terça-feira, junho 28, 2011

Sobre anacronismo e hipocrisia

Quem é jovem nestas primeiras décadas do século XXI sabe: existe uma atenuada tendência por parte de indivíduos saudosistas em se criticar as novas gerações enquanto se exalta os magnificentes feitos do passado. Por intermédio desta perspectiva, a contemporaneidade é lamentável, os jovens são vazios e despolitizados, as artes estão sofrendo uma crise criativa e sucumbem completamente ao mercado, o jornalismo está desvirtuado pela demasiada efemeridade da informação, e a superficialidade reina num mundo cada vez mais fadado ao fracasso completo da intelectualidade humana. Tudo assim, em uma ótica profundamente radical e apocalíptica, de uma postura de inadaptação completa aos tempos modernos. Quem de nós, jovens ou não, nunca cruzamos com um argumento assim?

Compreensível pode até ser essa postura, pois não acredito que na história da humanidade passamos por mudanças tão profundas que envolvem um complexo de fatores em espaço tão limitado de tempo como as que acontecem desde o século XX. E essa geração que muito fez em nosso passado sofre inéditos choques culturais. Os meninos e meninas que no passado lutaram contra ditaduras, engajavam-se em movimentos sociais, viveram a efervescência do rock ou um dos melhores tempos do cinema, e tinham um forte interesse político, hoje têm de lidar com a atualidade branda, com outros valores, nova dinâmica de vida e enxergar os jovens atuais gostarem de um Restart, na música; ou Piratas do Caribe, no cinema; e nada de política, só redes sociais. Mas a realidade atual é realmente essa? Não existe uma simplificação excessiva? No calor do momento, há quem consiga enxergar com clareza a nossa atual circunstância sem sequer necessitar de um distanciamento histórico mínimo antes de um julgamento?

Já me deparei com pessoas assim, repletas dos seus discursos anacrônicos e generalistas, e o que me levou a escrever este post foi justamente o teor em geral cruel e acusatório das críticas a esta nova geração que, aos tracos e barrancos, sobrevive às transformações constantes e frenéticas. Falam dos jovens como se estes tivessem brotado da terra, já educados por seres inferiores do submundo, e dotados de uma genética defeituosa. Referem-se a contemporaneidade como se esta tivesse ocorrido por um acaso, de repente, como de um Big Bang ou de um estalar de dedos de um ser superior ao ordenar que haja as trevas. Para eles, o passado é tão glorioso que não deve ser relacionado com o presente infame, com esta Idade Média pós-moderna - muito menos em uma relação de causa e efeito. Nunca, isso é um absurdo! Os filhos da geração passada são o que são porque biologicamente falhos. Ninguém tem culpa senão o próprio jovem acerebrado que nasceu com massa encefálica a menos, e, por isso, deve ser condenado e relegado a críticas eternas - assim soa o arrogante discurso de quem critica radicalmente a juventude de hoje, discurso este que serve apenas para paralisar, evitar trabalhar as possibilidades desta geração, e expressar um sentimento que mais parece dor de cotovelo.

Vídeo: Simetria

Assisti a esse vídeo no blog Diário de Bordo, do Pablo Villaça. Achei o conceito muito interessante por criar uma espécie de split screen (divisão de tela), fixa na tela, no qual as imagens de ambos os lado constantemente se contrapõem, completam-se, igualam-se, opõe-se ou traçam uma relação de causa e efeito.



Symmetry from Everynone on Vimeo.

terça-feira, maio 03, 2011

Sobre a morte de Osama

É fato que toda essa caçada a Osama Bin Laden, que levou a sua morte, está intrinsecamente ligada à política belicista norte-americana e ao famoso slogan "guerra ao terror" que, em diversas ocasiões, não passou de desculpas para a busca de interesses próprios em terras estrangeiras. No entanto, há uma grande confusão: mesmo que haja distorções nos ideais políticos e militares dos EUA, e que o país tenha conquistado com isso a antipatia e xenofobia de boa parte do globo a respeito de sua prepotência e não raras violações de direitos internacionais, a operação que terminou na morte de Osama foi sim necessária e fundamental.

Há quem diga que assassinar o terrorista foi um erro, uma vingança que não compensará as perdas do 11 de setembro e de outros ataques. Outros chegam a dizer que os EUA mereceram os ataques terroristas e torcem o nariz para a conquista de Obama. Mas a questão fundamental é se seria certo esquecer todos os atos terroristas e deixar tudo como estar, não é justo combater um alucinado que atenta contra a democracia e que matou quase 3 mil pessoas em um único atentado? A letargia ou inércia diante de terroristas não seria um estímulo ou alimento a estes?

Mesmo que consideremos toda a história atual dos EUA, as suas constantes intervenções abusivas no cenário mundial, a manipulatória "guerra ao terror" e política do medo, e o conservadorismo religioso, ainda assim a caçada a Bin Laden é um ato correto e justo, como seria se fosse o caso de qualquer outro país - mesmo que por trás das ações do governo norte-americano haja outras intenções. Abominável e condenável é usar essas motivações afim de manipular a população, o que já fizeram os republicanos no governo Bush.  Erros a parte dos EUA, a luta contra o terrorismo e a busca por justiça tem de existir; caso contrário, o caminho ficará livre pra qualquer outro terrorista armar sua cena. Portanto, particularmente, criticar a morte de Bin Laden é estar apontando como um erro o fato errado.

Update: E dizer que Osama não morreu é tão especulatório e conspiratório quanto dizer que o homem nunca foi à Lua. Principalmente nos dias de hoje, em que documentos secretos são publicados quase todos os dias.

Update 2: Sabemos da quantidade de interesses que existem por parte dos EUA em guerras como a do Iraque e Afeganistão. Em suma, o que digo nesse texto é que a morte de Bin Laden é um fato positivo, mesmo que com pouquíssimo efeito; mas não necessariamente concordo com as posturas assumidas historicamente pelos EUA.

Update 3: A cada nova notícia sobre esse capítulo da História, percebo o quão complexa é essa questão. Sou a favor do combate ao terrorismo, todo e qualquer país deve luta e buscar por justiça. No entanto, a CIA revelou recentemente que Osama estava desarmado no momento da emboscada, que as informações que levaram o exército americano ao paradeiro do terrorista foram obtidas através de técnicas de torturas, e também que a soberania do Paquistão não fora respeitada. E se tem uma coisa perigosa, que pode gerar novos conflitos, ou pior, tornar esse mundo menos seguro, é o desrespeito às leis internacionais. Por outro lado, foi o Paquistão que saiu em maus lençóis nessa história toda.

Um terrorista morreu, mas as leis internacionais não foram respeitadas. Acho que não caminhamos muito!

sexta-feira, abril 08, 2011

A Chacina no Rio Não é uma Questão Sem Resposta


Não damos ainda a devida atenção à saúde mental. Falamos muito de ir ao médico, prevenir-se, cuidar da saúde física, mas muito pouco sobre a importância da saúde mental, da análise, do autoconhecimento, e de uma espiritualidade. E quando falo de espiritualidade não me refiro a religião, até porque considero as religiões, ao contrário da fé, um malefício a mente de qualquer pessoa. Trato aqui sobre o que para uns se chama evolução espiritual, e para outros, uma vida psíquica mais saudável. Para mim, saúde mental mesmo.

Em geral, a primeira vez que um indivíduo visita um psicólogo na vida é quando sofre algum problema de depressão, ansiedade e, em raros casos, na infância, quando de algum comportamento estranho. Saúde mental, na mente atrofiada de muitos indivíduos, é coisa para doido, drogados, traumatizados e desequilibrados. O senso comum e o preconceito ridículo que existe contra deficientes mentais, psicóticos e indivíduos viciados se estendem para além dos pacientes e atinge o próprio segmento da saúde, a psicologia e as instituições psiquiátricas, que geralmente são associadas aos casos mais graves de deficiência ou transtornos mentais. Seguindo essa linha de raciocínio comum, ligar saúde mental a loucura grave e irreversível seria o mesmo que achar que hospital é lugar de pessoas em fase terminal.

Há aquelas pessoas que nunca foram sequer a um psicólogo, a maioria. Estes nunca passaram por uma avaliação da mais básica, mesmo que em sua vida pessoal tenham sofrido as situações mais trágicas, tenham seqüelas que nem sabem que possuem, tenham sofrido pressões horríveis durante a vida, sejam acometidas por uma idéia preconceituosa ou fóbica. O primeiro empecilho é o difícil acesso ao serviço, pois tanto é caro como a população não tem condições financeiras de usufruí-lo. O segundo problema reside na falta de políticas públicas que aumentem a quantidade de serviços gratuitos ou públicos de boa qualidade. E por último, temos o preconceito e o senso comum que está mais atrelado ao medo e ao receio do indivíduo em se associar, mesmo que distantemente, a um doente mental do que a uma simples falta de informação.

Não existe uma educação que ensine qualquer pessoa a viver bem, mas existe o autoconhecimento, o aconselhamento, a prevenção, o desabafo, a superação, mecanismos que, pelos quais, podemos transcender questões que, na maioria das vezes, não conseguiríamos fazer sozinhos. Existem muitos potenciais psicopatas e sociopatas por aí, assim como existem psicóticos e neuróticos aos montes. De acordo com a psicanálise (e me corrija algum psicanalista, caso eu esteja errado), somos constituídos de uma dessas três estruturas: neuróticos, psicóticos e perversos. De pelo menos uma você não escapa.  Quando inconscientes de nossas próprias questões, somos todos uma bomba-relógio, seja para cometer uma simples e singela auto-sabotagem ou para entrar numa escola matando crianças. Isso, claro, considerando as idiossincrasias, o universo de cada pessoa e até as suas heranças genéticas.

Portanto, não acho essa tragédia ocorrida ontem no Rio um simples fato aleatório, uma questão sem resposta, um acontecimento sem explicação, como muitos pregam perplexos. O assassino teve uma história, é filho de uma mulher esquizofrênica, carregou essa herança genética e não possuía um acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Vinte e três anos é  um tempo mais que suficiente para se descobrir um caso de esquizofrenia previsível e mantê-lo sobre controle.

Penso que, assim como não temos a educação ambiental ainda como um eixo na nossa educação - o que é uma prova grandiosa da nossa falibilidade -, ainda somos ignorantes o suficiente para, óbvio, ignorarmos a necessidade de um acompanhamento psicológico a todo e qualquer cidadão. É uma questão de saúde! Isso não acabaria com os atos violentos contra o próximo ou contra si mesmo, mas diminuiria, e muito, esses casos, além de contribuir consideravelmente pra qualidade de vida. Mas entramos aqui em outra questão: como podemos ter uma tão comumente desprezada saúde mental se nem temos ainda um sistema de saúde que cuide razoavelmente ao menos do nosso bem mais valorizado, o corpo? Mas o intuito desse texto, acredito, concluí: o que ocorreu ontem no Rio de Janeiro tem sim uma resposta, e é a que a maioria não quer enxergar.

quinta-feira, outubro 28, 2010

Toy Story 3

Toy Story 3 (EUA, 2010), escrito e dirigido por Lee Unkrich, com Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Ned Beatty, Don Rickles, Michael Keaton, Wallace Shawn e Jodi Benson.

Eu tinha apenas onze anos quando assistir a Toy Story pela primeira vez. Foi a primeira grande animação feita inteiramente por computação gráfica e apresentando um mundo de forma tridimensional. Mas não era apenas esse caráter tecnológico do desenho que encantava as platéias e profissionais de cinema no mundo inteiro, essa animação tinha mais, possuía divertidos e marcantes personagens, um roteiro incrivelmente amarrado e sensível, ótimas tiradas cômicas, um visual fabuloso, e uma história que agradava das crianças aos avós destas. E foi a Pixar, com seu Toy Story, quem inaugurou o gênero Animação como o conhecemos hoje.

Se no primeiro filme da trilogia descobrimos que bonecos têm vida própria e são completamente dependentes do afeto de seus donos, a ponto de um novo boneco de uma criança se apresentar como uma ameaça para os veteranos desta, no segundo filme acompanhamos a angustiante descoberta desses personagens de que eles podem ser descartados por seus donos. Logo, em Toy Story 3, os brinquedos de Andy encaram a possibilidade de serem abandonados, já que seu dono cresceu e vai para a faculdade. Esse temor e sina são trabalhados de forma profunda e sensível na trama, através dos personagens Woody, Buzz e os outros brinquedos que já conhecemos.

Com o agora jovem Andy já prestes a entrar na faculdade, os brinquedos começam a se questionar sobre qual será o destino deles. Acidentalmente doados a uma creche, os personagens se encantam com a aparência do local e a perspectiva de que lá sempre serão úteis às crianças. Por saber que a doação não passou de um engano, Woody foge e tenta retornar para a casa de seu dono antes que este vá embora. Enquanto isso, Buzz Lightyear e os outros brinquedos de Andy descobrem a terrível realidade da creche, inclusive a de que eles não podem sair de lá.

O filme abre com uma cena divertidíssima em que vemos uma aventura dos brinquedos imaginada (e brincada) por Andy, quando este ainda era uma criança. A sequência serve como um eficaz contraponto a situação que se segue. Desejando chamar a atenção do seu dono, os brinquedos, liderados pelo "caubói" Woody, bolam um plano para que estes sejam vistos por Andy dentro de um baú em seu quarto, e assim, surja uma pequena possibilidade do jovem retomar o interesse em brincar. E claro que o plano não da certo.

Explorando o drama e os conflitos desses brinquedos diante da dúvida a cerca de seus destinos, o roteiro de John Lasseter, Andrew Stanton e Lee Unkrich é brilhante ao retratar a questão quase existencial desses personagens de forma incrivelmente delicada e sutil.
Logo, não deixa de ser comovente presenciar a situação de submissão deles a seu dono, que temem ser jogados no lixo por não serem mais úteis. Mesmo que esses brinquedos tenham como objetivo de vida servir a sua criança, buscar o próprio destino que não seja um lixão acaba se apresentando como uma possibilidade, e implicando em conflitos internos riquíssimos para esses personagens.

Enquanto Woody toma, na história, a posição de boneco fiel ao seu dono, Lotso assume o oposto, e ganha o posto de personagem mais ambíguo e complexo do filme. De aparência amigável e todo cor-de-rosa, o ursinho Lotso se revela, no decorrer da trama, um brinquedo cínico e manipulador capaz de tornar o ambiente da creche em uma prisão para todos os brinquedos de lá. Rivalizando diretamente com a comovente cena de Toy Story 2 em que a "cowgirl" Jessie relembra os momentos que teve com a sua dona, o sombrio flashback de Lotson explica as razões e os traumas que o tornaram em um urso de pelúcia cruel.

Repleto de cenas de ação empolgantes e muitíssimo bem elaboradas, Toy Story 3 assume um ritmo mais veloz de narrativa, intercalando cenas importantes e intimistas de desenvolvimento das personagens com sequências tensas e sombrias. Como é de praxe, a Pixar simplesmente arrasa nos detalhes da animação, desde os cenários complexos como a creche, passando pela variedade de brinquedos, até as expressões das personagens. A qualidade tecnológica da imagem possibilita efeitos mais convincentes e gráficos mais reais; além disso, a direção de Lee Unkrich fez um trabalho excepcional na concepção de muitas das cenas, utilizando marcas e características de gêneros cinematográficos nas composições, por exemplo, de momentos como aquele em que vemos por fora de uma máquina (de guloseimas) a sombra de personagens através da estrutura externa do objeto, semelhante àquelas cenas de filmes noir e de espionagem onde os bandidos estão reunidos em tono de uma mesa jogando baralho, banhados por uma luz que irrompe na escuridão do lugar. Dessa mesma forma, algumas sequências são tão lúgubres e tensas que mais parecem tiradas de um filme de terror, como aquela em que bebês brincam violentamente com os brinquedos novos da creche ou o momento em que dois personagens são perseguidos por um bebê de brinquedo.

Mesmo assim, Toy 3 consegue ser tão ou mais engraçado quanto os seus predecessores. Cenas como a da versão um tanto caliente do Buzz Lightyear, ou aquelas envolvendo a Barbie e o Ken, divertem e dão o alívio cômico necessário a trama. Também não deixam de ser divertidas as referêcias a elementos dos filmes anteriores, a exemplo, "O Garra". Da mesma forma, as referências a filmes foram inseridas de forma orgânica, até mesma a já batida alusão a Missão Impossível funcionou perfeitamente sem que soasse gratuita. Desenvolvendo uma tensão crescente, a última meia hora da animação dá conta de aprofundar os conflitos e a premissa até o limite, culminando em uma emocionante sucessão de eventos digna de um capítulo final de uma trilogia.

Por mais que Toy Story se trate de uma animação e que carregue, por isso, um aspecto de ludicidade e infantilidade, a série conseguiu em todos os três filmes desenvolver de forma eficiente o potencial dramático da premissa elaborada. Isso, aliás, tem se revelado como uma característica desse contemporâneo gênero cinematográfico, que, por ter seu humor acentuado, trabalha o drama dentro de uma sutileza inteligente. Toy Story 3, porém, não hesita em desenvolver ao máximo os aspectos sombrios e comoventes de sua própria história, enquanto consegue divertir e encantar. Teremos aí mais um clássico do cinema?

Cotação: Excelente

quarta-feira, outubro 13, 2010

Meu Puxadinho, Minha Vida

Não costumo postar sobre política no meu cantinho de cinema, mas esse blog acaba por refletir a realidade e o que se passa em minha mente. Impossível sair ileso das eleições, e o principal órgão lesado é o cérebro. A cada canção de campanha divulgada em carros de som, um agrupamento muito importante de neurônios são dizimados de nossas cabeças.

Mas estamos no segundo turno para a presidência do país, a propaganda é branda e repleta de melancolia. Dois lados, duas campanhas. De um lado, Dilmão, mulher de culhões, a quem boto fé, ao contrário de boa parte dos brasileiros que, de tantas eleições consecutivas, perderam parte da memória e lembram apenas do passado imediato de oito anos atrás. Antes disso, aparentemente nada mais. Do outro lado, Serrinha, homem de voz mansa, circunspecto, mas contraditoriamente um poço de rispidez e impaciência. Ele só fala de saúde, Lula e faz uma campanha que não tem muito a ver com os ideais de seu partido. Claro! Em tempos de crise econômica, revelar tendências neoliberais é cometer suicídio eleitoral partidário.

Mas foquemos mais ainda em Serra. Sua já famosa declaração mais que reveladora (da sua visão de mundo) feita no debate dos candidatos a presidente do segundo turno, na Band, mostra o quanto ele seria um bom presidente (dos ricos). Na dita declaração, Serra afirma que, enquanto Ministro do Planejamento, sua grande contribuição foi aumentar o crédito dos materiais de construção para que a população pudesse "construir seus puxadinhos", essa foi sua defesa contra a acusação de que era contra o programa Minha Casa, Minha Vida. É, isso é que é uma visão elitista e preconceituosa do mundo. Para o pobre, basta um puxadinho, apenas isso.

terça-feira, outubro 12, 2010

Minha História de Vendedor

Conseguir um emprego na área de Comunicação Social, em São Luís, não é fácil. É currículo pra cá, e é currículo pra lá, você faz verdadeiros passos de dança distribuindo esses documentos que pouco importam na cidade onde quem te indica é quem te atribui menor ou maior credibilidade. Constrangedor. Nesse tenta disso e tenta aquilo, já caí em armadilhas como reuniões de recrutamento de vendedores de Erba Life, mas também dei entrevistas e passei por alguns processos seletivos interessantes, sem muito sucesso.

Na minha última grande oportunidade, fui selecionado para trabalhar em uma multinacional misteriosa, onde eu seria vendedor em eventos e exposições de "obras" vindas de Londres e Madri, nas quais eu poderia ter alto rendimento financeiro. Fiquei empolgadíssimo. Imaginava-me estudando obras de artes plásticas e convencendo granfinos a comprar quadros maravilhosos produzidos por artistas renomados da Europa.

(Uma pausa para que você ria por dentro)

Na primeira reunião após eu ter sido selecionado, descubro que a empresa é a Barsa e que eu estava sendo contratado para vender livros e cursos de língua estrangeira. Tudo bem! O sonho se desfez, mas até gostei quando soube o valor da generosíssima comissão por produto. Seria uma oportunidade única de, de repente, iniciar um investimento financeiro que, num futuro, pudesse me possibilitar fazer os cursos que idealizo. Arrisquei na Barsa, hoje estou um vendedor. Quem diria! Não tenho vergonha desse trabalho, é algo provisório, que alguma coisa vai me ensinar. Não vendi nada ainda, mas já pude conversar com umas setenta pessoas dessa ilha. No meio dessa gente toda, em uma determinada agência de advocacia, num determinado prédio comercial, em um determinado bairro, cruzei com a pessoa que considero a mais pedante e mal educada com que já troquei palavras.

De nome feio e com pretensa internacionalidade, o homem, que devia ter seus 30 a 40 anos, respondeu à minha apresentação básica de representante da Barsa e ao meu anúncio do material de capacitação em língua estrangeira, com palavras desafiante, intimidadoras e pouco educadas, em tom de humilhação: "Aqui ninguém precisa de língua estrangeira. Eu sou formado em Oxford, morei anos na Inglaterra. Falo mais de 3 línguas e ainda ensinaria o teu professor de inglês a falar a língua direito".

Sabendo que o dever de um vendedor é o de vender benefícios, o que poderia eu oferecer a um homem tão bem instruído? Talvez um pouco de educação, mas isso a Barsa vende em produtos infantis. Surpreso, claro, coloquei no comando um certa personagem de vendedor, que venho desenvolvendo como forma de superar minha timidez e insegurança. Recordei-me, então, dos informativos cursos dados pela técnica e bem sucedida equipe paranaense de vendas. E assim respondi com entusiasmo: "Parabéns! Isso é muito bom! São de pessoas assim que nós, da Barsa, gostamos de atender". Mentira! Mas era exatamente o que eu deveria dizer. Outra opção seria a de sair bruscamente.

Para o espanto do homem de aparência marcial e impiedosa, reagi com completa naturalidade e segurança. Minhas congratulações ao seu magnífico repertório de conhecimento soaram quase verdadeiras até para mim mesmo. Desmantelado por constatar que a superioridade divina dos indivíduos formados em Oxford em nada me intimidara, o Gentleman em pessoa tentou se mostrar inacessível, afirmando que não havia tempo algum na agenda dele para que eu pudesse apresentar meu produtos, pois ele é "um homem muito ocupado". "Ok!", pensei!

Com o objetivo de conseguir um espaço para mostrar outros materiais a ele, revelei, então, que sou um representante da Barsa. "Barsa?! Já tive várias edições, elas eram muito boas. Mas hoje a Barsa está completamente desatualizada". "Não, senhor! A Barsa, hoje, está completamente reformulada. Além dos dezoito volumes em livros, ela possui ainda um DVD-Rom multimídia com todo o conteúdo da enciclopédia, fora o Portal na internet, atualizado semanalmente". Constatei, assim, um exemplo de ignorância e desinformação em um filho de Oxford na frente de suas companheiras, a recepcionista e a sua aparente namorada.

Já sem graça, o gentleman decidiu me atender (nem sei por que insisti), mas sob a condição de ser um horário marcado. "Tal dia, às oito horas em ponto. Te dou dez minutos para me convencer desses produtos. Tá bom, quinze!", ele me pressionou, agora menos cruelmente ."Ok, pode deixar, horário marcado. Até mais, Dr. Gentleman. E obrigado pela atenção!".

Não imaginava que existissem realmente pessoas assim tão crentes de sua superioridade em relação a outras pessoas. Pensava que esse tipo patológico de gente existisse apenas no cinema e na literatura mesmo, ele é quase um clichê. No entanto, é um grande paradoxo que ele tenha a necessidade de se exaltar dessa maneira; quem é, apenas é, e está seguro disso. Talvez ele seja, na verdade, mais frágil do que aparenta.

A minha aposta para o dia marcado? Ele vai comprar a Barsa Luxo, a mais cara, apenas para mostrar o seu poder de compra. Espero que tenha uma platéia na sala do Dr. Gentleman, assim ele vai querer fazer um espetáculo de exibicionismo maior.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Meu Gosto pelo Novo

Particularmente, acredito que se algo não está dando certo deve ser mudado. Acho que essa idéia, que sempre esteve presente na minha mente e fez de mim quem sou, é que, desde criança, fez com que eu não me identificasse com muitas coisas daqui, do Maranhão. Gosto de poder experimentar o novo, ir a lugares diferentes, comer algo que nunca havia experimentado, chocar os sentidos, inverter a realidade, avançar sem saber direito para onde ir. O Maranhão é um péssimo lugar pra se viver essas coisas.

A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, os mesmos jardins, tudo é igual, mas estou triste. Por que será?! Ouço constantemente o próprio maranhense dizer que vivermos em um lugar provinciano, mas essa mesma pessoa é cheia de idéias retardadas, posições anacrônicas, auto censuras, e satisfações pelo mesmo do mesmo. O novo não pode ser expectado porque não há parâmetros na cabeça de quem se enclausura nessa prisão da mesmice. Parece que ser maranhense é estar fadado a essa condição.

Um dia vou embora dessa terra onde tudo é igual. Como um internauta disse, "o Maranhão tem um grande passado pela frente". E de passado tenho horror, principalmente quando ele é ruim.

quarta-feira, setembro 29, 2010

Imagens do Exílio

Ao mesmo tempo em que o Brasil sofria com os traumas políticos do passado, o brasileiro sentia a decepção de sua primeira empreitada democrática ruir com o presidente Collor, e como consequência, sua auto-estima era cada vez mais afetada. O cinema nacional, intrinsecamente a esse contexto, se encontrava em uma profunda crise. Com a Embrafilmes fechada pelo então presidente, a quantidade de filmes produzidos por ano caiu a quase zero e projetos foram cancelados. O cinema nacional estava, assim como o país, completamente desacreditado em si próprio.

Refletindo a história que se escrevia, o cinema brasileiro veio a ter suas primeiras reações justamente com o impeachment de Collor e as primeiras políticas de Itamar Franco, continuadas no governo de FHC. Tem-se aí o início da Retomada. Quando os recursos da extinta Embrafilmes foram distribuídos, os projetos paralisados puderam ser retomados e os novos diretores, que só esperavam por fomento, tiveram espaço e oportunidade. Uma das primeiras produções - ou a primeira - a se destacar internacionalmente foi o filme Terra Estrangeira, de Walter Salles.

O filme tem início com o anúncio do confisco das poupanças dos brasileiros pelo governo de Collor, e segue mostrando personagens que, pela política vigente no país, se encontram completamente sem rumo. Paco (Fernando Alves Pinto) vai para Portugal após sua mãe ter morrido no momento em que soube dos confiscos das finanças dela. Lá, o personagem conhece e se envolve com Alex (Fernanda Torres), namorada de um traficante. Os dois brasileiros, sem perspectivas, flertam com o crime e não sabem qual rumo tomar. O filme deixa clara a sensação de desamparo dos personagens e trabalha, antes de tudo, as feridas do brasileiro daquela época, o luto e a descrença na própria nação, forçando o contato do telespectador com a realidade.

Todo em preto-e-branco, Terra Estrangeira nos apresenta ao Brasil da primeira metade dos anos 90 de forma melancólica, querendo falar do presente triste que abatia o país. Marcando por abordar personagens que não conseguem ver o futuro na própria nação, o filme de Salles mostra o retorno destes - que agora tinham a imagem da terra estrangeira como uma solução - à pátria mãe Portugal. Impedidos de voltar pelas reviravoltas da trama, a imagem mais marcante do filme é aquela em os dois protagonistas estão abraçados em uma praia com um navio encalhado à beira mar, impedido de retornar ao lugar de onde saíram. Essa foi a situação de muitos brasileiros como Paco e Alex, que não tinham mais perspectivas e esperanças no futuro do Brasil. Nas palavras do próprio Walter Salles, o que abatia o país naquela época era "não mais o exílio político dos anos da ditadura, mas um novo, econômico, que vem transformando o Brasil dos anos 90 num país de emigração, pela primeira vez em quinhentos anos".

Sou apaixonado por Terra Estrangeira. É um documento magnífico daquele período do Brasil, um filme que retrata com precisão a tristeza e falta de perspectiva do brasileiro já traumatizado da era Collor. A cena mais emblemática desse filme para mim é a final, ganhando até mesmo daquela do navio a beira mar. Embalada pela canção "Vapor Barato", de Gal Costa, a cena mostra o destino de Paco e Alex, que ainda tentam voltar para a nação deles, porém, mais cheios ainda de desesperança, perdidos e sem rumo. O momento final é perplexo quanto a realidade brasileira. Apesar de se passar em Portugual, o filme, ao meu ver, abre alí a Retomada do cinema nacional. Belíssima pela composição, a cena é pontuada por uma canção que faz jus a mensagem do filme e, incrivelmente, tem tudo a ver com a situação das personagens. Fiquei até a me questionar se aquilo que Gal canta, se a "minha grande, minha pequena, minha grande obsessão" fosse na realidade o Brasil. Fica aqui a questão.

Depois de uma grande indecisão, coloquei um vídeo da cena final de Terra Estrangeira. É um spoiler gravíssimo para quem nunca assistiu ao filme, mas vale a pena ser revisto por aqueles que já o assistiram.



sexta-feira, setembro 24, 2010

A Origem

Inception (EUA, 2010), escrito e dirigido por Christopher Nolan, com Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Michael Caine, Ken Watanabe e Cillian Murphy.

Christopher Nolan é um cineasta que, em praticamente toda a sua trajetória, tentou fugir do básico, do simples e do convencional. A inversão ou experimentação em estruturas narrativas e o desenvolvimento ao extremo dos conceitos elaborados em cada filme comprovam a inquietação e as grandes intenções de um diretor que busca unir o entretenimento a um conteúdo cinematográfico de grande qualidade, e um produto industrial a idéias mais autorais, sempre tendo como ponto central a figura humana. Dessa vez, em A Origem, Nolan explora o fascinante e misterioso mundo dos sonhos, e consequentemente, do subconsciente humano, em uma trama inventiva e frenética, que evolui até o máximo e além daquilo que se espera para um único filme.

A frente de uma equipe de espiões industriais, Dom Cobb (DiCaprio) é um dos melhores no que faz, ele rouba segredos da mente das pessoas através de uma tecnologia que permite a invasão dos sonhos alheios. Uma vez dentro do sonho da vítima, a equipe tenta encontrar as informações secretas desejadas, ou então, a fim de manipulá-la, leva-a a ter outro sonho dentro do sonho no qual já se encontra, criando níveis diferentes capazes de confundi-la. Fugitivo da justiça americana, Cobb aceita a proposta do grande empresário Saito (Watanabe) de invadir os sonhos do herdeiro bilionário Robert Fisher (Murphy) da indústria concorrente para "instaurar" uma idéia, uma tarefa inédita e de extremo risco para a Cobb, seu parceiro Arthur (Gordon-Levitt) e o resto da equipe. Em troca, Cobb conquistaria a entrada livre nos EUA e reencontraria seus filhos.

Impressionando por transcender, em poucos minutos de filme, os próprios conceitos recém apresentados na trama sobre a capacidade de invadir sonhos e roubar idéias, Norlan faz questão de tornar a trama - em seu roteiro escrito de forma fenomenal - mais complexa através da inversão do principal objetivo da invasão. Invés de entrar na mente de alguém para adquirir as informações mais secretas, a equipe de Cobb passa a ser incumbida de implantar uma idéia na mente de Fisher. Esse tipo de inversão de lógica, que normalmente esperaria um segundo filme para ser explorada, torna a história infinitamente mais complexa, ao mesmo tempo em que possibilita um desenvolvimento muito mais profundo e criativo das idéias elaboradas por Norlan, assim como do modo de funcionamento do subconsciente em seu estado mais dominante. Imergindo no universo dos sonhos, Norlan cria leis para os sonhos em A Origem que não se difere muito dos nossos mais cotidianos "passeios" noturnos. Logo, fatos que ocorrem no exterior de quem sonha, e que podem ser captados pelos seus sentidos, são completamente capazes de interferir nos sonhos. Então, chove torrencialmente enquanto um personagem dorme com vontade de urinar ou sons externos são absorvidos, configurando-se como parte integrante daquela "realidade". Outra lei de igual fascínio reside na diferença temporal que existe entre o mundo real e um sonho, sendo cinco segundo no primeiro equivalente a um minuto no segundo. Um sono de dez horas, então, implica em uma semana para quem está dormindo. Se essas leis por si só tornam esse universo impressionante e cheio de possibilidades, quando inserido o conceito dos sonhos dentro de outros sonhos a história ganha complexidade, reviravoltas e um ritmo que exigem o máximo de atenção e concentração possíveis do espectador. E mesmo assim, Christopher Nolan não faz questão de se prender a explicações repetitivas, confiando na inteligência e perspicácia de seu público.

Retratando os cenários das imagens oníricas com relativa lucidez, o incrível design de produção parece fugir da tentadora possibilidade de construir cenários surrealistas ou irreais, comuns a obras que retratam os sonhos e inconsciente humano. Focando-se mais no processo de manipulação da equipe de Codd a Robert Fisher, Norlan evita devaneios e imagens confusas que possam complicar mais ainda a vida do espectador. É possível perceber, também, que a concepção dos cenários de cada um dos sonhos muito tem a ver com a subjetividade e experiências de vida de cada um. Em maior ou menor grau, isso pode ser percebido. A aparência dos sonhos arquitetados pela equipe de Cobb (isso mesmo, em cada sonho existe um arquiteto, e a esse, outros sonhadores podem ser "ligados") é diferente daquelas em que outros personagens são arquitetos.

Mesmo tendo que lidar com tamanha complexidade narrativa, o elenco de um modo geral faz um excelente trabalho. DiCaprio surge tão intenso como nas produções anteriores, e faz de Cobb um homem misterioso e complexo, quase que no limite de sua sanidade; a exemplo, a cena em que Cobb fica em dúvida se atira ou não em uma imagem de sua falecida esposa, fruto de uma projeção mental dele mesmo. A introdução de projeções da falecida esposa de Cobb logo no início do filme serve como as primeiras pistas para o misterioso passado do personagem, que vai sendo revelado em perfeita sincronia com a trama.

Mas é possível que o trabalho mais fenomenal desta produção esteja na montagem. Lee Smith teve o desafio de tornar clara a velocidade do tempo em cada um dos níveis de sonho, pois em cada sonho que os personagens se submetem, em cada nível mais profundo de sonho, o tempo passa de forma diferente do nível anterior (seguindo a escala que já citei aqui). O montador, portanto, tem completo êxito em sua montagem, pois todos os níveis de sonhos aparentaram ser dotados de uma sincronia particular graças a uma montagem inteligente e criativa. Assim, perto do clímax da ação, foi utilizado um slow motion no nível um de sonho, enquanto a urgência e caos cresciam gradativamente de nível para nível, até àquele que Cobb denomina como limbo.

Explorando ao máximo o universo criado, Christopher Nolan faz de A Origem um exemplar do gênero ficção científica, respeitando as regras estabelecidas e indo muito além do que o próprio espectador pode imagina, às últimas consequência. O desfecho, por mais confuso que seja, segue toda a lógica estabelecida desde o início e - espero que eu esteja errado - é possível que algumas pessoas acreditem ver incoerências.

Cotação: Excelente

segunda-feira, setembro 20, 2010

2019 - O Ano da Extinção

Daybreaker (AUT/EUA, 2009), escrito e dirigido por Micheal Spierig e Peter Spierig, com Willen Dafoe, Ethan Hawke, Sam Niel e Claudia Karven.

Os irmãos Michael e Peter Spierig possuem uma experiência cinematográfica relativamente pequena e pouquíssima expressiva, ambos dirigiram e escreveram apenas três filmes, entre eles, este 2019 - O Ano da Extinção, o primeiro a ter uma estrutura e repercussão de um filme A. Esta foi a primeira película que pude assistir da dupla e, à primeira impressão, pude constatar que se tratam de diretores que arriscam investir nas próprias inventividades e que são dotados de uma preciosa intenção, a de desenvolver seus personagens dentro das situações criadas. Infelizmente, eles ficam apenas na intenção e pouco conseguem fazer no desenrolar da história. Tratando de uma das criaturas mais famosas e fascinantes do cinema e da literatura, a dupla nos apresenta a vampiros que vivem em uma realidade completamente diferente daquelas já vistas em outras histórias.

Em 2019, após uma pandemia de um misterioso vírus, quase toda a população é composta por vampiros que passaram a viver de uma forma semelhante àquela dos humanos, mas ainda dependentes do sangue e sob extrema intolerância a raios ultravioletas. Praticamente dizimada, o resto da raça humana é caçada e seu sangue comercializado como alimento. Com a escassez cada vez maior do sangue humano, o governo decide criar um substituto do alimento dos vampiros. O cientista Edward Dalton (Hawke), um vampiro que não aceita a própria natureza e luta pela conservação da raça humana é um dos encarregados de projetar a substância, mas em meio a fracassos e ao caos da falta de sangue, ele acaba se juntando a um grupo de humanos que poderão ajudá-lo a salvar a humanidade.

Iniciando de forma promissora, a primeira cena de 2019 mostra uma vampira adolescente se suicidando por não conseguir aceitar as condições as quais vive, como a eterna aparência juvenil, devido a sua natureza vampiresca. O que pode parecer incoerente, na verdade, trabalha a complexidade de sentimentos existentes em um indivíduo que não morre e nem pode amadurecer. A imortalidade, geralmente tratada de forma positiva nas histórias de vampiros, logo na abertura é representada como uma característica negativa através do ponto de vista de uma pessoa. Porém, o elemento inovador desta história de vampiros se trata da premissa em que estas criaturas substituíram os humanos em seu habitat, passando a caçá-los. Essa idéia, por si só, é atraente e cheia de possibilidades, o que já conta de forma positiva para o roteiro. Além disso, os irmão Spierig nos apresenta à curiosa adaptação dessa nova sociedade formada por vampiros, onde carros bloqueiam a luz solar, vias subterrâneas possibilita o trânsito de vampiros pelas cidades e o sangue humano é extraído como uma fonte não renovável prestes a acabar.

Explorar a natureza vampírica sob a ótica da não aceitação desse mal e da culpa, remete, de certa forma, a série X-Men, em que mutantes tentam lidar com os próprios poderes especiais enquanto são discriminados socialmente. A diferença é que, enquanto a mutação é um dado natural em X-Men, o vampirismo em 2019 é decorrente de uma infecção, o que nos faz traçar um paralelo imediato dos vampiros com doentes e do vampirismo como um sintoma. Dessa forma, é louvável a intenção dos diretores em retratar o conflito de alguns personagens com a natureza vampírica, como a auto repressão de Edward Dalton aos seus instintos vampiresco, que, evitando ingerir sangue humano e não se conformando com a dizimação da humanidade, não hesita em tentar se transformar novamente em humano quando se ver frente a essa possibilidade.

Coerente a realidade de uma civilização dominada por vampiros, o diretor de arte Bill Booth faz um bom trabalho ao usar arquiteturas e designers sofisticados e elegantes, sempre com tons escuros, luzes que variam do branco ao vermelho, refletindo bem as características desse famosos personagens. O mesmo pode ser percebido nos figurinos compostos quase que predominantemente por cores neutras, mas com uma estilização meio retrô, tentando remeter ao estilo mais tradicional dos vampiros. A fotografia, no entanto, é decepcionante pelo exagero nos tons de azul escuro, quando não, num sépia forçado em imagens que mostram a luz do dia, o que entrega a imaturidade do fotógrafo Ben Nott, que tenta criar uma atmosfera mais envolvente sem sucesso.

Evitando a artificialidade vista na maquiagem dos vampiros da saga Crepúsculo, a equipe de maquiagem de 2019 se sai muito bem ao dar o tom branco pálido à pele dos atores, assim como dá a aparência realista e impressionante às criaturas chamadas de subespécies, uma evolução dos vampiros que sofrem abstinência de sangue humano. Os efeitos especiais, impressionantemente, cumprem muito bem o seu papel, desde o aspecto pastoso do sangue humano coagulado, até as sequências de ação, falhando apenas em alguns detalhes, como a aparência das pupilas dos vampiros que aparentam terem sido criadas digitalmente. As cenas de ação, como aquela em que uma subespécie invade a casa de Edward e ataca a ele e seu irmão, são eficientes e causam a tensão e impacto necessários aos espectador.

No entanto, as maiores falhas de 2019 residem no seu roteiro. Justamente por abordar uma proposta promissora, o roteiro deixa a muito a desejar por não desenvolver os conflitos possíveis. A relação de Edward e com o seu irmão Frankie - que gosta de ser vampiro - pouco acrescenta a trama, já que a diferença ideológica de ambos não serve nem para esclarecer os motivos que levam alguns indivíduos a gostar de ser vampiro (algo do qual ainda falarei). Já Charles Bromley (Niel), o homem a frente do laboratório de hematologia responsável por desenvolver o substituto do sangue, surge como um "vilão" bidimensional que, mesmo demonstrando se importar com a filha, não hesita em transformá-la em uma vampira contra a própria vontade dela. É mais um daqueles que parecem gostar muito de ser vampiro.

Ao contrário de X-men, 2019 esquece de desenvolver os motivos que levam alguns vampiros gostarem de serem vampiros. Se na série dos mutantes vemos o orgulho que o vilão Magneto sente de seus poderes, tudo o que este sofreu e que o levou a se voltar contra a humanidade (Magneto acreditava que um novo holocausto aconteceria com os mutantes); em 2019, aqueles que se orgulham de ser vampiro têm sua postura fracamente justificada. Frankie, o irmão de Edward, dá uma justificativa pedestre de gostar de ser vampiro porque nunca conseguiu ser um bom humano, enquanto Charles Bromley parece não sentir o menos remorso de extinguir os últimos integrantes da humanidade, o que uma falha significativa, pois nas primeiras cenas do filme já fica estabelecida a proposta de vampiros com certos comportamentos e consciência humanas.

Interessante por estabelecer conceitos novos, 2019 - O Ano da Extinção decepciona por não respeitá-los e ao deixar escapar as diversas possibilidades de examinar o comportamento dessas criaturas fantásticas imersas em um contexto peculiar para elas.

Cotação: Regular

sábado, setembro 18, 2010

Pra Quem Acredita na Velha Mídia

A dita velha mídia perdeu mesmo a mão. Enquanto pesquisas afirmam que os formatos e veículos mais tradicionais de jornalismo no Brasil estão perdendo credibilidade, estes mesmos parecem não se dar conta dos fatos e divulgam informações que não possuem comprovação alguma em forma de denúncia. Depois que as acusações demonstraram não surtir o efeito desejado, apenas esquecem-se do assunto. Em tempos de eleição, a Veja, Folha, O Globo e tantos outros veículos vindos do mesmo saco favorecem indiscretamente a campanha do candidato do PSDB José Serra, seja através de "denúncias" que prejudiquem a campanha da candidata Dilma Rousseff, ou no simples favorecimento ao candidato "ocultamente" aliado.

Há alguns dias, a Veja divulgou que o filho de Erenice Guerra 'obteve R$ 5 milhões' na intermediação de uma empresa de transporte aéreo com os Correios. Já a Folha de São Paulo, dias depois, veiculou que um lobby opera dentro da Casa Civil da Presidência da República e acusa filho da ministra Erenice Guerra de cobrar dinheiro para obter liberação de empréstimo no BNDES para um empresário, fora as acusações
de que o comitê de Dilma Rousseff teria violado o sigilo fiscal de um grupo de pessoas ligadas ao PSDB e a seu candidato presidencial, José Serra. Esse mesmo jornal chegou a publicar na capa de uma edição do ano passado uma ficha falsa e incriminatória de Dilma Rousseff, e a própria Folha de São Paulo assumiu que essa ficha fora recebida por e-mail. Ou seja, uma informação completamente isenta de credibilidade e comprovação.

Interessante que essas acusações feitas através desses veículos são divulgadas em uma velocidade surpreendente por outros jornais, telejornais, revistas e programas radiofônicos da mesma velha estirpe. As denúncias são, na sua maioria, feitas sem uma prova concreta como base e de forma precipitada, ganhando espaço e importância desmesurados, em tons de escândalos já corriqueiros, mesmo que atentem contra a imagem e honra de alguém. Coincidência? Corrupção deve sim ser denunciada, mas o objetivo maior do jornalismo é informar trabalhando dentro de princípios éticos. A maior falha da Veja, Folha, grupo UOL, entre outras é de não assumir sua posição política, fingindo uma imparcialidade e compromisso com a verdade.

Por que o caso da mega quebra de sigilo promovida em 2001 pela filha de José Serra, Verônica Serra, e a irmã de Daniel Dantas, Verônica Dantas, não ganha igual repercussão? Por que essa
matéria da Carta Capital não teve igual repercussão? Nesse post, o cineasta Jorge Furtado mostra a ficha do consultor que a Folha de São Paulo usou para formular acusações contra a ex-ministra Erenice Guerra, e aqui, Luiz Carlos Azenha detalha o tendenciosismo do mesmo jornal na construção da reportagem.

terça-feira, setembro 14, 2010

Conheci São Paulo Dias Antes de Chegar Lá

Há quase duas semanas pude visitar pela primeira vez a cidade de São Paulo. Foi uma oportunidade única, pois na mesma viagem eu pude desfrutar de dois importantes eventos culturais da metrópole, a Bienal Internacional do Livro e o Festival de Curta metragem de São Paulo. E, de quebra, conhecer a cidade. Ao ter certeza que a viagem aconteceria, meu espírito explorador tomou as rédeas. Pouco conhecia sobre São Paulo, estávamos eu e mais duas primas queridas, e nenhum de nós havia ido lá antes. Sem guia, decidi fazer o meu próprio guia de viagem e foi nesse instante que a viagem começou. Participar dos eventos e conhecer essa cidade incrível em apenas cinco dias era meu objetivo, então diminuir trajetos e perdas de tempo era fundamental. Isso só se tornou possível graças a algumas ferramentas.

Devo dizer que a maioria das pessoas tem uma imagem de São Paulo da qual não concordo, cheguei até a ouvir que "SP não tem nada para se fazer, a cidade não tem praia". No entanto, o simples fato de poder conhecer outra cidade, culturalmente rica, e também participar de dois eventos de interesse pessoal era o suficiente pra me deixar ansioso. Dominado pela curiosidade e por uma breve noção a respeito da noite paulistana e de alguns outros pontos turístico como o Parque Ibirapuera e a Vila Madalena, iniciei minha jornada virtual em busca do que seria interessante descobrir por lá.

Conhecer um pouco a cidade com antecedência foi até uma forma de me sentir seguro em um local estranho, e também de estar antenado, de estar consciente do que rolaria na cidade. A princípio, busquei sites de turismo de São Paulo, voltados a apresentar a cidade e os seus points culturais. Cada lugar me levava a uma rua, que me levava a um bairro, do qual eu teria que chegar por alguma avenida, que eu poderia ter acesso por alguma linha de metrô, e assim por diante. O mais importante, então, era saber de onde eu sempre partiria, o meu local de hospedagem. E minha mania de planejamento me levou até a buscar o melhor trajeto do aeroporto até o hotel.

Após os sites de turismo, fui em busca de compreender geograficamente a cidade, e passei a acessar o Google Maps, que destrinchava bairros, avenidas, ruas e lugares. Passei a ter um certo conhecimento "virtual" da cidade e a descobrir onde se localizava certos pontos. Confesso que achei isso muito divertido, me parece uma forma de não ter apenas uma noção superficial da cidade em uma "visitada" pouco informativa. Na verdade, bom mesmo é explorar e conhecer a fundo, tentar sair da visão turística, mesmo que isso seja quase impossível. E o Google Maps funciona perfeitamente para isso, pois, apesar de apresentar a cidade (o mundo) de forma mapeada, define trajetos pelas ruas da cidade, apresentando tempo e distância, e abre links para sites de determinados lugares identificados nos mapas, como shoppings, restaurantes, bares, casas noturnas, museus, estações de metrô e trem, hóteis, etc.



Se o Google Maps situa o usuário através de uma estrutura hipermidiática, o Google Earth impressiona pelas já habituais imagens de satélite, mas com as mesmas disponibilidades de links que no Maps. Funções como a definição de trajetos virtuais pela cidade também são disponíveis.



O diferencial está mesmo é na possibilidade do usuário de postar imagens reais de locais por onde passou, aproximando cada vez mais o software da Google a um passeio virtual pelo mundo. Enquanto o Maps me localizava geograficamente, o Earth me apresentava a cidade virtualmente. Funções como a flexibilidade do ângulo de visão do usuário (90º até quase 0º do chão) e as construções 3D de prédios e relevos dão o toque mais realista e são parte de uma evolução constante do software, que a Google já divulgou que, futuramente, será um passeio virtual pelo mundo com imagens reais e em 3D. A seguir, imagens de construções em 3D, uma do MASP, na av. Paulista; e a outra, da ponte Estaiada.



Ao chegarmos a Sampa, não deu outra. Mais reconheci do que conheci, e, de quebra, instrui o motorista do taxi que não sabia bem onde estava o hotel. O resultado foi uma viagem intensa, cansativa e proveitosa, sem perdas de tempo, sem muitos pedidos de informação, e poucos gastos com transporte. Participei razoavelmente dos eventos e pude ainda conhecer bem a cidade. Ah, eu com um GPS!

terça-feira, setembro 07, 2010

Novos Planos e Metas

Este blog, definitivamente, é um termômetro que mede o ritmo e o entusiasmo das minhas idéias. Não sei ao certo o que influencia o que primeiro, se o blog me leva a abrir reflexões e a ter visões mais entusiasmadas a respeito dos temas que aqui pontuo, ou se minhas postagens são reflexo de uma movimentação interior minha. Coincidentemente, o tempo que passei escrevendo para este blog, mesmo que esporadicamente, senti um progresso considerável tanto no consumo quanto na produção de informação e cultura. O contrário ocorreu enquanto me mantive distante daqui.

Não é de hoje que acredito que este espaço possa influenciar radicalmente nos meus hábitos, idéias e paixões. O fato é que um breve post sobre Cinema 3D já foi o suficiente pra movimentar a minha cabeça e sentir a empolgação de fazer este blog funcionar como um processo de desenvolvimento pessoal e profissional.

Direto ao assunto. Pretendo assistir a um filme por dia e comentar o máximo possível todos eles. A vontade existe. Se vou conseguir, não sei. Tenho muitas tarefas, mas não deixa de ser uma meta interessante. Vamos lá!

domingo, setembro 05, 2010

Considerações sobre o Cinema 3D


www.cinemaadentro.tk
Um dos maiores equívocos em grande parte das propagandas de cinemas 3D e nos próprios filmes que hoje experimentam essa nova tecnologia é a promessa de transportar as imagens para fora da tela, como se essa impressão ótica fosse o grande trunfo dessa nova tecnologia. Foi por conta dessas propagandas enganosas que senti uma certa frustração ao assistir pela primeira vez a um filme em três dimensões, há quase dois anos. Tratava-se da segunda película projetada em 3D na cidade onde moro, o filme-concerto U2 3D, que mostrava vários trechos da turnê Vertigo Tour, da banda irlandesa. Lembro de ter percebido que essa tecnologia não apresentava tamanha liberdade aos objetos cênicos de um filme como sempre foi propagado por aí, o que havia era apenas uma percepção mais palpável e realista destes.

O mais interessante é que essas propagandas enganosas parecem ter sido disseminadas como consequência de uma grande incompreensão da própria tecnologia que estava (ainda está) sendo experimentada por parte dos produtores de cinema e dos exibidores. Dessa forma, o maior problema não reside nas já velhas e descredibilitadas propagandas de cinemas 3D, mas sim nas novas empreitadas cinematográficas com essa tecnologia. É visível que muitos produtores de cinema não entenderam ainda a essência e as verdadeiras potências da imagem em três dimensões. Muitos filmes 3D, ainda hoje, são feitos tendo como base a ingênua idéia de que a terceira dimensão da imagem pode proporcionar uma maior interatividade ou impressão de que os personagens ou objetos podem sair da tela, levando o espectador a sentir-se mais dentro daquela realidade fictícia.

www.cinemaadentro.tk
É fato que existe um sobressalto quando um objeto com aparentes três dimensões voa em direção ao público, a impressão de solidez e palpabilidade realmente existe, mesmo que mínima. Contudo, na tecnologia 3D todas as imagens estão presas a tela, nada dali sai, pois diferentemente de uma imagem holográfica a 3D não ocupa um lugar em um espaço real, mas sim simula este espaço. Em sua essência, o cinema em três dimensões não foi criado para transpor nada da tela, e nem para criar esta impressão; ao contrário, ele parte do princípio de criar a profundidade dos elementos na imagem, através de uma técnica chamada estereoscópia, que consiste em captar uma mesma imagem em dois ângulos diferentes alinhados de forma horizontal, como se fosse a imagem de dois olhos, um esquerdo e outro direito. Essa técnica permite que vejamos objetos em uma imagem dotados de profundidade e não chapados, como na imagem de duas dimensões. A terceira dimensão, aliás, é a própria profundidade.

Já a tentativa de provocar essa impressão de transposição da tela (ou parede) pode acabar resultando para o espectador em uma frustrante quebra da quarta parede, o que, consequentemente, destrói a ilusão quando este descobre que objeto nenhum sai da tela, pois claro, tudo aquilo é ficção. Indo na contramão de muitas produções, a recente animação Como Treinar o seu Dragão esquece de tentar impressionar o público com os já clichês de "atirar coisas contra a platéia" e passa a trabalhar com o que realmente importa na imagem tridimensional: o seu terceiro elemento, a profundidade. Dessa forma, assim como no recente e impressionante Avatar, o que está no fundo, a nova dimensão dessa realidade fictícia e as impressões que causam ao espectador ganham maior relevância e são melhor experimentadas.

O cinema 3D não veio pra confundir a realidade fictícia da tela com a nossa de espectador, nem para confundir os espectador com o personagem. O cinema 3D veio pra tornar aquela história fictícia mais verdadeira, pra trabalhar mais ainda a nossa fantasia e imersão. No dia que o cinema se transformar numa espécie de game holográfico aí sim transportar objetos e personagens para fora da tela pode passar a funcionar narrativamente.

segunda-feira, abril 05, 2010

A Casa de Alice

Após o término da projeção de A Casa de Alice, a primeira coisa que pensei foi: "Como um filme que começa tão bem e equilibrado pode se perder no meio do caminho, mas ainda assim ter um desfeixo satisfatório?". Não foi preciso eu o rever muito em minha mente para descobrir o que me incomodou. A Casa de Alice é mais um filme que segue a vertente de alto realismo do cinema brasileiro atual, que procura antes de tudo nos convencer daquelas vidas e criar na tela uma realidade quase tão palpável como a nossa (dos brasileiros), dessa vez, de uma família brasileira de classe média, apostando na crueza da imagem, nos sons ambientes e em atuações tão naturais quanto o diálogo mais banal que uma familia possa ter.

Tudo começa com planos nos vários cômodos da casa de Alice. Vemos os quartos, sala, cozinha, banheiro, varanda, e o despertar das personagens que, nas próximas horas, teriam que conviver por mais um dia uns com os outros. Em seguida, somos apresentados a vida e intimidade de Alice (Carla Ribas), uma manicure que mora na periferia da cidade de São Paulo com a sua família. Aos poucos presenciamos os vários conflitos familiares, do casamento desgastado entre Alice e seu marido, passando pela difícil convivência entre os seus filhos, aos problemas de saúde da mãe desta.

Tratando com grande naturalidade a vida dessas pessoas, a direção é eficiente em manter os acontecimentos, por mais dramáticos que sejam, distante do melodrama, sem em momento nenhum tentar comover o público, deixando que a situação destes personagens o faça por si só. A ausência de trilha sonora é um dos elementos que compõem o caráter tão real e quase documental do filme, permitindo que apenas os sons da cidade de São Paulo que invadem o pequeno e simples apartamento de Alice preencham o ambiente desta família. São os sons da vida que, pela sua presença, causam as emoções na medida incerta, confusa e incapaz de conduzir, como a trilha, as sensações do público, sendo um dos elementos fundamentais que conduzem o espectador a ter, assim como a protagonista, uma idéia pouco clara e condensada da vida de Alice.

Outro elemento que contribui para essa construção é a câmera sempre ousada que pega os planos mais incomuns, ou tão comuns, indiscretos e nada convencionais da família, sem grandes truques, com apenas o suficiente para que entendamos as situações que ocorrem na casa, assim como em um documentário, ou mesmo em um documento de famila. Tendendo a nos mostrar um drama familiar focado mais no coletivo, como se a família fosse um grande personagem em conflito interno, as situações são abordadas com pretensa neutralidade, enquanto a câmera sempre exita em buscar uma aproximação das personagens ou o ponto de vista particular destes, com a excessão de Alice, que de todos, parece ter seu contra-plano mais próximo da lente.

Como uma estória voltado para tal objeto, somos levados a acompanhar em difícil rítmo cotidiano a vida dessas pessoas. Filmes desse gênero são, assim como a vida, de mais difícil condensação, presenciamos fatos repetidos, com poucas modificações e uma trama que difícil evolue por justamente estar centrada na inércia que é a vida destes personagens. Apenas pequenas e singelas tramas se desenvolvem, deixando claro que houve um antes e um depois, sem dar um caráter especial aos eventos, mas sim, enfocando aquele presente representativo daquelas pessoas.

A Casa de Alice falha, no entanto, ao tentar fazer do filme um experimento narrativo ousado em um roteiro já complexo, delicado e pontuado por fatos tão discretos e comuns. O diretor Chico Teixeira, juntamente com a edição de Vânia Debs, confundem o telespectador e pouco acrescentam ao filme com as suas reviralvoltas na estrutura narrativa. Em determinado momento do filme, avançamos perceptivelmente algum tempo da trama, com uma elipse que esconde alguns fatos que veremos somente mais para frente, quando essas cenas "puladas" são inseridas, constituíndo assim uma edição recortada. Se essa estrutura já se apresentava confusa em um filme que mostra o cotidiano das personagens, sem pontos de referência na trama, sem fatos que marquem e nos ajudem a ligar os pontos no final, mais difícil ainda se torna a organização dos eventos na cabeça do espectador quando situações ocorridas num tempo antes dos eventos aos quais o filme presencia são mostrados. Cenas que mais se tratam de um flashback e não mais de um recorte de edição.

Toda essa estrutura impossibilita o público de organizar alguma ordem para as cenas e para os fatos no pós-sessão, chegando a frustrar pela incapacidade de se compreender completamente a evolução das situações. No entanto, suponho que a intensão dessa edição seja a de tornar toda aquela estória em algo menos sintetizante e confortavelmente interpretativo para o público, assim como a personagem a respeito de sua própria vida, ao mesmo tempo que conduz cada vez mais a atenção do público para o significado em si das cenas. Porém, não é justo o sacríficio da compreensão da estória quando a última cena, por si só, causaria o impacto necessário capaz de confundir e inquietar o espectador a respeito da vida daqueles personagens. Um excesso de retórica. Confusões a parte, sejam elas úteis ou não, A Casa de Alice é um documento realista e angustiante daquela prostagonista e sua família.

quinta-feira, novembro 05, 2009

O velho Caetano (e bom)

Entrei com muita expectativa na sala de cinema. A gente sempre espera ver algo surpreendente quando se trata de Caetano Veloso. A sinopse do filme Coração Vagabundo não dizia muita coisa, apenas ressaltava a presença de Paula Lavigne, Pedro Almodóvar, Michelangelo Antonioni, Gisele Bündehen, David Byrne e que o diretor Fernando Andrade "deixou o musico livre para dissertar sobre a saída de sua cidade natal, o sucesso no Exterior, a relação com Almodóvar e a separação de Paula Lavigne".

Algumas matérias de sites e jornais forma além: a atenção sobre a nudez de Caetano na cena inicial indicando a intimidade a qual o filme se propõe, a tentativa do diretor em apresentar o artista como um cara simpático e bem humorado às novas gerações, o medo de Caetano em envelhecer à preocupação em ser maquiado, as opiniões sobre quase tudo e a contestação da afirmação de Hermeto que o considerou um "musiquinho" afirmando ser a música americana a melhor do mundo.

Tudo isso está mesmo no filme, mas sem uma narrativa que nos atraia. Quem não gosta de Caetano poderá odiar o filme e mais ainda o artista. Então, melhor do que ver o filme é ouvi-lo. E como é bom ouvir Caetano no cinema! Sua voz fraca e violão primitivo crescem embalados com os arranjos modernos apresentados no álbum "A Foreing Sound" e a guitarra jovial de Pedro Sá.

O simpático Caetano que pretendeu ser apresentado a mim soou o mesmo Caetano com sua falsa-modéstia de sempre, do tipo que diz "eu não sou tão bom assim" quando quer afirmar o contrário, quando diz que não fala tão bem inglês mesmo tendo feito composições na língua britânica e ter gravado um álbum cantando em português/inglês como foi "Transa".

A transgressão de Caetano no filme ou "intimidade" não está na cena em que ele aparece nu. Aliás, não se vê quase nada. O que choca mesmo é o discurso sobre a velhice a partir de um homem velho que não se considera pejorativamente velho e que nunca se imaginou envelhecer como está hoje. Caetano nos ensino que o tempo dele é outro: o tempo de quem aprendeu a desacelerar e aprendeu que sempre há tempo sobretudo quando tem-se a idéia de que ele vai acabar num instante. Há mais vida, vontade e entusiasmo no Caetano de hoje, aos sessenta e tantos anos, do que naquele dos anos sessenta que gritava com impaciência e pressa: "É proibido proibir".

Em tempo: Paula Lavigne aparece estereotipada como chata no filme, Gisele Bündehen é absurdamente desnecessária na estória, Antonioni não diz muita coisa, Almodóvar podia ter dado um beijo na boca de Caetano que chocaria mais que o nu, e Pedro Sá não abre a boca. Mas o filme é bom? Não e eu gostei. Porque me fez refletir sobre o medo de envelhecer, porque é linda a cena do passarinho que pousa no ombro do companheiro de Caetano no Japão, porque Caetano continua sendo para mim uma referência estética artística e deu mais vontade de curtir o show dele aqui em São Luís, no dia 14.

"Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval. Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal. Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual. Já tem coragem de saber que é imortal" (O Homem Velho. Caetano Veloso)

Texto escrito por meu amigo desblogado Alberto Junior.


Ótimo texto, Alberto; e interessante análise. Atrevi-me a por umas ilustrações, mania minha! Obrigado pela contribuição ao blog.

terça-feira, outubro 27, 2009

Crise Virtual, Filho Abandonado

No início você possue milhares de idéias. Idéias que você pretende gritar, exibir, defender e discutir. Daí surge um blog. São posts e mais posts, sempre constantes e tudo o que passa na cabeça é, de imediato, um novo texto em potencial. A internet fez maravilhas, configurou novos modos dos indivíduos se relacionarem e a blogosfera se mostrou um ótimo terreno para que cidadãos comuns e celebridades pudessem expor suas idéias ou a ausência delas. Comigo foi assim! Comecei cheio de ânimo, idéias e vontade de exibí-las. Ter esse espaço pessoal dentro de um veículo de comunicação interativo é empolgante, libertador e uma ótima forma de se exibir. E uma coisa é certa, a vontade de ter um blog está sempre acompanhada de um certo exibicionismo, da vontade de se mostrar. Seria ignorância de minha parte fingir o óbvio.

Desde que descobri a internet me vi um viciado. À princípio, eu a usava como fonte de pesquisa sobre produções cinematográficas (não podia comprar a revista SET!). Depois, com toda a intensidade da vida acadêmica, o ciberespaço se tornou quase fundamental na minha vida: contatos, pesquisas, estudos, diversão e o próprio entendimento da ferramenta internet. Ao mesmo tempo, tornei-me um viciado em Lost, e parte da série acontece em debates virtuais. Fiz, então, meus perfis virtuais: orkut, facebook, msn's, etc. Os meus impulsos de comunicador logo me trouxeram à blogosfera. Precisava falar!

Uma vida virtual intensa. Então veio a minha monografia, possível graças a internet e aos sebos virtuais. Foram seis meses imerso! No auge da minha vida virtual descobri o Twitter, uma torrente de links e mais links, informações e mais informações, pessoas e mais pessoas, piração total. Então simplesmente parei, completa, subta e naturalmente. Houve uma espécie de saturação para mim desse ambiente, experimentava de tudo ao mesmo tempo e simplesmente comecei a perder o tesão por isso tudo. Desde meados do primeiro semestre pouco acessava a internet. Olho meu orkut, hotmail, e mal. Mas essa tempo dado foi bom, um dos maiores perigos que há nessa era da informação é você se perder no meio delas, sem saber para onde ir e o que fazer. Sei que como uma comunicador preciso conhecer e experimentar todas essas ferramentas virtuais, analisá-las, reconhecer seus potenciais, mas como um usuário devo cobrar de mim a seletividade.

Nessa minha crise virtual abandonei meu maior filho, o .Ponto-de-Vista. Não é um blog famoso, supervisitado, nem bem atualizado, mas é um espaço próprio, gostoso, de reflexão, que só a maravilha da internet poderia proporcionar. Nunca uma morcinha, nunca uma vilã, a internet vai ser sempre o reflexo de nós mesmos.

De volta ao ciberespaço!

domingo, julho 05, 2009

Who's bad?

Quando eu fazia a segunda série do primário, lembro que a Globo exibiu uma espécie de documentário ou algo parecido sobre Michael Jackson, mas não me recordo qual era a abordagem, não havia assistido, apenas pude escutar comentários eufóricos na sala de aula. Não vivenciei a era MJ, o seu auge. Fora esse momento de minha infância e outros raros, apenas agora, após a morte do cantor, que pude constatar novamente o significado dele para uma grande parcela de pessoas que puderam acompanhar a sua carreira e vivenciaram o cenário musical dos anos 80, enquanto a sua influência e originalidade na música pop sempre me pareceram óbvias. De resto, as tantas outras referências que eu tinha do cantor se tratavam das notícias sobre as esquisitices e escândalos, assim retratados pela imprensa, como as acusações de pedofilia e as mudanças físicas.

As referências negativas foram tantas que, por maior que fosse o carisma de MJ, fiquei surpreso com o tamanho do impacto e a comoção de algumas pessoas. Esperava que houvesse mais críticas por conta da possível causa de sua morte, ou que uma visão negativa prevalecesse, mas parece que todo o caráter doentio insistentemente divulgado pela imprensa ou criticado por muitas pessoas se esvaziou, dando-me uma forte impressa de uma grande e horrível hipocrisia. Eu sei, não é nenhuma novidade.

Para mim, que pouco sabia sobre o cantor mesmo gostando de suas músicas, em todas as notícias e suposições negativas sobre o MJ, sempre pairava uma dúvida sobre quem era aquele artista ou aquela pessoa escondida por trás daquele rosto esticado, branco e inexpressivo; era uma imagem bizarra que, de alguma forma, criava uma desproporção no comportamento dele próprio, e eu não vi alguém ousar em tentar entender levemente alguns dos seus comportamentos. Ao contrário de hoje, que é muito conveniente que se esclareçam todos eles. Confesso que aquela imagem de MJ mostrando seu filho na sacada nunca me chocou de fato e que nunca consegui entender o processo de causa e efeito entre a gravidade daquela atitude e o espanto da imprensa. Mas claro, não era uma pessoa segurando um bebê em uma sacada, era um ET, e pior, um ET que já havia sido acusado de pedofilia. E na mente miúda de muitos formadores de opinião, a imagem de MJ era inquestionável, não importando seu passado e nada mais.

E eu me questiono. Por que a mídia, muitas vezes, se mostra incapaz de tentar compreender razões invés de denegrir pelo fato em si? É, de fato, necessário que o indivíduo morra ou que a canalhice do seu pai seja novamente constatada para se entender o quão perturbado pela sua própria história essa pessoa era? Não sou nenhum ingênuo, o fracasso de uma estrela também é tão vendável quanto o sucesso e a sua morte, mas hipocrisia e oportunismo são sempre algo a se questionar.

Não ignorando os escândalos de outrora e nem apenas usando o termo "problemas familiares" para justificar mecânica e artificialmente as várias atitudes de MJ, como a maior parte da mídia tem feito no desespero de homenagear e "honrar" a imagem do artista - porque assim é que se se deve vender quando a estrela morre -, esse curto e ótimo podcast da CBN, de forma cômica, reflete sobre a pergunta aberta pelo próprio cantor. Para ouvir clique aqui!

Bom! Parece que biografias de verdade são feitas apenas depois que o personagem já morreu. Talvez, por isso, o cantor Roberto Carlos proibiu a sua de ser lançada recentemente!