mais pressões por trás da cobertura de um fato como este ocorrido no Rio de Janeiro?

sábado, julho 12, 2008

Wall.E - Primeiras e Sensíveis Impressões

Quando escrevo sobre um filme e intitulo o texto de "Primeiras e Sensíveis Impressões", a idéia que tenho, obviamente, é de relatar o que senti e as primeiras impressões vindas do filme. Isso tem sido comum e relativamente fácil de se fazer, mas em si tratando de Wall-E, nas diversas vezes em que comecei a escrever este post me vi buscando um texto mais frio e distante, procurando não explorar e muito menos expor um pouco da experiência bem pessoal que foi assistir a essa animação.

A verdade é que dificilmente uma pessoa que assiste a Wall-E sairá a mesma ou sem um mínimo de reflexão. O filme é emocional, certamente. Mas incrivelmente racional também, como uma mistura magnífica que mais parece Steven Spielberg e Stanley Kubrick na direção de um mesmo filme, protagonizado por Chalie Chaplin. E comparar o robozinho com o ator é mais que um elogio ao trabalho da Pixar.

A princípio, Wall-E parecia ser uma ousada estória sobre a vida solitária de um robô programado para limpar uma Terra completamente poluída. No filme, um cenário verdadeiramente angustiante. São quase 30 minutos sem falas, apenas com gestos e rotinas, para então descobrirmos que a estória se trata da paixão entre dois robôs, que no decorrer do filme, abandonam suas diretrizes em prol do "amor". Aparentemente, uma idéia maluca e água-com-açucar, mas a verdade é que trata-se de um cinema de primeira.

O robô Wall-E é um personagem fascinante e irresistível. Não imagino quem possa ignorá-lo e não se comover logo nos primeiros instantes com a alma (isso mesmo) e sensibilidade do robô, que é uma singela homenagem a humanidade. E é isso que o filme de fato acaba por nos mostrar ser, uma homenagem ao homem e sua sensibilidade, e não é à toa que Wall-E guarda em sua casinha improvisada diversas lembranças bonitas e singelas do que foram as pessoas que naquele lugar já residiram. O mesmo indivíduo capaz de destruir o mundo em que vive e de discriminar o próximo por pura ignorância, é também aquele que ama, dá as mãos ao outro. O personagem consegue sempre ver o melhor do homem em todo o longa e, curiosamente, ele sempre me pareceu a versão mais pura e inocente deste, ou seja, aquela sem rancor e traumas, que não tem medo de sentir, se emocionar, se apaixonar ou parecer bobo.

A verdade é que, ao assistir Wall-E, pude observar o melhor do que podemos ser, e vendo aquele personagem inserido em um contexto de total destruíção de nosso maior bem, fica clara a mensagem de que somente essa versão de nós é capaz de dar o devido valor. Não demora muito para entendermos o porquê da total poluíção do planeta, quando na metade do filme, Wall-E encontra os humanos e, junto com ele, descobrimos que o homem do futuro não passa de um ser amorfo, ignorante, acrítico, que perdeu até sua capacidade de locomoção por total entrega às facilidades tecnológicas e que, ao primeiro e surpreso contato, todos parecem exibir atenção e simpatia, mas por pura carência e solidão. O filme vai mais além em seus argumentos, tratando do consumismo e da vida cada vez mais envolta de um tecnicismo e por frias diretrizes de um mundo com olhares voltados para valores superficiais.

Não foi possível não me emocionar. Para alguns, o filme funciona como uma verdadeira redescoberta do que somos; já para outros, como uma feliz relembrança, enquanto que uma outra parte apenas ignorará, assim como os humanos de Wall-E, que vivem deitados pela atrofia de seus corpos em cadeiras flutuantes e com uma espécie de TV (é uma mídia) frente aos olhos, incapazes de olhar para o lado e de sentir algo genuinamente humano e real. Como a paixão de Wall-E por Eva.


A Comoção de Courtney

Já que falei de Wall-E, não vou deixar de comentar a respeito de um curioso caso sobre o filme. Courtney, uma jovem norte-americana, enviou um vídeo para a Pixar que era um registro do que ocorria sempre que assistia ao tease-trailer da animação lançado a meses na internet. Coutney se emocionava, inevitavelmente, sempre que via o olhar e escutava a voz do protagonista. Depois disso, a jovem passou a receber e-mails constantes de alguns funcionários da Pixar que ficaram comovidos com o seu vídeo. A equipe acabou convidando Courtney a comparecer na festa de comemoração do lançamento do filme, e lá foi homenagiada pelo próprio diretor.

Segundo o namorado de Coutney, que se encontrava também no evento:

"Então [Andrew Stanton] disse: 'Há seis meses, quando o primeiro trailer de Wall.E foi lançado, estávamos apenas na metade do processo de realizar o filme e não sabíamos ao certo como iríamos concluir o projeto. Estávamos exaustos. E aí, um dia, um vídeo apareceu no YouTube mostrando uma garota assistindo ao trailer. E toda vez que o via, ela chorava. Quando vimos aquilo, soubemos que estávamos indo na direção correta'.

Todos no cinema riram deste caso, demonstrando que sabiam do que ele estava falando.

'Bem', Andrew Stanton disse. 'Nós convidamos Courtney para estar aqui esta noite.'


Um burburinho tomou conta do cinema. Quando virei e olhei para minha namorada, ela estava boquiaberta pela surpresa. Andrew Stanton pediu que ela se levantasse e mil pares de olhos se viraram para fitá-la e, então, um ensurdecedor aplauso começou. Courtney ficou parada e, sem saber o que fazer, soprou beijos para os artistas e técnicos que fizeram o filme. Foi uma das coisas mais emocionantes e surpreendentes que ela já viveu e que já testemunhei. E a Pixar fez isso apenas porque o vídeo dela havia tocado seus artistas, deixando-os otimistas com relação ao filme que estavam fazendo. E eles quiseram retribuir o favor.

(...)

A Pixar nunca tentou usar essa história para promover o filme. Eles realmente fizeram isso exclusivamente porque ficaram tocados pela reação de Courtney ao trailer, porque acharam que isto seria algo bacana de se fazer e porque acreditaram que isto agradaria também aos seus funcionários - os quais, pelo que vi, eles tratam com enorme respeito".


(trecho extraído do post "Pixar, Humanidade, Emoções" do blog Diário de Bordo, de autoria de Pablo Villaça)

O relato completo e o vídeo de Courtney podem ser vistos aqui.

E... Bom! O trailer de Wall-E, pra quem estiver curioso.

terça-feira, julho 08, 2008

Festival de Cinema

Festival de cinema, pra mim, é igual a festa. E neste último Guarnicê não foi diferente. Mas como estive mais ocupado, não fui todos os dias e não assisti metade dos filmes que concorreram aos prêmios do festival. Mesmo assim, consegui assisti a alguns bons longas-metragens como Os Desafinados e AVia Láctea.

Em relação aos curtas, pude observar algo interessante. Prefiro um bom filme a uma animação, no entanto, nos festivais sempre sou completamente fisgado por alguma animação. Ano passado terminei o evento encantado com o curta cearence Vida Maria, já neste ano, foi o paulistano Pajerama que me fascinou. O anime narra a estória de um índio que passa por uma torrente de situações inexplicáveis; metais, concretos e sinais da vida moderna surgem misteriosamente na virgem selva brasileira.

Panjerama trata de fatos misteriosos e apavorantes aos olhos do jovem índio. A produção, com o intuito de ressaltar o impacto e estranhamento das situações, utiliza uma trilha típica de suspenses baseada quase que completamente em ruídos, sem abdicar da temática indígena. O resultado é excelente. A forte trilha completa tão bem a idéia do roteiro, que os sinais de nossa modernidade e civilização no meio do universo particular dos índios de um Brasil do século XV lembram facilmente as típicas cenas cinematográficas no qual um homem mantém, pela primeira vez, contato com um ser ou tecnologia extraterrestre. E o melhor, claro, é o caráter hiperbólico do roteiro, que busca no exageiro simbólico da invasão da civilização européia à civilização indígena brasileira, uma forma de exaltar o impacto causado na cultura indígena e no próprio índio da época, quando estes viram seu espaço invadido e destruído.

domingo, julho 06, 2008

Lost: Último Post do Ano

Antes de ser um fã de Lost, fui um telespectador atento como sempre procuro ser e que todas as terças-feiras, às 11 horas, estava presente no sofá a espera de mais um episódio. Foi justamente essa atenção e análise que me levaram a adimirar tanto essa série. Julguei por algum tempo que, por a trama ter cada vez mais espaço de si ocupado pelos mistérios e por todo aquele deslumbrante e criativo pano de fundo, a série esqueceria com o tempo de seus personagens e acabaria desenvolvendo sua estória de forma mais superficial, voltada para ação e mistérios. Eu via isso como um caminho natural, afinal, é fácil se perder em meio a uma estória tão complexa que terá 6 anos de duração.

No entanto, o caminho trilhado é completamente inverso. É adimirável como a série está cada vez mais voltada para os personagens e como tudo que ocorre ali está diretamente relacionado a vida destes, o que me certifica que Lost é de fato um sólido e bem-sucedido projeto. Mais impressionante ainda é ver a densidade com que a série vem se desenvolvendo; os novos, dramáticos e comoventes acontecimentos tem provado e aprovado a capacidade dos roteiristas e diretores de desenvolver essa estória com sensibilidade e delicadeza. Ver, por exemplo, os Oceanic's Six sair da ilha e tentarem seguir suas vidas guardando às duras penas os impactantes fatos do passado é comovente e emocionante, assim como o difícil percurso que estes personagens vêm trilhando.


There's no Place like Home - Parte I e II



Enquanto no momento final do último episódio da terceira temporada descobrimos que os flashbacks de Jack são na verdade flashforwards de seu futuro fora da ilha, no final dessa quarta temporada, a grande surpresa é substituída por uma eficiente ação e uma sequência de eventos impactantes durante todo o episódio.

Esta última parte de There's No Place Like Home tem início com a última cena da terceira temporada, revelando o que acontece após esse momento e mostrando mais uma vez a curiosa propriedade dessa série em resignificar suas cenas ao mostrá-las sobre nova perspectiva, seja por um olhar novo ou por apresentar pedaços a mais. Na ilha ou no tempo que julgamos ser o presente, os personagens estão frente a possibilidade de uma fuga da ilha, quando conseguem localizar o helicóptero para se locomoverem até o cargueiro. Jack e Sawier estão em busca de Hurley, o que ocasiona em mais um debate sobre Fé x Ciência entre Jack e Locke, mas agora com o primeiro levemente balançado em seu ceticismo. O médico, aliás, passa por uma mudança profunda nesse episódio, e o fato dele começar a "acreditar" somente ao ver uma ilha mover-se na sua frente soa bastante metafórico ao ditado "A fé remove montanhas", quando sabemos que parte da autoria do ato foi de John Locke. Descobrimos que Kate e Sayid desenvolvem um plano juntamente aos Outros para pegar Kiemy e sua tropa, além de resgatar Benjamin Linus. A cena da troca de tiros é bem atípica de Lost, mas muito bem colocada na trama; melhor mesmo é a briga "mata-ou-morre" entre os dois veteranos militares, Sayid e Kiemy, em uma cena muito bem editada, considerando o prazo mínimo de filmagem e as possíveis falhas decobertas apenas na pós-produção. Vale destacar também as ótimas inserções dos time-travelling bunnies, revelando rapidamente, em alguns eventos, a visão de outros personagens.

Mas como sempre, o melhor de Lost fica com o drama de seus personagens. Então, momentos como o de Sawier pulando do helicóptero para diminuir o peso deste e possibilitar o resgate, ou o descontrole de Sun ao ver a morte do próprio marido, são completamente dramáticos e comoventes. Não menos emocionante é a despedida de Benjamin Linus da própria ilha, já que este nunca mais poderá voltar ao lugar.

Concluindo a maioria dos arcos dramáticos abertos nessa quarta temporada, No Place Like Home é também um episódio que dá quase todas as respostas às questões abertas durante os últimos 12 episódios em relação ao resgate, fazendo a temporada fechar em si própria com solidez e coerência. Esse final de temporada marca também o momento em que quase não distinguimos o verdadeiro tempo presente, pela proximadidade temporal das cena na ilha com as das cenas dos flashforwards, chegando, ao fim do episódio, a nos fazer acreditar que a última cena, que é teoricamente um flashforward, seja na verdade uma cena do novo tempo presente que a série acompanhará nesta próxima temporada. Eu sei, é uma loucura!


Jack Shephard, o Herói Desgraçado

A princípio, pensei em usar como título "Jack Shephard, o Herói Trágico", porém de trágico Jack não tem nada. O destina não lhe pregou nenhuma peça e nem agiu de modo inexorável na sua vida; ao contrário, o médico cirurgião espinhal sempre teve o poder de decisão e foram justamente as suas escolhas que levaram-no ao seu atual fundo do poço. Três anos após o resgate, Jack se tornou um alcoolátra, depressivo, que se empanturra com os remédios que receita aos seus pacientes. Consumido pela mentira que ele mesmo criou após o resgate e que foi o principal conservador dela, no atual momento da série, Jack faz constantes viagens aéreas de Los Angeles à Sidney esperando que o avião caia no Pacífico. O herói enérgico, obsecado e controlador de um dia, em uma reviravolta enauseante, passou a ser a imagem do descontrole e arrependimento, sofrendo por sua fé tardia e não-cultuada.

Uma das maiores criações dos idealizadores de Lost foi com certeza a de um herói coerente à nossa época. Diferente do herói épico, que com toda a sua nobreza, honra e bravura, praticava seus heroísmos, Jack é apenas um médico que tem a função de salvar pessoas inerente a profissão. Mas não bastava apenas fazer do personagem um médico para transformá-lo em herói, era preciso criar nele motivações íntimas que o fizesse tomar, mesmo que superficialmente, atitudes heróicas e nobres em uma época de cinismo, em que essas palavras soam piegas.

Essas motivações estavam, então, na relação que Jack tinha com seu pai desde a infância, até a morte deste último. Criando sempre uma imagem paterna e inalcançavel de si para o filho, Christian Shephard mexeu e remexeu na auto-estima de Jack, tornando-o num eterno perseguidor da imagem inalcançavel e irreprodutível do próprio pai. Naturalmente, todo filho busca no pai o referencial, e a competitividade na relação paterna é algo comum; no entanto, a imagem denegrida de si e a postura de Christian potencializaram a busca de Jack à uma verdadeira obsessão. Crescendo nessa relação conturbada com o pai, Jack, na primeira oportunidade, toma dele o posto de cirurgião-chefe ao denunciá-lo por alcoolismo no ambiente hospitalar, e indiretamente acaba sendo o principal culpado pela morte do pai. Todas essas atitudes de Jack foram cometidas, não com maquiavelismo e racionalmente, mas quase que inconsientemente, como um Complexo de Édipo da fase adulta, em que o filho tenta tomar o lugar admirável e "intocável" do pai.

Mesmo conseguindo assumir esse lugar, Jack continua insistentemente correndo atrás de preencher o seu vazio, ainda precisa tomar decisões, salvar, concertar coisas, estar certo, ser o médico perfeito, igual a tudo o que Christian se mostrou ser na infância de Jack e o fez pensar que ele não era e nem poderia um dia ser. Para o médico, a situação de um acidente aéreo com muitos sobreviventes era perfeita, já para os autores, esse era o personagem perfeito que puderia assumir coerentemente a postura de herói. Mas talvez, no fundo, Jack não seja um herói honrado e corajoso, mas uma personalidade dilacerada que busca preencher a si mesmo. Uma busca que o leva a ignorar opiniões de outrem, a possuir uma relação quase doentia com seus pacientes e a querer concertar qualquer situação errada, mesmo que estas devam permanecer assim.

Completamente cético e entregue à respostas científicas, estar na ilha passou ser a fonte de outro conflito para Jack: acreditar ou não nos constantes indícios sobrenaturais. O percurso do médico passa a ser marcado pela ignorância desses fatos inexplicáveis e, unindo isso à luta para conseguir um resgate a todos, o personagem comete erros constantes e toma decisões equívocas, culminando em um resgate trágico ao qual ele foi responsável e que apenas 8 pessoas puderam sair, todas com a consciência doente por saberem que uma maioria ficou e por sustentarem uma grande mentira que, automaticamente, torna a vida pós-resgate pior do que a vida de náufrago. No último episódio da 4ª temporada, vemos esse Jack completamente perturbado, consciente de todos os seus erros, e agora, com uma nova chance de concertá-los. O personagem que antes era odiado por uma metade, apenas aceito por outra e que tinha seu brilho resumido apenas no fato de ser o protagonista, agora revela-se, ao meu ver, um dos mais coerentes e intrigantes da trama, alcançando Jonh Locke e Benjamin Linus, mas nem por isso um dos mais aceitos. E essa característica - possuir um protagonista não tão simpático - faz de Lost uma série um pouco mais incomum.

sábado, julho 05, 2008

Monografia, Ansiedade e Cinema

Eita, momentão! Outro dia estava caminhando normalmente, correndo atrás de cumprir com minhas obrigações, quando simplesmente caio em mim. "Acabou!". Isso mesmo, acabou! Minha graduação em Comunicação Social acabou, está no fim. Tenho cerca de 5 meses para terminar e entregar minha monografia, e finalmente, tornar-me um profissional de comunicação, um Radialista.

A certeza veio como um choque e cheia de uma forte ansiedade. O famoso "E agora?!" comum às pessoas que se formam já invadia a minha mente e o tempo se transformara em preciosidade, cada segundo passou a ser fundamental na definição dos novos rumos. Há cerca de 5 anos atrás, estava eu em uma simples sala de uma escola de Ensino Médio, muito bem concentrado nos planos que já traçava. Sempre fui assim, planejei tudo o que queria para o meu futuro desde os 17 anos, consegui cumprir alguns, outros realmente parecem estar fora de meu controle, mas não gosto de me entregar para essa idéia.

Naquela época, parecia tudo muito distante, mesmo que eu já desse atenção redobrada aos meus objetivos. Passei de primeira no meu vestibular, entrei no curso de teatro, me formei como Ator, mas veio o primeira dos empecilhos: não consegui transferir meu curso de Rádio e TV para a UFF em Niterói, como eu planejava. Isso só não se revelou algo tão ruím porque eu mesmo me dei conta de que não estava preparado, não era o momento.

Hoje, perto de me formar, sinto o tempo correr, tantas coisas a fazer, mas muito otimismo. Confio no meu taco e sei onde quero chegar. A ansiedade é inevitável, mas enquanto ela me consome, vou ao cinema e "morro" dopado por esse vício saudável.

sábado, junho 28, 2008

A Via Láctea

A cidade de São Paulo, como qualquer outra, é um organismo vivo, complexo, que caminha, se desenvolve e integra um conjunto de outros organismos na formação de um outro maior e mais complexo. Essa premissa é trabalhada em A Via Láctea, porém, com a palavra "organismo" sendo substituída por "universo" - ou galáxia, como a metáfora com a via láctea sugere - , pois esta última, pela sua definição, abrange infitamente um elemento e o torna, além de complexo, caótico. No filme, a Grande São Paulo é um dos personagens, e como tal, interage com todos os outros. É justamente através da interação entre cosmos (micros ou macros) que o filme desenvolve um argumento quase filosófico a cerca das diferentes perspectivas que podemos ter a cerca de cada um desses universos, seja a cidade, personagens ou a relação entre estes.

Toda essa idéia é construída no desenrolar da estória de um casal. Heitor (Marco Ricca) é um escritor e professor de literatura, que namora com Júlia (Alice Braga), uma estudante de medicina veterinária e ex-atriz. Em certa manhã, após uma discussão boba entre o casal em que Júlia decide que eles devem "dar um tempo", Heitor toma a decisão de voltar e concertar a relação, mas para isso, tem que atravessar São Paulo, lidando com os mais comuns problemas oferecidos pela cidade, como o trânsito engarrafado e pedintes.

Interagindo com o universo da cidade ao mesmo tempo que se encontra completamente imerso em seu próprio, Heitor é utilizado pelo roteiro como o principal ponto de partida e o referencial para a reflexão do público. Através do personagem, entendemos a relatividade da importância de seus problemas; então, se para Heitor a preocupação em retomar com a namorada é maior que tudo, quando o olhamos sob uma perspectiva mais abrangente - como quando o comparamos ao caos de um cidade como São Paulo ou à própria magnitude da Via Láctea - percebemos a insignificância do problema do personagem. Da mesma forma, as preocupações de Heitor se tornam infinitamente grandes quando as percebemos sob a perspectiva do verdadeiro "universo" que é a relação entre Heitor e Júlia.

Dedicada em desenvolve as personagens nos primeiros momentos do filme, a direção de Lina Chamie foi eficiente ao perceber que Heitor deveria ser um personagem central ao qual público deveria se identificar, servindo como uma referência, já que posteriormente este seria submetido a um processo comparatório, no qual suas experiências seriam percebidas por nós de acordo com a perspectiva proposta pelo filme. Um vez que o público assume a postura de Heitor, o roteiro e a direção partem para a construção dessas diferentes perspectivas. Ora olhamos a pertubação e ansiedade de Heitor para reencontrar Júlia como um grande problema, ora o vemos como apenas um "nada" em meio ao caos de São Paulo.

Mais interessante ainda é a forma que o roteiro encontrou de mostrar como o universo que é a cidade de São Paulo pode ser resignificado se o obsevarmos pelo ponto de vista de Heitor. Em certos momentos, é quase interpretável que a cidade se comunica com o personagem, mas na verdade, estamos tão imersos na visão de Heitor, nesses instantes pontuais, que, assim como este, intepretamos tudo que acontece no cosmo maior que é São Paulo como se fossem fatos estritamente ligados a relação de Heitor e Júlia. Então, quando o professor olha uma mensagem romântica em um outdoor eletrônico, este é levado automáticamente a lembrar de Júlia. E o filme é competente em aparentar que a cidade "age" intensionalmente, assim como às vezes achamos que os fatos do nosso dia-a-dia querem nos dizer algo. Nos levando a observar por alguns segundos a Via Láctea, o filme nos faz quase esquecer da existência tão complexa que é a relação do casal, já que a imensidão da galáxia indiretamente sugere isso, num momento em que o roteiro praticamente completa a sua idéia. Paradoxalmente, somos levados a perceber a vida também por um olhar bem singelo em outro momento, quando a câmera assume subjetivamente a visão do gato de estimação de Júlia.

O princípio de tudo, o romance de Heitor e Júlia, é também muito bem desenvolvido nos primeiros minutos de A Via Láctea. Escolhendo uma edição recortada e complexa, presenciamos primeiro a discussão do casal, para depois vermos como se conheceram e os dias em que estes estiveram felizes. Os melhores momentos do filme, no entanto, ficam mesmo com as descrições em off que os personagens fazem um do outro utilizando o linguajar típico de suas profissões (parte fundamental na composição do universo de cada um), dessa forma, enquanto Júlia descreve Heitor com um olhar veterinário e científico, Heitor faz o mesmo com Júlia, mas com um olhar poético, tornando esses momentos incrivelmente cômicos. A atuação da dupla, aliás, é impecável. Particulamente, acredito que Marco Ricca seja um dos atores brasileiros mais carismáticos na ativa no cinema nacional, enquanto que Alice Braga, além de bela, é muito convincente e profissional, sempre mostrando saber lidar com personagens secundários, entendendo a importância destes e, consequentemente, obtendo êxito ao criá-los. Além da sensação constante de que Heitor pode perder Júlia, Braga consegue em poucos instantes e sem nenhuma palavra nos mostrar o quanto o relacionamento significa para a personagem.

Com algumas cenas filmadas no importante Teatro Oficina, tentei olhar ao máximo para o cenário, afim de contemplar a visita surpresa, que quase esqueci a cena que se passava. Com a participação deste, que é um dos maiores símbolos do teatro nacional, o filme ganhou valores altíssimos em meu .Ponto-de-Vista. . E é esse aspecto de dialogar com as outras artes que torna A Via Láctea um filme mais admirável. A importância dedicada a trilha sonora do filme, que explora uma variedade imensa de gêneros musicais, influenciando pontualmente nas emoções dos personagens, é tão grande quanto a relevância dada a fotografia. Esta última, então, é parte fundamental na apresentação da cidade, com belíssimos quadros e imagens de São Paulo, e uma aparência quase sempre nublada, alternando com as cores mais quentes dos flashs mais românticos sobre o casal.

Encerrando o filme ainda dentro da temática proposta por este, os créditos nos são mostrados de maneira criativa, no qual cada um dos nomes da equipe surgem de dentro do nome anterior, seguindo a raciocínio lógico desenvolvido pela estória. E nada mais legal e generoso da parte da diretora Lina Chamie do que não intitular-se como a dona do filme, na típica frase "Um filme de...", mas responsabilizando, nos créditos, a equipe como um todo pela criação desse belíssimo longa.

domingo, junho 22, 2008

Sex and the City

Desde que passei a ter acesso a TV a cabo, à intenet ou a conversar com pessoas que acompanham um pouco da TV norte-americana, ouvi constantemente a respeito da fomosa série Sex and the City, e muito bem. Como alguém que desfruta um pouco dessa teledramaturgia, sempre tive um mínimo de curiosidade, mas não a suficiente para baixar a série pela internet, já que não possuia o canal ao qual era exibida. Com o lançamento do filme, foi mais que normal o retorno da velha curiosidade pela estória, agora mais forte por querer entender os motivos que levaram-na a ser adaptada para o cinema. Bom! Finalmente assisti, e vejo apenas um motivo para essa adaptação: bilheterias. Popular como foi enquanto série, e contendo uma estrutura e estória semelhante às bem-sucedidas comédias-românticas, Sex and the City sempre teve o potencial para torna-se um sucesso na telona. No entanto, a parte triste dessa história é que se o filme fosse uma espécie de episódio piloto da série, eu a esqueceria pouco tempo depois e viria a assistí-la apenas por acaso, em um desses tours pela TV a cabo. E tenho a plena certeza que as mulheres que estiverem lendo este texto estão argumentando que eu não entendo nada do universo feminino, e eu rebato: às vezes realmente não entendo as mulheres, mas se critico o filme, faço-o justamente para defender o universo feminino, pois sou convicto de que este seja mais rico que o mundo de Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha, ao qual pude visitar durante excecivas duas horas e meia.

Baseada no livro de Candace Bushnell e de mesmo nome, a série foi produzida entre 1998 e 2004 pela HBO e exibida no próprio canal (no Brasil, a série foi exibida pelos canais Multishow e Fox Life). A estória se passava em Nova Iorque e contava o dia-a-dia de quatro amigas através do olhar da simpática Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), focando nas relações íntimas e nos problemas tipicamente femininos das quatro quase-coroas (uma já é!), com cada episódio tematicamente organizado segundo as matérias escritas por Carrie na sua coluna do jornal The New York Star. O filme, que mostra o pós-seriado, tem início com um reencontro das quatro amigas. A partir daí, acompanhamos novas aventuras amorosas, nas quais Carrie Bradshaw decide se casar, Charlotte York (Kristin Daves) tenta ter seu primeiro filho, Miranda Hobbes (Cythia Nixon) enfrenta problemas com o casamento que 'esfriou', enquanto que Samantha Jones (Kim Cattrall) parece cada dia mais desestimulada com o casamento e seduzida pelo vizinho.

É difícil encontrar o culpado pelos equívocos ideológico de um filme baseado em uma série de TV que é baseada em um livro, sem ter assistido ao segundo e lido o último; não seria justo, pois não sei que tipo de modificações foram feitas na adaptação de um livro para uma série. Mas como o produtor/direto/escritor da série assume as mesmas funções no filme e possuíndo este a capacidade de melhorar a obra, posso atribuir-lhe culpa parcial pelos erros e acertos de seu primeiro longa-metragem. Trantando o universo feminino como se este fosse resumido apenas a grifes, amor (diga-se "caça ao príncipe encantado") e mimos, Michael Patrick King desenvolve o filme aos moldes de uma comédia-romântica. Sex and the City, enquanto tal gênero, até diferencia-se por fugir dos clichês e estar mais centrado nas aventuras sexuais e românticas dessas mulheres, deixando o par romântico condutor da estória de lado e evitando o clímax típico que envolve o moço correndo atrás da moça, antes que esta fuja de vez da sua vida (ou de Estado, como elas costumam fazer).

No entanto, o filme passa maior parte de seu tempo preocupado em nos mostrar o cotidiano consumista das personagens, que estão sempre preocupadas com suas roupas, jóias e homens. Como se estes fossem as maiores motivações de suas vidas, nem sequer somos bem apresentados às profissões de cada uma, tornando-as, a princípio, em figuras bobas e superficiais. A personagem de Parker, em especial, parece estar sempre preocupada em ter um belo e grande guarda-roupas para colocar suas infinitas vestimentas. Dessa forma, com quase meia hora de projeção, nenhum conflito é estabelecido, a não ser a disputa das personagens por uma jóia em um leilão ou a procura de Carrier e seu noivo por um grande apartamento em Nova Iorque. E não bastasse o "cotidianísmo" fútil da trama, somos obrigados a encarar toda aquele estilo de vida como se fosse o ideal de vida femino, como se todas as mulheres que se prezem tivessem que ser caçadoras do homem perfeito e loucas por roupas de grifes.

Até este ponto, está tudo bem, existem muitos filmes que pregam ideologias e modos de vida um tanto acefálicos. Mas o que há de mais ofensiva e nociva é a pretensa imagem do filme como se este fosse um produto que tratasse transparente e prioritariamente da vida feminina: seus problemas e conflitos; enquanto, na verdade, o faz em apenas alguns momentos pontuais do longa. Essa pseudo imagem atrelada aos valores deturpados que o filme prega, como consumismo exacerbado, um romantismo cego e a idéia errônea de sucesso, são capazes de confundir o telespectador menos desinformado. Admiro-me que, mesmo no atual contexto, em que as mulheres buscam sua liberdade e respeito, uma série com esse conteúdo (caso seja igual ao filme), que limita tanto as mulheres a escravas da necessidade de um homem e a pessoas inúteis que em nada se interessam pela realidade - a não ser, por modas e grifes - tenha feito tamanho sucesso.

A verdade é que, por trás da suposta mulher moderna de Sex and the City (refiro-me apenas ao filme), que fala livremente sobre sexo e aparenta ser mais independente do que nunca, há mulheres mimadas e imaturas, que não conseguem visualizar seu sucesso senão estando ao lado de um bom-partido (e que tenha um bom dote - interprete como quiser), que vivem frustradas e são incapazes de encarar situações difíceis com o mínimo de inteligência, sempre dramatizando excessivamente. Então, quando por acaso alguma dessas é traída ou abandonada no altar, a única atitude cabível na mente miúda dessas personagens é ignorar completamente o companheiro, como se este não merecesse expor o seu lado ou parecer para elas como uma pessoa que possue fraquezas - Claro! O homem têm que ser perfeito na lógica dessas quarentonas. Mais absurdo ainda é a definição entre homens bons e homens maus que rodeia a cabeça das personagens, reduzindo estes a uma simples dicotomia, assim como a vida destas a algo semelhante a um conto de fadas, quando acreditam que o homem bom e perfeito vai aparecer um dia.

Há no filme, porém, qualidades inquestionáveis, como o humor constante e bem elaborado, extraído de situações simples e geralmente beneficiadas pelas boas atuações. Há cenas hilárias, como a de Carrier que, ao descobrir algo desagradável em uma festa de dia dos namorados, tem sua saída dramática dificultada pelos enfeites da festa; ou então, o momento em que a mesma personagem, necessitando urgentemente de um celular e recebendo um I-Fone no lugar, descobre não saber usar o aparelho. Novamente "porém", as tiradas cômicas em certos momentos ultrapassam o limite do bom senso e caem em piadas bobas como as personagens; então, situações como a de Charlotte York (Daves), passando por séria crise intestinal, soam fortemente forçadas.

Com poucos momentos dedicados a Charlotte York durante o filme, Kristin Daves pouco pode fazer, e sua personagem, que a princípio parecia-nos expontânea e simpática, aos poucos soa irritante e artificial, protagonizando alguns dos momentos mais constrangedores do filme - em algumas cenas, a atuação de Daves pouco condiz com o clima da situação proposta. Já Sarah Jessica Parker, parece a vontade com sua personagem, sabendo lidar muito bem com as cenas cômicas; enquanto isso, Kim Cattrall toma, com sua personagem Samantha Jones, o posto abandonado por Kristian Daves; e Cythia Nixon faz de Miranda Hobbes a personagem mais complexa do grupo, pois, aparentando, a princípio, ser a mais séria e racional, aos poucos presenciamos as atitudes mais imaturas e impulsivas da personagem, o que não deixa de ser uma curiosa contradição. Quanto ao elenco secundário, o ator David Eigenberg faz um ótimo trabalho com seu carismático Steve Brady, enquanto Evan Handler, interpretando Harry, é insistentemente ignorado pela câmera, como se esta estivesse evitando revelar a limitada beleza do ator, chegando a constranger com alguns cortes de fuga.

Mesmo que adiando excessivamente o reencontro entre o casal principal da trama e prolongando a estória, o filme possui um desfecho até interessante para alguns personagens, assumindo pelo menos por esses instantes aquilo a que se propõe sempre e quase nunca cumpre, ou seja, trabalhar o universo feminino. Lembro que pude ouvir um coro feminino suspirando um "ownnnnnnnnnn!" tipicamente americano, quando um personagem presenteia inesperadamente sua amada Carrie com a cobertura de um apartamento em Manhattan, logo no início do filme, revelando o envolvimento e a identificação do público com as personagens. Tenho certeza que a maioria das mulheres achará tudo isso muito lindo e aplaudirá o filme achando que este é sincero ao universo da mulher, não percebendo que, por trás da suposta mulher moderna de Sex and the City, há um estilo de vida, que se seguido por qualquer uma, nada mais serão do que mulheres com quadros de histeria, constantes frustrações, carência excessiva e comportamentos imaturos (tudo em grande estilo e elegância); e claro, não posso negar, um belo e cheio closet.

segunda-feira, junho 16, 2008

O Incrível Hulk - Primeiras e Sensíveis Impressões

Ao terminar de assistir ao Incrível Hulk, algumas idéia ficaram um tanto confusas em minha mente. Como um filme que, explorado tão racionalmente, pode ganhar tamanha viceralidade? Esse foi o caso do primeiro filme sobre o herói. Racional, buscando uma tematização e desenvolvimento de um estilo denso, Ang Lee fez do primeiro Hulk um filme reflexivo a cerca de seu personagem e situação, mas ao mesmo tempo conseguindo desenvolver momentos bastante emocionais, mesmo que atípicos para esse tipo de produção. Já em O Incrível Hulk, somos levados a sentir mais o filme que pensar a cerca deste, igualando a série a outras como Homem Aranha e X-Men.

A grande confusão se deu justamente por eu ter recepcionado de forma oposta. Hulk foi, para mim, certamente mais viceral e emocionate que este novo O Incrível Hulk. Não entendo bem o porquê, mas provavelmente os fatores dessa inversão estejam diretamente ligados a predisposição emocional, o que me leva a entender mais ainda como a percepção que temos de um filme pode variar de acordo com nossa situação (emocional) e referências pessoais.

A experiência com essa continuação foi mais fria e distante, e como a mudança de atores, alguns momentos foram verdadeiramente difíceis de se sentir. Quase não consegui acreditar no relacionamento que já havia ocorrido entre Bruce Banner e Betty Ross, agora, respectivamente interpretados por Edward Norton e Liv Tyler. Sem contar, também, que o caráter digital do personagem-título sempre é mais um entrave nesse processo de imersão minha, enquanto um espectador, mesmo que os efeitos efeitos de criação deste tenham se superado (vide a imagem do post).

O primeiro ato do filme, quase completamente filmado na Rocinha, no Rio de Janeiro, foram interessante e agradáveis de se ver pela forma dedicada e cuidadosa com que a favela foi mostrada, evitando deslizes e momentos incoerentes. No entanto, os mínimos momentos estranhos passados no ambientel foram o suficiente pra que eu estranha-se. Interessante perceber também que, pelo cenário mais próximo de minha realidade, senti-me mais dentro da estória, o que revela-me mais outro ponto interessante: o fator de o cenário ou locação ser um ambiente já reconhecido ou comum no dia-a-dia do espectador influi suficientemente na forma deste se colocar e recepcionar a estória, na empatia criada com a situação.

Um post de análise mais crítica sobre O Incrível Hulk já está pronto. Em breve postarei, mas antes alguns outros textos serão postados.

sexta-feira, junho 06, 2008

Paranoid Park - Primeiras e Sensíveis Impressões

Tudo que mais adimiro em um filme, Gus Van Sant desenvolve ao máximo em seu Paranoid Park. Com um desenvolvimento absurdo do protagonista, uma trilha obsecada em pontuar as emoções do personagem, uma edição extremamente ousada e com recorte complexos (mas não confusa), o longa-metragem trata-se de uma experiência incrivelmente sensível vivida pelo público, através do personagem principal.

Seja pela minha vivência como ator ou pela curiosidade de colocar-me em situações peculiares, filmes dedicados em nos fazer enxergar e vivenciar através do olhar de seus personagem sempre me facinaram. Em Paranoid Park, somos levados a difícil situação em que Alex, um jovem eskatista de 16 anos, ver-se envolvido na morte de um segurança. O peso carregado pela culpa e o medo de ser descoberto, ao longo do filme é desenvolvido através da posição sempre intensional e informativa da câmera, pelos slowmotions que nos dão o tempo necessário para penetrarmos na mente do personagem e entendermos a sua situação emocional, contando ainda com a ajuda da trilha sonora.

A edição altamente recortada torna a experiência mais complexa, fazendo, a princípio, com que interpretemos as cenas de forma peculiar, para posteriormente descobrirmos os reais significados de cada uma. O filme, em si, revela-se aos poucos, para no fim, descobrirmos de forma completa e clara a estória. Já a trilha sonora, sempre voltada para as situações emocionais do personagem, varia quase que constantemente, mostrando a verdadeira montanha-russa emocional vivida pelo protagonista nessa peculiar circunstância.

Paranoid Park foi o primeiro filme de Gus Van Sant ao qual assisti, e mesmo estranhando a força expressiva e o modo diferente de se comunicar do diretor, estou mais que disposto a embarcar em outras experiências pensadas por este. Visivelmente tão obsecado quanto eu pelo ato de "experimentar" no cinema - tanto como público quanto como artista - Gus Van Sant já é considerado por mim um ídolo, afinal, ele desenvolve ao máximo tudo aquilo que valorizo em uma obra cinematográfica.

Update: Descobri que já havia assistido a três filmes dirigidos por Gus Van Sant. Um dos curtas de Paris, Te Amo, o Le Marais; e os longas Gênio Indomável e Psicose. Enfim, dessa forma descubro uma obra não tão bem sucedida pelo cineasta, pois a refilmagem do clássico de Hitchcock é pálida perto do original.